segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Processos existenciais e livre pensamento


 
"Sou um cérebro,  Watson. O resto é um mero apêndice!" (Sherlock Holmes, personagem de Arthur Conan Doyle)


Por que a algumas pessoas que até gostaríamos de ter mais próximas, nós mesmos colocamos obstáculos à aproximação delas, e outras que conhecemos bem menos nos atraem tanto, ainda que saibamos quase nada delas? 

Resp. – Tenho pra mim que seja porque não atingiram o momento delas como “destinatárias” das mensagens que fazemos chegar aos outros, e que talvez teríamos a atribuição de enviar. Apenas as que já atingiram esse patamar de entendimento é que se aproximarão, assim como nós delas. 


E como é que você, como mensageiro do processo, chega a uma resposta como essa que ofereceu para a questão anterior?

Resp. – Não sei. Simplesmente começo a escrever e elas vão aparecendo na tela sem que eu pare pra pensar no que vou teclar.  É mais automático do que racional.

 

Vê isso como uma espécie de “psicografia” que lhe chega de um plano espiritual?

Resp. – O que sei é que não o sinto com esse formato que se costuma dar ao processo, e até me vem um sentimento de reagir de forma contrária a essa idéia, como se fosse uma espécie de “não”. Sei apenas descrever o que percebo, sem preocupação alguma com a origem nem com o destino, através de uma idéia ou pensamento instantâneo seguido de uma vontade que me força a interromper o que esteja fazendo para registrar o que sinto naquele mesmo instante, e divulgá-lo por um instrumento qualquer. Pode ser um meio eletrônico, onde sinto ser necessário selecionar pessoas em especial ou não, dependendo do conteúdo e por um critério que não escolho de forma lógica. Pode ser por um livro que precise iniciar, por um texto que dependa de uma pesquisa minha, por uma frase em forma de pensamento, ou até por uma simples imagem que passe algum tipo de entendimento. Nunca sei o que vai sair como resultado. Apenas a idéia surge clara na mente requerendo ser repassada a alguém que irá recebê-la, mas não sei quem, onde se encontra, nem quantos serão os receptores.  Então simplesmente faço aquilo, sem buscar explicar porque tudo acontece.  Aliás, odeio a idéia de me ver como “profeta”, mensageiro do além ou responsável por uma “missão”. Esse pensamento entra em conflito com sentimentos fortes e com outras convicções que trago dentro de mim acerca de minha própria realidade e a daquela que me cerca. 


Mas como explica então o que é levado à prática?

Resp. – Não sei dizer. Apenas que não procuro explicá-lo, e nem se isso é ou não um papel delegado por uma “força” qualquer externa ao que possa entender. Racionalmente nunca desenho a figura dessa tal força em minha cabeça, pois que me enxergo repetindo a mesma história que as pessoas vêm protagonizando há milênios para se sentirem especiais e “escolhidas”.  Mas uma coisa é o que sinto através do meu racional, e outra é o que sei que preciso fazer porque o sinto presente demais em meu emocional para ignorá-lo. A questão é que não procuro encaixar isso em nenhum modelo, ou dar a ele uma explicação à luz da minha lógica. Apenas sigo meu instinto em vez de dar um nome a qualquer elemento do contexto todo. Penso que se isso é algum tipo de “papel delegado” por uma força desconhecida qualquer, seja que nome lhe dêem, ou se é algo criado dentro de minha própria mente, para mim é o que menos importa. O que importa é o que eu sinto, preciso, e externo. O resto não passa da necessidade humana de dar explicação pra tudo, coisa com que eu não me preocupo, e procuro ficar atento para não entrar nesse tipo de coisa! Se existe mesmo a tal força, não cabe a mim afirmá-la ou negá-la para que continue existindo, pois que sua natureza seguirá a mesma, independente de mim. Meu papel é estar aberto ao sim e ao não. Optar pelo sim ou pelo não é demais pretensioso para meu entendimento. Qualquer dos lados posiciona seu defensor como “dono da verdade”, daí que vejo “o caminho do meio” como a forma mais honesta dentre todas, e a mais despretensiosa. Aceite-se apenas buscador e espere. Se a verdade for possuidora de escolhas, ela escolherá chegar a você ou não. O resto todo não vai além da vaidade de dominar o conhecimento. 

 

E o que tem de errado em encaixar o que descobrimos em um modelo conhecido?

Resp. – Nada específico no que toca ao “errado”. Apenas eu rejeito a ideia de uma forma natural e espontânea e procuro minha própria zona de conforto, que é a de não enveredar por esse caminho comum das crenças e interpretações tradicionais. Vejo um universo pleno demais de enigmas para que humanos de um planetóide qualquer como o nosso se arrogue a sabedoria de querer explicá-lo ou encaixá-lo em sua "caixinha de miudezas", reservando uma gavetinha para cada uma delas. Será mesmo que precisamos entender tudo o que ele nos apresenta? Vejo a busca uma necessidade absurdamente necessária, a ponto de não passar um dia sequer sem sair em busca de alguma resposta, mas contrariamente a isso a inteligência me lembra que nunca conseguiremos dominar o conhecimento dessa imensidão toda, e então me recolho a minha insignificância de alcançar um degrauzinho de cada vez, sem me preocupar em dar um salto maior do que minha perna alcança, e muito menos pensar que cheguei à resposta final. Nisso que você me perguntou, por exemplo, sobre o porquê do que faço a partir dos pensamentos – e sentimentos – que me brotam na mente, eu reconheço haver muita coisa acima do que conseguiria explicar à luz da minha própria lógica e de tudo o que absorvi de conhecimento até aqui. Ficaria louco se tentasse explicá-los por tais parâmetros. Sei que muitos também sentem o mesmo. Apenas ao chegar nesse ponto uma enorme parcela dessas pessoas insiste em encaixá-las em alguma “caixinha”, ou se arvoram ao patamar de se sentirem “mensageiros de Deus” ou de alguma força que se sobrepõe a tudo o que conhecem. Ao contrário disso, eu sinto que, atingido esse ponto, é hora de parar onde estou e não ficar tentando pular de degrau. Se a resposta existir, em algum momento ela chegará até mim. Se ainda não existir – e pouco importa qual seja sua origem – fica claro que só me resta esperar ou esquecer, em vez de me colocar naquele patamar de “anunciar a Nova ao mundo”. Meu papel é falar apenas do que entendo, ou provocar as pessoas para que elas passem pelo mesmo processo de questionamento por que passei. Mas encontrar ou não a resposta é papel de cada um, e fazer o mesmo caminho mais ainda. Apesar de haver atuado como professor minha vida inteira e parecer incoerente o que vou dizer, não acredito que ninguém ensina nada para pessoa alguma. Apenas oferecemos algumas chaves – que é o papel de quem se propõe a lidar com o conhecimento – mas quem abre ou não a porta do depósito para guardar o que lhe parece importante é quem o recebe.

 

Essa forma tão especial de pensar o que o cerca não induz as pessoas a pensar que toda a vaidade que vê nesses “donos da verdade” também não se faz presente em você, e na realidade o que deseja é se mostrar diferente, ou até superior à maioria das pessoas?

Resp. – Já li em algum lugar que uma coisa é como nos vêem, e outra é como realmente somos. Não sou responsável pela forma como me possam enxergar ou pelo que as pessoas pensam a meu respeito. Só entendo daquilo que trago em mim mesmo, e nem sempre de uma boa parte destas últimas. Mas minha verdade não precisa ser reconhecida – e já falamos disso – para que seja autêntica. Só eu preciso saber que é. E mesmo quando esse lado “especial” de mim, que você mencionou, pareça arrogante aos outros, em mim bate apenas como uma forte vontade interna de ser eu mesmo, ainda que o resto do mundo esteja caminhando em sentido contrário. Arrogância é uma questão que depende da relação entre quem exibe e quem observa. Essa vontade de que falo está em mim, e não depende de quem quer que seja para se fazer presente. Então não a exibo, no sentido da palavra, apenas a expresso como parte do que sou. Essa é a diferença. Mas sim:  não importando o que sejamos ou o que mostremos, entre os que nos observam seremos sempre julgados pelos parâmetros que trazem, e não pelo que somos realmente. Isso é inevitável, e é um erro fingimos ser o que não somos na tentativa de ampliar o número dos que gostam daquilo que é mostrado.

 Entrevista concedida ao jornalista João Alencar, Recife-PE.

 

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Religiões - Um estudo sobre..., pela ótica do autor - Parte 3


 

O que despertou o autor para o ideal libertário que revela em seus textos? 

 Bodstein afirma ter despertado muito cedo para a dissonância que sentia em relação ao mundo à sua volta – primeiro em seu meio familiar, e depois estendida ao contexto externo – pela consciência de que teria que se contrapor às injustiças de que era alvo, e que essa luta jamais teria fim. Tal percepção aconteceu ainda na juventude como reflexo de um momento anterior, de quando decidiu não baixar a cabeça diante de forças maiores que as suas, nem se acovardar frente à prepotência, arrogância e autoritarismo do mundo que mal acabara de conhecer, estabelecendo assim uma permanente vigilância como fator de resistência aos medos. 

