sábado, 1 de novembro de 2025

Introdução - O Pensamento Franco-Libertário

 


Assista ao Podcast clicando AQUI




O libertário é, antes de tudo, um ferrenho defensor da liberdade intelectual para se manter distante de vieses políticos ou econômicos, mas não só: ele acredita que o sentido da vida está em guiar-se pela consciência intrinsecamente liberta de tutela externa. A autonomia, portanto, se traduz como essência de sua identidade para posicioná-lo como autor e protagonista de seus atos e valores. 

Seu senso de liberdade rejeita toda sorte de autoridade imposta, venha ela de governos, dogmas, movimentações plurais ou de outros modelos de pensamento que limitem a autodeterminação. Nesse contexto, expressões como “padrão”, "modelo", ou qualquer outra que se fundamente em cânones comportamentais - notadamente os coletivos - não irão integrar seu contexto de vida. Em essência, a visão de um libertário é a de que liberdade é um estado natural da existência humana, daí não aceitá-la como uma concessão dos que detêm o poder. Em resumo, o libertário é um existencialista prático que vê a vida como um sistema inegociável de escolhas, e onde cada decisão define quem ele é. 

Um libertário tenderá para uma visão individualista, mas que não se confunde com a “egoísta” pela ótica do senso comum. Ele valoriza profundamente o respeito mútuo nas interações sociais, desde que cada qual não se distancie daquilo que é quando longe de um grupo. E justamente por se ver como parte desse todo sistêmico, defende que cada indivíduo deva arcar com as consequências das próprias ações, sem esperar tutela ou condescendência por parte do Estado ou da coletividade, tidas por ele como política paternalista que privilegia uns em detrimento de outros.

Um libertário não apenas se mostrará “tolerante” para com as diferenças, mas como um seu permanente defensor. “Tolerar”, para ele, é uma forma disfarçada de intolerância socialmente aceita. “Eu aceito que você seja tão diferente quanto queira, desde que eu não precise compartilhar o mesmo espaço com você”. Essa percepção do outro tão somente reforça - em sua concepção - uma sociedade dividida em castas, constituída por indivíduos de primeira e de segunda classe. Mas a igualdade que ele apóia também não é a dos que, em nome dela, se acreditam no direito de interferir na liberdade alheia. 

Costuma se mostrar bastante cético diante de ideologias coletivistas ou projetos de “engenharia social”, pois vê neles um risco de padronização do pensamento e da conduta humana.  Libertários também são imbuídos de um forte senso ético,  independentemente de um regramento legal que disponha sobre costumes socialmente aceitos, e simplesmente porque acreditam que a ética é a base natural da convivência entre seres livres.

Até aqui estivemos falando do libertário preconizado por filósofos modernos e estudiosos do comportamento a partir dos anos 1960, ou desde que se começou a estudar o tema como corrente de pensamento em meados do