A partir desse momento significativo de sua curta existência, passou a entender a dimensão de uma luta que previu ser eterna, após concluir que os inimigos internos se mostravam muito mais fortes que os externos. A essência dessa luta foi sentida por ele como o despertar de seu senso de libertariedade, algo que o acompanharia por toda a vida. O marco decisivo que a pavimentou ocorreu, segundo seus relatos, aos 12 anos de idade, quando decidiu que não mais permitiria que seus medos fossem mais fortes do que sua determinação de dominá-los (leia em https://diariodeumfrancolibertario.blogspot.com/2025/11/lidando-com-os-proprios-medos.html). A partir daí essa decisão se consolidaria como permanente resistência ao acovardamento nos momentos mais conturbados de sua trajetória de vida. 

Bodstein se define a partir do que ele chama de "Lia" – acrônimo para Liberdade, Independência e Autonomia. Além disso, traços de personalidade como a inquietação, a curiosidade intelectual e a busca permanente por elementos factíveis foram características construídas nele ao longo do tempo, tendo a verdade como norte para onde sua bússola interna apontava, em perfeita sintonia com sua lógica, princípios e senso crítico. 

O escritor esclarece que o tema principal de sua abordagem no texto “A eterna luta contra um mundo que não perdoa” não é sobre religião, mas sobre libertariedade. No texto ele explica as razões pelas quais acabou rejeitando a tese do ateismo, após longo tempo envolvido com estudos comparativos das religiões, ressaltando que sua postura não derivou de crenças, mas do senso critico que sempre se fez presente nele, desde que adquiriu entendimento sobre si mesmo. Ele deixa claro não se concentrar em conceitos morais sobre certo ou errado por se mostrarem subjetivos e de viés claramente cultural, mas sim o de libertariedade, que ele define como o ato de encarar e assumir as consequências das próprias escolhas. 

Ele utiliza sua jornada de vida – que inclui o estudo comparativo de religiões e sua posterior opção pelo agnosticismo – para ilustrar um tema maior: sua luta eterna contra o medo num mundo que muitas vezes se revelava prepotente, arrogante e autoritário. Essa luta seria movida por coragem para enfrentar esse contexto hostil, e por uma resistência permanente contra o medo durante a construção do próprio libertarianismo, um tema recorrente em toda a sua obra. 

Seu foco central, portanto, é a liberdade individual, a independência de pensamento e a autonomia – o acrônimo da "Lia" – que, segundo ele, sempre o definiram. Para atingi-los, enfatizou com frequência a importância do autoconhecimento como propósito de vida a partir de um senso crítico apurado mas, ao mesmo tempo, aberto a revisões. Conta ele que, ainda aos 12 anos de idade, foi despertado para o compromisso consigo mesmo de não permitir que seus medos se mostrassem mais fortes do que sua determinação de dominá-los.   

Complementa o autor que, ao longo de sua formação em Direito, adquiriu o hábito de pesquisas “levada a extremos” para testar conceitos e emprestar solidez às próprias conclusões. Essa prática envolveu o concurso de muitas vozes para sustentar os resultados a que chegava, bem como a credibilidade das fontes. Introduziu ainda em seu cotidiano  o uso irrestrito da lógica para filtrar seus "componentes de prova". Entendia como fundamental o uso desse filtro lógico para prevenir erros crassos que pudessem desvirtuar o resultado de sua busca. Em suma, a formação jurídica tanto lhe permitiu aumentar o rigor em suas pesquisas quanto maior segurança em suas análises, de forma a eliminar possibilidades de erro por negligência, imprudência ou imperícia. 

Bodstein conta ainda porque recusou o ateísmo como tese de vida, após quase quarenta anos dedicado ao estudo comparativo das religiões, destacando três motivos que se entrelaçam em sua jornada norteada por autoconhecimento e coragem: 

1. Propósito de autoconhecimento e imersão na verdade factual:

Seu principal balizamento de vida recaiu sempre no autoconhecimento, algo que converteu sua trajetória num mergulho profundo e corajoso em suas verdades mais impactantes. Ele vê na “ignorância voluntária” a  principal razão para que crentes do mundo inteiro se apeguem a preceitos dogmáticos inaceitáveis por medo do que possam vir a descobrir. Essa busca exigiu que ele não temesse o que encontraria ao final dela, regra básica na construção do seu libertarianismo, e que se visse sempre disposto a rever todo o caminho percorrido se a conclusão contrariasse sua "bússola interna".

2. Coragem e construção de seu libertarianismo:

A coragem acabaria convertida em garantia de sobrevivência, o que lhe permitiu iniciar uma escalada de posicionamentos que construiriam seu senso libertário. Esse compromisso com a coragem implicava em não se acovardar diante de qualquer resultado a que chegasse, atuando como o sustentáculo de sua crença em si mesmo. 

3. Lógica e coerência intelectual:

Sua recusa ao ateísmo veio associada a uma lógica insofismável que o colocou diante da opção pelo agnosticismo. A lógica de Bodstein concluiu que tanto o crente (que acredita na existência de Deus) quanto o cético (que acredita na inexistência de Deus) são similares na forma, já que ambos são "crentes" e se fecham em verdades que não podem provar, e diferentes apenas no aspecto de que um acredita em algo e o outro acredita no seu oposto, mudando apenas o corpo de prova. Assim, em lugar de abraçar o ateísmo – que ele via como uma forma de  crença na não-existência – o autor enxergou no agnosticismo uma alternativa mais compatível com sua visão da espiritualidade. Viu nessa escolha o resultado mais coerente e honesto de sua busca, após  reconhecer que elementos de espiritualidade não são comprováveis, mas refletem tão somente a experiência pessoal do observador. O agnosticismo, assim, permitiu-lhe admitir a dúvida, uma vez que não poderia comprovar ou negar a postulação de Deus. Enfatizou ainda que sua escolha não teve relação com crenças, mas sim com traços inerentes à sua personalidade, caracterizada por inquietação, curiosidade intelectual e  coragem para enfrentar suas descobertas. 

A principal estratégia do medo, conforme as premissas defendidas por Bodstein, é se tratar do meio utilizado para construir e eternizar certas crenças, atuando como  garantia de fidelidade a construções dogmáticas, e como estratégia na edificação de "verdades" que são transmitidas de forma tanto opressiva quanto insidiosa, de modo a que o indivíduo jamais se atreva a contestá-las, por mais absurdas que se mostrem. Isso explicaria o pavor de mudanças que possam ameaçar essas construções, que o autor entende como "crenças limitantes" por acorrentarem o indivíduo a premissas dogmáticas construidas de fora pra dentro. O medo, portanto, é a ferramenta que impede o indivíduo de se libertar de tais “verdades” e submetê-las ao crivo da análise crítica, requisito indispensável para livrá-lo de armadilhas muitas vezes construidas “em nome de Deus”. 

Por meio do autoconhecimento, Bodstein transformou sua trajetória em permanente busca pela verdade e combate à manipulação do pensamento não apenas no campo religioso, mas tambem no das ideologias e da filosofia. Essa busca por autoconhecimento foi-lhe essencial na construção de seu libertarianismo, e na permanente disposiçao para rever todo o caminho percorrido caso a linha de chegada contrariasse sua "bússola interna". Surgiu, como ele sustenta, da premissa basilar da ciência, que pede uma revisão continua das proposições anteriores.                                                                                                                                                                                                                                                                          Conhecimento como proposta de vida 

O maior propósito de vida de Bodstein, como repetido em sucessivas ocasiões,  é  o  conhecimento  cada  vez  mais  profundo  de  suas  idiossincracias – analisadas pela ótica de pontos fortes e fracos, de oportunidades e ameaças – para a formulação de planos de ação que lhe permitissem lidar com cada uma delas. Essa busca transformou sua trajetória em um mergulho profundo em suas verdades mais impactantes, inclusive com o poder de reforçar seu libertarianismo, O autoconhecimento precisaria, segundo ele, acontecer em perfeita sintonia com a verdade, tido como o norte para onde sua bússola apontava, é apoiada sobre um tripe constituido de lógica, princípios e senso crítico. 

A coragem auto incentivada e conquistada precocemente deu início a uma escalada de posicionamentos que culminaram no libertário em que se transformou. O compromisso com a coragem que firmou consigo mesmo fê-lo ver que seu maior ato de coragem seria sua resistência permanente ao medo, garantindo que nunca saisse vencedor. 


O agnosticismo na vida de Luiz Roberto Bodstein 

O que levou Bodstein à sua opção pelo agnosticismo, em lugar de percorrer o caminho natural para o ateísmo, após sua oposição frontal as religioes, foi a combinação de uma lógica insofismável com coerência e honestidade intelectual, desenvolvidos ao longo de quase quarenta anos de estudo comparativo das religiões, e ele o justifica com tres razoes bastante definidas: 

1. A impossibilidade de comprovação das teses religiosas:

O autor concluiu que nunca se poderá tomar como verdade qualquer coisa que diga respeito à espiritualidade, uma vez que nenhum de seus argumentos é comprovável, mas apenas refletem a visão e a experiência pessoal do observador.

2. A coerência da dúvida:

Diante da impossibilidade de referendar as próprias percepções para   provar ou negar a postulação de Deus, o autor considerou que admitir a dúvida era o que se mostrava mais coerente e honesto com seus valores. 

3. Identificação entre o Crente e do Cético:

As teses do cético são tao imprecisas quando as do teísta, apesar do aparente antagonismo, pois que se resume ao sentido contrário que demonstra. Sendo assim, a opçao pelo agnosticismo se apresentou a ele como caminho obrigatório para não fugir à verdade em suas formulações alem de incoerente em relação a seus dogmas morais e, por extensão, à ética que o norteara desde a mais tenra idade.

 

Quais os maiores desafios  dessa luta? 

O verdadeiro ato de coragem, pela ótica de Bodstein, consiste na permanente resistência ao medo, mesmo consciente de que  não poderia eliminá-lo completamente, mas simplesmente não deixar que ele se mostre mais forte que sua determinação de dominá-lo. O desafio, para ele, não está em sua extinção, mas em não se deixar levar pela crença de que não exerce controle sobre seus efeitos.   E um dos fatores que lhe trazem tal certeza é sua postura frente às bifurcações que surgem em seu percurso rumo à verdade, tornando necessário efetuar mudanças de cunho ideológico, religioso ou filosófico que lhe cobrem posicionamentos diametralmente opostos aos que defendera antes. Para Bodstein, trata-se de um ato que exige coragem e  honestidade em relação aos próprios valores.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Religiões - Um estudo sobre seus pilares e contradições - Parte 2

Bella Ciao - Banda Republicana

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A eterna batalha contra um mundo que não perdoa

No momento em que dou início a este terceiro texto da série sobre as religiões, alguém deve estar se perguntando em que momento me tornei ateu. Mas, ao se inteirar de tudo o que revelo em seus textos, a resposta pode surpreender: Nunca me declarei ateu, e isso não tem nada a ver com crenças – como podem sugerir – mas com traços de personalidade que foram sendo construídos ao longo do tempo, e relacionados  com inquietude, curiosidade intelectual, busca permanente por elementos factíveis, e coragem para encarar o que descubro, antes de qualquer coisa.    

Tal postura não é algo que ocorre de um momento pra outro,  mas por uma construção que vai acontecendo ao longo de décadas. No meu caso muitas, já que me aconteceu aos 12 anos de idade, quando decidi que não mais permitiria que meus medos fossem mais fortes do que minha determinação de dominá-los. Mesmo tão novo, já tinha consciência de que não querer sentir medo é no mínimo falacioso, além de inútil: o verdadeiro ato de coragem consiste numa permanente resistência, de modo a que nunca saia vencedor. 

  Já acostumado a assumir minhas verdades desde muito cedo, aquele momento também fora reflexo de uma construção ainda mais antiga, a de não baixar a cabeça diante de forças maiores que as minhas, pra me acovardar frente à prepotência, arrogância e autoritarismo do mundo que mal acabara de conhecer. 

Isso me despertou para a dissonância que sentia em relação a ele, ao mesmo tempo em que acordava para a dimensão de uma luta que jamais teria fim. A mim ficou claro, então, que nossos inimigos internos são muito mais fortes que os externos, e que seu enfrentamento seria uma batalha eterna – mas nunca inglória – pois que o grande desafio não está em sua eliminação, mas em não permitir que nos vençam. Em resumo, o que se está falando aqui não é sobre religião, mas sobre libertariedade! 

Sabe-se que, para quem não se identifica com o que chamo de “Lia” – essa Liberdade, Independência e Autonomia que me definiu desde sempre – a mudança chega a ser algo aterrorizante, principalmente num contexto de “crenças limitantes”. Tal nome se deve a um cenário que aprisiona o indivíduo dentro de verdades dogmáticas que não escolheu: simplesmente permitiu que lhe fossem incutidas de fora pra dentro, sem nunca havê-las submetido a qualquer análise crítica. 

Constituem-se naquele tipo de “verdade” que lhe transmitiram em algum momento – e de forma tão esmagadora – que ele jamais se atreveria a contestá-la, por mais absurda que se mostrasse.  Daí se entender o pavor de mudanças que possam ameaçar tais construções, erguidas basicamente pelo uso do medo como estratégia, e principal garantia de sua fidelidade. 

Quando esse indivíduo encontrar coragem para enfrentar suas próprias mudanças de pensar, seja no campo ideológico, religioso ou filosófico, estará dando o primeiro passo – o mais decisivo dentre todos – rumo à sua libertação. Daí se entender a razão dos mais acovardados para sequer tentá-lo, preferindo não vasculhar seus labirintos internos pelo medo de escancarar sua “caixa de pandora” pessoal.     

Isso poderia significar que toda pessoa que permanecer em sua fé, ao longo de toda uma vida, estaria no time dos acovardados? Decididamente não! Ele pode ter explorado todos os seus espaços internos sem encontrar nada que lhe mostrasse mais sentido, pura é simples. Não é sobre conceitos de certo e errado de que falamos, mas sobre encarar de frente qualquer resultado a que se chegue. “Certo” e “errado” são conceitos subjetivos de natureza cultural que variam continuamente, enquanto que decisão é o ato afirmativo e consciente de assumir as consequências das próprias escolhas. Em suma, é uma demonstração de coragem, não de covardia.

 Mas, retornando ao início do texto, o que teria me levado a recusar o ateísmo como tese de vida, após quase quarenta anos mergulhado no estudo comparativo das religiões? A resposta é bem mais simples do que possa parecer:  Primeiro, por ter no autoconhecimento meu maior propósito de vida, algo que converteu minha trajetória num mergulho profundo em minhas verdades mais impactantes; e segundo por ter encontrado desde cedo em minha coragem o mais forte pilar de sobrevivência, dando início a uma escalada de posicionamentos que construíram o meu libertarianismo, sem temer o que poderia encontrar ao final dessas buscas. Por último, por me colocar disposto a rever todo o caminho percorrido ao identificar que a linha de chegada  contrariava aquilo que minha bússola interna assumira como verdadeiro. A verdade sempre foi o norte para onde essa bússola apontava, em perfeita sintonia com os parâmetros ditados por uma mistura de lógica, princípios e senso crítico. E caso o sentimento de certeza não se fizesse presente, nova mudança de rumo  não seria o problema.    

E como saber se tal certeza não iria além de um equívoco conceitual? A “testagem”, desta feita, passaria por uma pesquisa levada a extremos, onde muitas vozes seriam ouvidas de modo a lhe dar sustentação, e a credibilidade das fontes seria reforçada para eliminar possibilidades de erro por negligência, imprudência ou imperícia, prática essa adquirida ao longo de minha formação jurídica. No que toca a este quesito, posso afirmar que a lógica se mostrou indispensável para filtrar “os elementos de prova” e prevenir, pelo menos em parte, aquele tipo de “erro crasso” que pudesse desvirtuar o resultado.   

Na prática, a opção pelo Agnosticismo ao final de minha busca foi de encontro a uma lógica insofismável: nunca se poderá tomar como verdade qualquer coisa que diga respeito a espiritualidade pela simples constatação de que nenhum de seus elementos são comprováveis. Eles apenas refletem a visão do observador, tendo como premissa sua experiência pessoal, mas não necessariamente a narrativa com que o teriam convencido.  

Não podendo, portanto, referendar minhas próprias percepções, concluí que admitir a dúvida era o que se mostrava mais coerente e honesto, notadamente quando não se pode provar ou negar a postulação tomada como objeto de estudo. E a explicação se revela ainda mais simples, no tocante ao estudo das crenças humanas: Tanto o crente quanto o cético não se mostram diferentes na forma, mas apenas na direção escolhida. O crente acredita na existência de Deus, já o cético acredita na inexistência dele. Ou seja: cada um deles é tão crente quanto o outro, mudando apenas o corpo de prova.

E foi assim que minha lógica me levou diretamente para o Agnosticismo, ao me aproximar do entendimento de Spinoza em relação a um deus diferente do bíblico, que exibe posturas não apenas iguais às nossas idiossincrasias humanas, mas tão contraditórias e censuráveis quanto às observadas nas sociedades mais primitivas deste planeta repleto de incoerências.  

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Religiões - Um estudo sobre seus pilares e contradições - Parte 1


Parte 1

Controvérsias dogmáticas

             Um dos aspectos mais controversos das religiões é a facilidade com que seus dogmas podem ser desmontados mas, ainda assim, em tempo algum se conseguiu fazer isso. Em outras palavras: o obscurantismo de suas teses nunca foi derrotado pelas mentes mais lúcidas e brilhantes que já pisaram o planeta, como Giordano Bruno, Spinoza ou, mais recentemente, Marx e Hannah Arendt.  

Algumas dessas teses disseminadas entre os fiéis atingem níveis de um verdadeiro “teatro do absurdo”, de tão ilógicas e claramente inverossímeis, não requerendo sequer que se busque argumentos fora de seu próprio contexto, já que se chocam entre si. A própria Bíblia é um exemplo de como um mesmo sistema dogmático pode ditar regras que se anulam mutuamente, bastando analisá-las à luz da realidade factual: Em Romanos 3:28, por exemplo, Paulo afirma que somos justificados  pela fé, sem as obras da Lei; já em Thiago 2:24 o discípulo afirma que a fé sem obras é morta, e que somos justificados pelas obras. Em Matheus 27:5 se observa outro flagrante confronto: Judas teria jogado fora as 30 moedas obtidas com a venda de Jesus e se enforcado; mas em Atos 1:18 é dito que ele comprou um terreno com o dinheiro, caiu de cabeça e seu corpo se abriu. E esses exemplos representam quase nada frente ao enorme volume de passagens bíblicas em que tais conflitos se mostram visíveis. 

Questionados a respeito, religiosos de diferentes denominações cristãs responderam que os relatos apresentariam versões diferentes por terem sido escritos por pessoas diferentes, com base em tradições  que mantinham focos distintos. O argumento pareceria sustentável, não fosse uma outra afirmação que o contradiz: a de que os relatos teriam sido ditados por Deus. Nesse caso Deus estaria desmentindo a si mesmo. Outros líderes religiosos o justificam dizendo tratar-se de linguagem simbólica, e que por tal razão não devem ser lidos literalmente. Contudo, é ouvido de muitos pastores que a Bíblia não contém  inverdades, e deve ser consultada sempre que sobrevier alguma dúvida, pois expressa a palavra divina que se faz incontestável e perene. Colocadas todas num mesmo contexto em que possam ser comparadas entre si, não há como não perceber todas as suas inconsistências. No entanto, não se tem notícia de que a linha dogmática por trás dessas instituições tenha sofrido algum abalo ao longo de milênios de existência. 

Alguns  versículos, como os de Provérbios 26:4-5, sobre como responder ao tolo, mesmo se mostrando contraditórios são justificados como princípios aplicáveis a diferentes situações. Para os fiéis essas passagens não revelam contradições, mas pontos que exigem “uma leitura mais aprofundada”, considerando o gênero literário, o contexto histórico e a legitimidade do autor para se obter uma compreensão mais rica da mensagem bíblica. 

Neste ponto é possível entender a estratégia básica de sobrevivência das religiões: independentemente da força do argumento contrário, elas sempre encontrarão novos pilares de sustentação para suas postulações dogmáticas, já que os mistérios do universo, à luz da verdade divina, “ficam muito além do que pode alcançar a nossa limitada mente humana”. 

Religiões - Um estudo sobre seus pilares e contradições - Introdução



 Introdução

 

Não é surpresa pra ninguém que a questão  das religiões sempre esteve no topo da lista dos temas mais controversos da espécie humana. Do mais simplório ao mais intelectual, do mais cético ao mais crédulo, ninguém passa incólume por essa questão que acompanha o homem desde sua primeira incursão no tema, de modo a entender os fenômenos que ocorriam à sua volta e que tanto o amedrontavam!   

O sobrenatural, enquanto conceito filosófico, imiscuiu-se no dia a dia do homem primitivo desde o momento em que ele pisou o planeta – a principio como busca de explicação para o que se lhe apresentava como ameaça à sobrevivência, e depois quando desejou elaborá-lo de forma mais lógica a partir de percepções cada vez mais complexas, decorrentes de sua própria evolução. 

Essa mudança de patamar, no entanto, não produziu o esperado apaziguamento de suas inquietudes em relação aos fenômenos que observava: a diversificação de interpretações a que deu margem acabou desabando sobre sua realidade na forma de uma “caixa de pandora” na qual, porquanto mais se aprofundasse, questões cada vez mais complexas igualmente iam emergindo da escuridão. 

Daí não se tratar mais de apenas reduzir seus medos primários, mas de se proteger também das novas ameaças que começaram a surgir de seu próprio meio social – tanto pela multiplicidade de percepções daqueles fenômenos, quanto pelo uso que se poderia fazer deles, logo transformados em fonte de poder e controle de uns sobre os demais.  O gérmen da primeira religião estava semeado, e todos os desdobramentos advindos de seu florescimento começaram a se fazer presentes, de forma indelével e ininterrupta, na vida de cada individuo, a ponto de se afirmar que a humanidade e a religião nunca mais se separariam, tanto para o bem quanto para o mal.  

O que se verá nestes textos é o resultado de um estudo iniciado há quase 40 anos, quando mergulhei numa busca pessoal que nunca cessou desde então, mas tão somente mudava de forma à medida em que aprofundava meus questionamentos. Iniciada em 1988 e maturada ao longo destas últimas quatro décadas, conclui que já havia reunido material suficiente para consolidá-lo nesta série que inicio hoje, com base em análises de natureza antropológica, psicológica e filosófica envolvendo a relação do homem com as religiões a que ele próprio deu origem, na tentativa de entender seus impactos sobre esse ser que, desde seus primórdios até nossos dias, parece manter as mesmas percepções em relação ao desconhecido para dar voz, rosto e poderes a um ser superior que lhe possa dar o acolhimento e a proteção que sempre procurou, mas também as promessas e castigos dos quais, em tempo algum, jamais se libertaria.    

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Das paixões, dos heróis, das crenças e outras gaiolas

 



O texto é uma crônica reflexiva na qual o autor explora sua incapacidade de se envolver com paixões fervorosas, como o fanatismo futebolístico, contrariando a tendência comum. Ele analisa essa peculiaridade como um traço de sua personalidade, questionando se é algo inerente ou resultado de uma forma de pensar diferente. A narrativa oscila entre memórias pessoais e especulações filosóficas, culminando na autoaceitação de sua singularidade. O autor se compara metaforicamente a um extraterrestre, enfatizando sua busca pela compreensão de sua própria individualidade em contraste com as normas sociais.


Eu nem deveria estar aqui escrevendo. Um dia cheio de sol como este envia um convite quase irrecusável para meu espírito libertário se livrar do mofo e sair pedalando sem rumo, diante desse sol brilhante que me invade tanto a alma quanto o escritório de onde escrevo esta crônica. Mas meu espírito incorrigível de eterno buscador acaba vencendo a disputa e cá estou eu, deixando a bike para amanhã, que a previsão garantiu trazer um dia mais bonito ainda, confiando que o sol continuará nascendo todos os dias mas a inspiração que chega de repente raramente se mantém viva até o dia seguinte. 

Tô eu aqui querendo entender o porquê dessas paixões sem sentido (pra mim, pelo menos!) a que as pessoas se entregam, e me perguntando ao mesmo tempo por que eu, mesmo me esforçando, nunca consegui manter alguma delas mais do que por um curto período de tempo. Mas a verdade é que gosto disto, a de não me sentir submetido a nenhuma, exceto o sentido que me prende à minha própria liberdade ou às pessoas das quais me aproximo por algo bem menos profundo do que seus discursos dogmáticos! 

Serei um ET? Mas como um ET sabe se tratar de um se nunca sair de seu próprio meio? Às vezes o mundo à minha volta parece tão estranho ao que trago por dentro que me dano a perguntar se me trouxeram de algum outro planeta, mas esqueceram de me contar. Quem saberia me dizer como se pode passar uma vida inteira se perguntando porque as paixões – como a qualquer outro mortal – não o definem, e ainda assim gostar de se sentir esse alienígena que nada contra a maré? Pois é exatamente o que me pergunto há décadas, e até agora não consegui sequer me aproximar de uma resposta, mas somente acumular um número cada vez maior de perguntas, pois que as primeiras nunca são suficientes para aplacar uma sede sabidamente insaciável. 

Sei... Você que lê este texto não deve estar entendendo nada do que estou falando. Compreensível. Já me fiz essa pergunta também e foi difícil chegar a uma resposta plausível. Mas tenho motivos de sobra pra achar que eu tenho um ET enrustido lá dentro desta configuração de carne e osso. Não consigo entender, por exemplo, porque praticamente todo mundo no país em que vivo tem que ser fanático por futebol... e eu não gosto! Por que é que todo mundo que conheço é fanático por cerveja... e eu não suporto! Ou porque um montão de gente apoia algum mito que eu odeio! 

Tá! Pisei no seu calo agora e tenho que abrir mais a coisa. A ideia não era entrar por essa seara, mas já que entrei, vamos lá. Não é que eu seja imune a paixões, mas o que sei é que algo impede que eu me afogue nelas. De quando em quando até mergulho mais fundo, mas é só pra, quando voltar à tona, poder comparar o que senti lá do fundo com o percebido aqui em cima, e não acabar dominado por nenhuma das duas. 

Em tempos de redes sociais é impossível não topar com algum desses heróis acima do bem e do mal – ou até um anticristo, sei lá – que  seguidor nenhum ousa questionar, e isso é um fator que, por si só, já me provoca arrepios. E a razão é simples: pela minha ótica “auto-aflorada”, nada absolutamente, dentre tudo o que se coloca entre Deus e o diabo, está livre de ser questionado, inclusive os próprios. 

Se eu concebesse um deus que nos dotasse de inteligência para questionar todo o resto, exceto ele mesmo, seria difícil distingui-lo de qualquer ditadorzinho de uma república de bananas. Não o vejo tão “sem noção” pra cobrar ser aceito por esse viés, e isso me remete ao velho enigma das paixões inquestionáveis: por que não acontecem comigo, se vistas como razão de ser por tantos? Seria mera pretensão minha de parecer “especial”, ou o meu ET interno gritando algo tipo “pula fora que vai entrar numa furada”? Acho que nunca o saberei! 

A questão é que tem algum troço lá no fundo, alguma espécie de luzinha vermelha no painel – e eu não sei como nem porque – que parece piscar me avisando a hora de mudar a rota. E não adianta tentar resistir, porque a rejeição à ela entra num crescente tão automático que, a partir daí, não consigo seguir em frente sem sentir todos os pelos do corpo em pé. E é quando meus diálogos internos entram em cena, tentando explicar o fenômeno da repulsa espontânea e auto insurgida como sexto sentido, algo assim, me forçando a ligar os pontos e levantar-lhe as arestas, até que aflore ao plano consciente. E de novo as famigeradas (e recorrentes) elucubrações: “Onde estão os outros?...” 

Mais tarde vêm as tentativas de entendimento: “Porque as pessoas atuam como um bando de idiotas anencéfalos, de ‘maria-vai-com-as-outras’? Por que tantos passam por cima do incontestável para manter a postura do ‘impávido colosso’? Acreditariam mesmo numa imponderável teoria da conspiração para explicar tudo o que não querem descobrir? Sentem-se assustadas pela ideia de descontruirem suas próprias verdades ao tentar entendê-las? 

Mas o mistério maior não recai sobre a razão das pessoas para seguir um rumo que se mostra claramente equivocado, mas no meu para essa “ficha” cair de repente, sem que eu saiba exatamente a razão. Fico sempre com a imagem desagradável de colocar meu cérebro numa mesa, junto a vários outros, na tentativa de entender por que o meu funciona diferente. E a percepção é a de receber um “suporte técnico” por alguns “hermanos” da além-galáxia: “Seu cérebro parece desprovido do componente comum da paixão direcionada a pessoas ou coisas, tendendo a produzir respostas lógicas na maioria das vezes. Isso o torna refratário a construções que transformam pessoas comuns em heróis, de modo a que consiga enxergar suas falibilidades.” 

Eureka! Meu ET interno de novo me ajudou a decifrar a parada! Claro que isso não me torna imune a armadilhas de toda ordem. Vez por outra sucumbo às tendências numéricas que me levam a concluir: “Pessoas analíticas também desenvolvem paixões irracionais em algum momento. Essa é a regra!”– quando então meu “etezinho” interno entra na briga: “Mas essa regra não se aplica a você, porque você é um ET, esqueceu?”... Complicado isso! O conflito se instalou com a ideia de que seria mais fácil sucumbir às paixões, como todo mundo. Mas cadê tesão pra sustentá-la? “Pô, não fiquei assim pela desilusão com a vida, muito menos por indiferença. Eu choro vendo uma menina que acabou de recuperar o cãozinho sequestrado... Por que então não consigo entender a paixão do povo sofrendo por seu time?” Pois é! Desenvolver um pensamento ET como padrão pode acabar em tortura pela vida inteira! 

Volto no tempo e me vejo décadas atrás – menino ou adolescente – compondo a rodinha fechada do bairro, a minha “turma de fé”,  como todo mundo. Lembro do “baseado” passando de mão em mão, até chegar em mim... Estendo pro seguinte, sem leva-lo à boca, e a turma questiona: “Pô, não vai dar nem um “tapinha? Nem pra saber o gosto?”  E eu: “Não! Não tô nem curioso!”. Tinha também os “Hi-Fi”, os populares “bailinhos” que aconteciam cada vez na casa de um e, como de costume, todo mundo de “Cuba Libre” na mão!... Menos eu, que ficava na Coca Cola. A turma pira, zoa... Eu nem na deles. Algumas vezes não queria nem Coca e partia pra um coquetel de frutas... E só com frutas! “Ferrou!” – diziam, e eu nem aí, apesar de toda a zoação. 

Aí você vai dizer que foi a formação de casa. Nada! Meu pai fumava desbragadamente, e ele ou mamãe nunca falavam sobre drogas com nenhum de nós. Era tabu, como tantos outros assuntos. Então aquela minha resistência parecia vir do nada, ou dos “hermanos galáticos”, sei lá. Mas o que sei é que não entrava numa de fazer algo apenas porque todo mundo estava fazendo. Na época nem buscava as razões: não sentia tesão pela coisa e pronto. Apenas seguia meus instintos, sem tentar explicá-los!  Não tinha nada de querer ser bonzinho, diferente, ou trazer alguma ideologia por trás. Era falta de vontade pura e simples, vá lá entender a razão! 

Só muito mais tarde saí buscando o porquê daquilo, da recusa em entrar na “vibe” da minha turma, como seria o esperado. E finalmente concluí: já era a ausência da bendita paixão! Simples assim! Algo me dizia que o que eles buscavam não me faria a menor falta. Não importa a razão: era uma resposta ao chamado interno e não ao externo, e ponto final! 

Lembro que entre os 10 e os 25 anos – como acontece em todas as épocas – sempre tinha alguém pra produzir um “frisson” na turma com algum programa, o que levantava uma enorme expectativa neles bem antes do evento. Mas comigo não rolava emoção, muito menos aquele clima de “tentar suicídio” se não fosse convidado. Via como algo natural que poderia ou não acontecer, sem lhe dar poder para alterar meu rítmo. 

O avançar dos anos foi me trazendo outras resistências ao senso comum que fui associando às anteriores, permitindo montar aquele quebra-cabeças que me conduziu a uma interessante conclusão:  algo dentro de mim produziu uma resistência natural contra qualquer fato com potencial para alterar meu estado de consciência, atuando como um  gatilho automático contra a perda do meu poder de decisão. 

O que começou apenas como reação instintiva quando eu não tinha sequer uma posição a respeito, posteriormente se revelou a mim como uma “blindagem” desconhecida até por mim, uma espécie de “proteção” mantida até o momento em que pudesse avaliar por mim mesmo se convinha introduzir algum componente novo à minha vida. E ainda não consegui entender, à luz da lógica, a ausência de curiosidade ou expectativa diante de algo novo durante os anos de minha adolescência, uma característica natural desse período que atua como  mola impulsionadora para descobertas e novos aprendizados. Por alguma razão esse componente não se fazia presente em mim, suprimindo o desejo comum de experimentar coisas em que o comando pudesse saltar de minhas mãos para a experiência em si. Isso entraria aparentemente em choque com uma inquietude intelectual que se debruçava sobre detalhes que meus colegas nem notavam. Mas no caso desta curiosidade eu queria explorá-la sem interferências, de dentro pra fora, em vez de fazer o caminho contrário. 

Mesmo sem conhecer as razões, algo me impelia àquela resistência não vinculada a qualquer crença, ideologia ou valores contrariados: eu a via como uma reação autônoma que não dependia de minha autorização,  tipo uma rejeição programada para funcionar no “piloto automático”, caso algum risco entrasse em seu radar. Seria muito fácil atribuí-la a fatores sobrenaturais, se essa fosse a minha tendência, mas preferi me ater à premissa newtoniana de que “o que sabemos é uma gota, e o que ignoramos é um oceano” para apenas aceitar o fato, em vez de tentar entendê-lo, em respeito ao meu ceticismo basilar. 

Mas a experiência daqueles tempos acabou se estendendo para muitos outros aspectos que, já na vida adulta, eu reconhecia como “viciantes” de forma consciente, e o desejo de seguir o rito comum ficasse submetida à paixão por uma causa ou pessoa a que se atribuisse um status maior que a própria vontade. Foi quando meu senso critico se tornou mais acentuado, e com ele a necessidade de uma autonomia cada vez maior em relação a ideias, crenças e leituras externas. Mas claro que isso só me chegou bem mais tarde em nível consciente, após análise daquele histórico de reações instintivas e não questionadas por muito tempo. 

A maturidade acaba convertendo o antigo receio de parecer “herege”  ou mero rebelde sem causa em contestação legítima, naquele prazer de  assumir a própria essência sem medo de ser feliz. A gente supera o medo de ser punido pelos céus apenas por assumir as próprias dúvidas, ao se descobrir distante de qualquer “verdade”, antes de se afirmar sobre mitos ou supostas realidades. 

– Mas você não tem religião? – me perguntam alguns.

– Já tive, mas não quero mais ter uma!

– Ah! Tornou-se ateu.

– Também não!

– Como assim?

– Até pensei ser ateu por um tempinho, mas minha própria racionalidade me impediu. Coisa demais pra surgir do nada. Pura lógica, simples assim, mais uma vez!

– Mas acredita em ET!

– A lógica de novo: pretensão demais para um povo dessa poeirinha galáctica em que vivemos. A questão não é existir, mas aproximar os dois.

– Você é pirado! 

E a coisa segue por aí... Sendo visto como “pirado”, mas sempre pirando os que insistiram em tentar entender a minha diferença nessa eterna briga pelo espaço entre iguais que nunca precisou de paixões, de heróis, de crenças, de times, ou de seguir a bússola para um mesmo ponto de atração, em vez de seguir o norte da agulha interna a que só você tem acesso. 

Trocar ideias pode não ser tão fácil como se pensa, principalmente quando um dos lados entende o convencimento como uma tentativa de colonizar o outro, como o disse Saramago. Entretando, na ausência de arreios e verdades construídas, podemos encontrar tempo suficiente para falar de nossas igualdades, entender melhor as nossas diferenças e as complementariedades que geram, que podem inclusive explicar os espíritos indômitos em que nos transformamos.

Minha Lia em seus infinitos mistérios

 


Em meio a uma conversa com o avô, a quem Alfredo tinha como uma espécie de conselheiro desde a infância, por conta de sua ponderação e bom-senso, o rapaz perguntou: 

– Vô, quem é essa tal de Lia que você menciona ocasionalmente? 

– Ah, meu neto, essa é uma mulher de muitas faces, que me acompanha desde que nasci e estará comigo até o último dia da minha vida. 

– Hã!?… Como assim, vô? Que mulher é essa que está sempre com você e eu nunca vi? 

– Engano seu, meu neto. Você já a viu muitas vezes. Aliás, desde que se entende por gente, na verdade, só que não totalmente. Como te falei, a Lia é um ser multifacetado, com um tipo de perfil que a psicologia descreve como “múltipla personalidade”. Você já ouviu falar disso, não é? 

– Claro, vô. Já li bastante a respeito. Inclusive vi um filme antigo sobre isso: “As três faces de Eve”. É disso que está falando, imagino eu. 

– Sim. Como a Eve do filme, a minha Lia também tem três personalidades, mas você até agora só conheceu duas delas. A terceira ela ainda não conseguiu mostrar, embora já esteja tentando. Mas eu estou atento tentando impedi-la. 

O rapaz sorriu, se perguntando se a lucidez do avô não estaria começando a dar sinais de estar diminuindo com a idade. Amava muito aquele homem que, com sua perspicácia e amplitude de visão, sempre o ajudara nos momentos de decisão mais difíceis de sua vida: 

– Explique melhor, vô. Ainda não consegui entender essa Lia misteriosa de sua vida. Quais as duas personalidades dela que eu conheço e nem me dei conta? É uma espécie de “entidade fantasma”, que a gente não vê? 

O avô reagiu com uma risada divertida: 

– É um bom nome para descrevê-la, Fred. Realmente ela age como uma entidade-fantasma, mas nunca houve nada mais presente e real do que ela em minha vida. 

E percebendo ainda alguma preocupação no olhar de Fred, seu avô tratou de esclarecer a questão: 

– Lia é bem mais do que uma figura de metáfora, meu neto. Ela se mostra de maneira até bem visível, mas só aos mais sensíveis como você. Para a maioria “vai passar batido” até na vida deles mesmos, e não apenas na de outros! 

E vendo que o neto continuava a olhá-lo como se questionando a sua lucidez, o avô prosseguiu: 

– “Lia” é uma corruptela – na verdade, um acrônimo – que uso para meu sentido de Liberdade, Independência e Autonomia. Você, desde novinho, percebeu o valor que atribuo à liberdade… 

– Sim! Sempre admirei sua coragem para seguir sua vida, mesmo contrariando convenções e modismos. Você me contou muitas histórias de como foi castigado na infância por sua rebeldia para aceitar o que lhe impunham e que não concordava. Minha admiração por você, inclusive, surgiu daí. 

– Exato! Esse sentido de liberdade não foi adquirido. Simplesmente brotou em mim e o descobri como o meu valor mais importante. A não submissão – ou insubordinação ao que contrariasse minha essência – foi o primeiro princípio de que tomei consciência e que, apesar dos muitos conflitos que me trouxe, eu nunca abri mão. Sempre o senti como um direito legítimo que valia mais do que qualquer outro princípio. Nunca me vi como um “rebelde sem causa”. 

– Com certeza, vô! Sua causa era mais do que legítima, gostassem ou não dela, e isso é o que sempre valorizei em você. 

– Então está aí a primeira “personalidade” da Lia que você reconheceu em mim. E sempre me pareceu que você gostou dela desde que a viu. 

Fred sorriu com a sutileza do avô, e confirmou: 

– De fato! A primeira face da sua “Eve” – a sua liberdade – sempre me foi muito familiar! 

 A segunda também se mostrou tão visível quanto essa para você: lembra quando lhe falei das surras que levava depois das festas de família, que era uma constante na minha vida quando garoto? 

– Nossa! Como me lembro! A Bisa dizia que você foi sempre o mais “arteiro” dos filhos, e que por isso apanhava muito. Mas você contava que não gostava de fingir, e nunca achei que dizer a verdade fosse “fazer arte”. Pelo que você contava, as festas eram um verdadeiro suplício para você! 

– Eu odiava aquelas festas de família reunindo tios e primos, onde se disputava quem era o mais bem-sucedido de todos. Parecia mais um festival de exibicionismo, preconceito e maledicência. As surras ao voltar para casa eram invariavelmente por eu expor o que achava daquilo, ao tentarem me envolver na hipocrisia familiar que não poucas vezes me envergonhava junto a meus amigos, ao vê-los até humilhados pela soberba de meus tios e primos que se viam como uma “raça superior”. 

– Lembro de você dizer que apanhava após cada festa, e voltava a repetir a “arte” para apanhar de novo, e várias vezes. Disse sentir uma espécie de orgulho disso, e daí ser visto como “intratável” e rebelde pelo resto da família. Eu consigo entender o lado deles, da raiva que sentiam de você, e mais ainda o da sua rebeldia. O “arteiro” da Bisa era apenas o filho que não compactuava com aquilo que lhe fazia tão mal. 

– Você acaba de me confirmar que já sabia da segunda face da Lia: a minha independência em relação a ideias e sentimentos alheios dos quais discordo. Não compactuar pode ser muito doloroso, Fred, na maioria das vezes. 

– Mas também muito gratificante por dentro por se estar seguro de que era o certo a fazer. Tem razão, vô: eu já conhecia essa segunda face da Lia. Então, fica fácil deduzir que as surras lhe chegavam como uma espécie de “certificado” de sua coragem. Ainda que muito novo na época para entender, minha admiração por você pode ter surgido dessas duas faces de sua Lia percebidas instintivamente ao longo de nosso convívio. Mas agora fiquei curioso: você falou que a terceira face eu ainda não conheço!… 

– É verdade! Mas isso não é prerrogativa sua, Fred. Dos três lados da minha Lia, o “A” é o que se mostra mais frágil, mais suscetível de se deixar dominar e, o que é pior, pode acabar destruindo tudo o que os outros dois construíram. 

– Nossa! Você aguçou ainda mais minha curiosidade: o que esse “A” representa, para ser tão diferente dos dois primeiros? 

– Trata-se da Autonomia. No caso da Liberdade e da Independência, a batalha é mais fácil por termos o inimigo bem definido e posicionado do lado de fora. Já na Autonomia, a ameaça vem de dentro para fora pela ação do tempo, minando-nos a resistência até que a percamos por completo. – explicou o avô. – Mas, se resulta do passar do tempo, seu avanço é tão inexorável quanto a morte. Como resistir então à sua perda? O lado mais vulnerável da terceira “personalidade” fica oculta até não poder mais ser controlada e conseguir, enfim, eliminar todas as resistências de seu “hospedeiro”. 

– Está me dizendo que, das três personalidades, é a que sofre ataques permanentes, se entendi. Falta ainda me dizer o nome dela, o “A” da sua Lia, porque ela  a Autonomia  é me parece ser a mais frágil das três. 

– Não apenas frágil, mas também a mais instável, pois pode mudar muito ao longo da vida. Ela é a Autonomia. E são os jovens, e não os velhos, as suas maiores vítimas, já que se mostra ardilosa se não soubermos como utilizá-la a nosso favor. A autonomia, quando somos jovens e inexperientes, nos convence facilmente que somos imbatíveis e poderosos, e nada nos pode atingir. E essa é a grande armadilha. Essa face da Lia é astuciosa e traiçoeira, e se deixarmos que nos domine pode ser a linha divisória entre o sucesso e o fracasso, inclusive com força para ser a nossa desgraça. Então precisa ser mantida sob controle. O domínio tem de ser nosso, nunca dela. 

– Verdade, vô. Mas ela é instável, como você disse. Portanto, está sempre mudando. Em que fase ela é menos perigosa? – quis saber Fred. 

– Perigosa, ela sempre vai ser, cobrando que estejamos sempre atentos aos ardis que vai mostrando de tempos em tempos. Na juventude, os ardis assumem forma de desafio, já que os jovens adoram desafiar tudo o que enfrentam. E o resultado muitas vezes é fatal. Na maturidade, ela mostra sua melhor faceta. Como já superamos a impetuosidade das descobertas e dos desafios, conseguimos mantê-la sob controle na maior parte do tempo, tendo o bom senso como aliado. E a autonomia parece se entender bem com o bom senso, pois quando o percebe, ela pára de lutar pelo domínio, deixando-nos mais seguros para lidar com os altos e baixos da vida. 

– E isso não se mantém na velhice, uma época em que estamos mais experientes e, por lógica, deveríamos estar com todas as rédeas na mão? 

– É, meu neto, mas nessa fase da vida a Lia tem que lidar com inimigos poderosos que tentarão enfraquecê-la: o Tempo, as Limitações e os Medos, nessa ordem. Como os dois primeiros são invencíveis, precisamos nos concentrar no terceiro, sendo o que podemos controlar. 

– Concordo com cada palavra: no que toca ao tempo e às limitações da idade, não há nada o que fazer, o que não é o caso dos medos. 

– Eu sempre tive no medo meu maior inimigo, e daí começar a lhe dar combate ainda menino, assim que tomei consciência da ameaça que poderia representar ao longo de uma vida inteira. 

– Queria entender mais um pouco desse seu processo! 

– Esse fato marcou muito como início do meu combate aos meus medos. Eu tivera uma discussão com um colega de escola que morava na minha rua, e ele jurou que iria “me arrebentar” na primeira vez que me encontrasse na rua. Acontece que eu precisava passar na porta dele para ir ao colégio, e ele saía de casa no mesmo horário, claro. Na primeira manhã, depois da ameaça, eu parei antes de passar no portão da casa dele, e pensei se deveria subir a rua para pegar a que passava por trás da casa dele para não encarar a briga prometida, já que odeio qualquer tipo de confusão. Só que parei e pensei comigo que teria que passar por ali o ano inteiro de aulas, e decidi resolver de imediato a situação. Esperei que ele saísse e desse comigo em frente ao seu portão, que partiu para cima de mim e a gente rolou no chão trocando socos. Ele me tirou sangue do nariz e meu uniforme ficou em trapos, mas lhe devolvi com muita pancada também, e desde esse dia ele nunca voltou a me provocar de novo. Descobri então que os medos existiam para a gente aprender a enfrentá-los, e não para correr deles durante toda a vida. E foi quando vi que meu verdadeiro inimigo não era o cara, mas aquele que eu trazia dentro de mim mesmo, e tomei a decisão de expulsá-lo para nunca mais lhe dar guarida no meu espírito. 

– Que história bonita, vô! Agora entendo perfeitamente esse libertário que você se tornou a partir da decisão de enfrentar seus medos, em vez de deixar que eles o aprisionassem! – exclamou Fred. 

– Nossos medos não nos dão opção: ou você os domina, ou será escravo deles pelo resto de sua vida! 

– Mas quanto ao “A” de sua Lia nessa sua fase de vida: o desafio se aplica à autonomia também? – quis saber Fred. 

– Com certeza! E de forma ainda mais perigosa e avassaladora, porque se não o encararmos desta vez, a derrota pode ser definitiva, pois não mais teremos tempo para revertê-la! Então, é caso mesmo de vida ou morte: ou você segue sereno até o final, mantendo-o sob controle, ou você se entrega e certamente decretará seu fim. 

– Bem forte isso que você falou! 

– Sim, porque o medo encontra enorme acolhida nas nossas inseguranças herdadas e nas limitações físicas que irão se agravando com o envelhecimento. Você sente a sua autonomia indo para o brejo a passos largos, e não há outra forma de lidar com isso além de tratá-lo da maneira mais corajosa que conseguir. E não é impossível, pois o que não faltam são casos de resiliência extrema para nos inspirar nessa luta final entre o homem e seus medos. A sua autonomia, nesse momento tão crucial da sua vida, se revela em toda a intensidade que até antes você conseguia dominar, e será frívola o bastante para não se incomodar com seu sofrimento, instável para ceder e contra-atacar repetidas vezes, ardilosa e astuta para tentar enfraquecê-lo nas suas vulnerabilidades, e ameaçá-lo com o que tem de pior na sua forma de agir: sorrateira, traiçoeira e inescrupulosa. Em suma, não nos dará descanso em nenhum momento, precisando que estejamos alertas o tempo inteiro para não sucumbir às ameaças diárias. Não se esqueça de que ela se alia ao tempo para minar sua resistência, exigindo de nós mais do que um mero exercício de vontade, mas de decisões deliberadas e inabaláveis. 

– E se nada for feito de forma efetiva e constante, não será possível mantê-la. – concluiu o neto. 

– Exatamente assim, meu neto! Vai ser uma nova batalha a cada despertar, matar um leão por dia, como se diz na gíria. Se me perguntar se essa luta é inevitável, minha resposta é sim, mas “com reservas”, ou seja: sua resistência pode converter muito sofrimento em algo bem menos desconfortável, se você o tratar como prática diária. 

– E em que consiste exatamente essa prática? – quis saber Fred. 

– Consiste na identificação e classificação das ameaças que vão surgindo a cada dia, e dar resposta imediata a elas antes que se instalem dentro de nós. Coisas com as quais você lidava de forma tranquila recentemente vão se fortalecendo o bastante para derrubá-lo, se você não remexer seus alfarrábios internos na tentativa de encontrar as melhores armas. 

– Que troço interessante isso, vô! Me fala mais, me dê exemplos concretos dessas ameaças para que eu possa mergulhar nessa vibe de “vigilância permanente” que você descreveu. 

– Vou começar então pela que estou vivendo neste exato momento, e que se apresenta hoje como uma das mais nefastas para arrebentar pessoas da minha faixa etária: a tecnologia, que elimina qualquer contato direto entre os agentes sociais, estabelecendo uma dependência absoluta de aplicativos para resolver as questões mais idiotas do cotidiano. Só que para as pessoas de minha geração, que não cresceram nesse tipo de relação obrigatória com o mundo digital, fica extremamente difícil se encontrar nele. Tudo fica complexo demais, inacessível demais para quem bastava pegar um telefone para falar direto com a empresa com a qual estamos tendo problemas. 

Mas o pior disso tudo é o sentimento devastador de exclusão a que somos submetidos em 100% do tempo, como se nos tivessem expulsado do nosso mundo, sendo obrigados a aceitar um outro que nos rejeita. E como falar em “autonomia” nesse contexto de dependência quase absoluta de alguém que resolva nossos problemas de acesso ao mundo digital? A percepção é de que a inteligência desenvolvida durante uma longa caminhada não serve mais para coisa alguma, e tampouco a sua experiência de vida, derrubada pelo conhecimento focado no domínio de uma máquina que, na verdade, é quem nos domina. A dificuldade funcional é significativa, mas a consequência emocional – que vai nos retirando a vontade de permanecer num mundo absolutamente estranho a nós – é desesperadamente maior. É preciso levantar de manhã com a proposta de seguir resistindo com todas as suas forças, e se deitar com aquela sensação enorme de derrota, de ter sido atirado aos leões de um mundo do qual se foi expulso, e que nos grita ser mais fácil desistir do que ir em frente! 

– Vô, isso que você está me falando é terrível e extremamente impactante. Pois as pessoas em volta, e até as mais próximas, como é o nosso caso, não conseguem sentir na pele o drama dessa exclusão que você descreveu como um escoadouro que vai minando toda a energia interna que lutamos por preservar. O que se pode fazer a respeito, vô? O que eu, por exemplo, poderia fazer para eliminar, pelo menos em parte, esse sentimento de impotência, de que se enfrenta uma luta insana destinada ao fracasso? Isso é preocupante! No seu caso, sei que você não desiste de lutar, mas tem gente que “joga a toalha” sim, talvez a grande maioria, e opta por deixar tudo acontecer, ou o que é pior: escolhe tomar medidas para acontecer de uma vez, e não precisar seguir com uma luta inglória. 

– Já pensei sobre tudo isso, Fred, mas essa batalha entre o mundo interior e o exterior é solitária, e ninguém poderá ajudá-lo de forma efetiva, pois as pessoas à sua volta também estão cerceadas por esse sistema insano que transforma a população global num exército de solitários. Só como exemplo, a minha dificuldade de hoje não será um fato isolado. A todo momento surgirão outras, e você não estará aqui para me ajudar com elas, o que torna sua ajuda numa espécie de “tratamento paliativo”, apenas para prolongar a vida (nesse caso, a útil) por mais um tempinho. E não há o que fazer: você está sendo literalmente expulso do seu mundo conhecido a cada novo dia, e encontrando um mundo cada vez mais assustador que não irá acolhê-lo, mas apenas “tolerá-lo” até que sucumba ou tome, por si, a decisão de encerrar o processo. Simples assim: a realidade é essa, e seus temores não irão te salvar. 

Eu poderia citar outras tantas situações do cotidiano que lhe gritam que “você não é mais necessário”, ou até que precisa se aceitar como descartável no sentido mais clássico do “aceita que dói menos”, mas acabaria apenas transferindo para você o sentimento de impotência de também não poder fazer nada. A decisão mais razoável é a de seguir tentando, e não entregar a luta de graça – se formos daqueles que têm na resiliência o seu valor mais sagrado – e seguir fazendo isso até o último dia, de modo que sua sensação de vitória sobre seus próprios fantasmas amenizem, o tanto que possa, o pragmatismo das barreiras reais! O canto de sereia que pode levá-lo ao fundo continuará acontecendo, mas o grito mais alto da sua Lia pode torná-lo quase imperceptível aos seus ouvidos, causando o tão necessário apaziguamento a partir do som de sua própria voz!

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Minha Lia e eu - A complexa relação de um homem com sua liberdade


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O texto explora a complexa relação de um homem com sua própria liberdade, personificada na figura de "Lia". Essa "Lia" interna representa a busca incessante por autonomia, independência e a priorização da individualidade. Ela age como uma força protetora, alertando contra ameaças à liberdade e incentivando a autenticidade. No entanto o autor reconhece a necessidade de equilibrar essa busca com o respeito aos outros, enfrentando o desafio de evitar o isolamento. A dinâmica entre o eu e a Lia molda as decisões e relacionamentos dele, visando a plenitude através da fidelidade a si mesmo. Em essência, o texto é uma reflexão sobre a importância e os paradoxos da liberdade pessoal.

 

A Lia que habita em mim é muito mais do que um simples conceito; ela é a personificação da minha busca incessante por liberdade, independência e autonomia, numa relação que ao mesmo tempo me coloca como senhor e escravo. Desde cedo, essa força interior começou a moldar minha vida, guiando minhas escolhas e definindo minha relação com o mundo ao meu redor. Essa profunda conexão é evidenciada em cada pensamento, ação ou objetivo que se manifeste em mim, nos mais diferentes aspectos da minha existência. 

Ela deixa claro não aceitar que absolutamente nada se interponha entre mim e ela. Essa certeza se coloca sempre à frente de cada decisão que tomo, de cada escolha do cotidiano, como se todo o resto perdesse o sentido se eu não respeitasse essa regra. A liberdade é a essência da minha identidade, e a Lia me lembra de modo incessante que devo priorizá-la acima de tudo, com uma devoção que transforma minha independência intelectual numa base sólida para minha autoafirmação. 

A minha Lia, como qualquer mulher ciumenta, fica me alertando sobre qualquer coisa que ameace minha liberdade. Sempre que sinto que algo ou alguém pode restringir meu espaço, a Lia cresce em sua autoridade, levantando barreiras e me alertando sobre os perigos de uma entrega excessiva. Essa vigilância dela me chega em forma de uma reação instantânea, como uma ordem imperiosa partindo do meu amor próprio e bem acima do que eu deva dedicar a qualquer outra coisa, uma espécie de lembrete de que minha autonomia deve ser preservada a todo custo. 

A Lia inclusive me cobra romper com todas as convenções. Ela me incentiva a questionar normas sociais e a buscar meu próprio caminho, mesmo que isso signifique desafiar expectativas. Essa rebeldia brota de dentro como uma expressão da minha autenticidade, um chamado para viver de acordo com minhas próprias regras, a reagir contra crenças pré-fabricadas e convenções que assumam configuração de trilhos, em lugar de trilhas, que me permitem mudar o rumo a qualquer momento que o decida. 

Assim sendo, a Lia não admite minha entrega total a qualquer crença ou pessoa. Esse aspecto se impõe como um valor crucial, pois me impede de me “diluir” em relações ou ideologias que possam comprometer minha essência. Parece que a Lia me instiga a manter a individualidade, mesmo diante de conexões mais profundas que a coloquem em segundo plano, ou principalmente quando começa a se mostrar dessa forma. Ela chega a condicionar minhas respostas comportamentais oferecidas às pessoas, onde cada interação é filtrada por essa lente de liberdade. Preciso daí sentir que ajo de forma autêntica, evitando a conformidade que poderia me aprisionar. A Lia me cobra ser verdadeiro o tempo inteiro, tanto comigo quanto com os outros, até o ponto de se sobrepor ao prazer, se necessário for. 

Em compensação ela me recompensa com uma plenitude e prazer quase absolutos em cada pequena coisa que eu faça sozinho, como se para me convencer de que não preciso de mais nada. Essas pequenas vitórias são celebradas como “milestones” de minha autonomia, reforçando a ideia de que sou suficiente por mim mesmo, de que não preciso ser “metade da laranja”, mas uma laranja inteira, mesmo que algumas vezes não se mostre tão doce quando se esperava, mas antes me lembrando do benefício maior em relação à mim mesmo. 

A Lia, no entanto, é uma força que preciso conter para não ferir pessoas por “excesso de zelo” em relação ao meu próprio estado de ser. Esse zelo, embora surja do mesmo lugar de onde vem o amor, pode se tornar uma armadilha se não for controlado, ou me manter afastado de vivências relevantes, ainda que como aprendizado. A Lia me cobra equilibrar a proteção da minha liberdade com a consideração e respeito pelos sentimentos alheios, mas nem sempre esse equilíbrio consegue ser mantido de forma satisfatória, e então sei que ela sempre sairá  vencedora. 

No seu lado mais contundente, a Lia me coloca em pé de guerra contra qualquer sinal de domínio, cobrança ou autoritarismo. Ela atua como uma voz interna que se levanta automatica e enfaticamente contra injustiças ou opressão, mesmo subliminar, instigando-me a lutar por um mundo onde a liberdade seja respeitada e nossas idiossincrasias se rebelem contra a “moldagem” que nos tentam impor. Essa luta, eu o sei bem, é uma extensão da minha própria busca por autonomia. 

Outra coisa que aprendi com minha Lia é que ela adora se colocar como fonte de plenitude levada às mínimas coisas que faço, como se quisesse me lembrar a todo instante: "Eu te basto!" E com essa afirmação consegue uma reação instantânea em mim, quando qualquer sentimento “alienígena” mais forte não se coloque alinhado com minhas premissas libertárias. Parece querer sempre me lembrar que a verdadeira felicidade deve ser buscada dentro de mim, e não em fatores externos, independente de quais sejam, quando cada momento é valorizado e consiga sentir alegria até nas menores conquistas. 

Por fim, a minha Lia não aceita que parceiros amorosos se coloquem como “rivais” dela. Essa dinâmica se mostra vital para manter a saúde das minhas relações e a dosagem adequada para eventuais “desvios de rota”, ocasiões em que não faltará um “deadline” aceitável para minha  “retomada de consciência”. E é quando se mostra enfaticamente determinada a restabelecer o equilíbrio entre a doação daquele momento e a minha liberdade. Irá me cobrar que eu estabeleça limites claros e inequívocos de modo a garantir que a liberdade e a autonomia permaneçam como foco central de todas as minhas interações. 

Enfim, a relação entre mim e a minha Lia é complexa, e muitas vezes sujeita a incompreensões por parte de quem esteja do outro lado e se perceba “colocada em segundo plano”, tomada pelo sentimento de que algo parece ter mais ascenção sobre mim do que ela. E esse é o maior desafio na minha relação com essa força vital que me impulsiona a viver plenamente, a desafiar normas e a valorizar minha própria liberdade acima de tudo. Nada aponta para que, ao longo da vida, a Lia deixe de ser meu norte, minha sustentação interna, e deixe de me lembrar da importância de ser fiel a mim mesmo e à minha eterna busca por autonomia e plenitude.

 



Quando a Justiça se sobrepõe às falsas certezas





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Cálice 

O texto apresenta um manifesto pessoal de Luiz Roberto Bodstein, um consultor organizacional e escritor, que faz um profundo exame de consciência sobre suas posições políticas passadas. O autor revela ter combatido veementemente o ex-presidente Lula, baseando suas escolhas em valores, mas reconhecendo agora ter uma dívida moral com ele. Essa percepção mudou drasticamente ao testemunhar a postura digna e a obediência irrestrita de Lula à lei, mesmo quando submetido a iniquidades que o autor reconhece como sendo fruto de conspirações forjadas. Bodstein admite publicamente seu erro, pois percebeu que havia se tornado um instrumento de manipulação por mentes espúrias, o que contraria seu próprio sistema de honradez. Assim, o manifesto serve como um ato de penitência pessoal, transformando a vergonha interna em honra pela assunção pública do erro, além de ser uma homenagem à obstinação do líder em manter-se fiel aos seus ideais

 

Nunca usei meu voto para favorecer um candidato, mas sim os meus valores em prol de uma causa em que o visse como barreira para o pior não vencer! E tal postura foi o que sempre norteou minhas escolhas.

No entanto, mantenho uma dívida moral com esse símbolo de legalismo e hombridade em que Lula se transformou, uma figura a quem dei combate de forma contundente ao longo de seus dois primeiros mandatos apenas por nunca haver me debruçado sobre seu histórico de defensor incansável do próprio sistema de crenças e valores, mesmo tendo o país inteiro contra ele em acusações que, mais tarde, se revelariam como fruto de um plano muito bem urdido e execrável.

Mas apesar das incontáveis derrotas que lhe impuseram – que não foram poucas nem pequenas – recebeu-as com a cabeça erguida dos que acreditam nos valores que defendem e, mais do que isso, sem abrir mão de sua dignidade, autorrespeito e irrestrita obediência à Carta Magna, o que me impôs profundas reflexões sobre a forma como olhara para aquele homem até então. Quantos outros, diante das iniquidades a que o submeteram, teriam a mesma atitude honrada e de desafio diante delas, em lugar da vitimização e do revanchismo que se esperaria como resposta mais imediata?

Diante disso não me restava senão constatar o óbvio: que estivera sim totalmente errado, o que não surgiu da simples constatação de um erro frente à postura íntegra de um líder, mas por tomar consciência de minha provável atitude se fosse eu a passar por vicissitudes e injustiças de tal porte.

Constatado o erro de forma cabal e inequívoca, restava-me agora me mostrar igualmente fiel ao meu próprio sistema de valores para, de peito aberto, me penitenciar perante mim mesmo, trocando o sentimento interno de vergonha pela honradez de assumi-lo publicamente, objetivo maior deste manifesto de repúdio ao adversário forjado artificialmente pela manipulação alheia. E não apenas pelo combate injusto que impus ao homem íntegro, mas principalmente por ter deixado que minha busca irrenunciável pela verdade fosse convertida em instrumento útil de exploração pelas mentes espúrias dos conspiradores de plantão, os mesmos que colocam seus interesses fisiológicos a frente das grandes causas nacionais.

Assumí-lo, portanto, não vai além de um ponto de honra para me redimir, antes de tudo, perante mim mesmo, como qualquer pessoa de caráter o faria ou, pelo menos, sentisse vergonha da própria covardia por não tomá-lo como dever moral.

Este manifesto, no entanto, não se limita ao reconhecimento de uma culpa, estendendo-se também a uma homenagem há muito devida a um colecionador de vitórias improváveis que resultaram de sua obstinação e fidelidade tenaz aos próprios ideais.

Luiz Roberto Bodstein

Consultor Organizacional e Escritor 

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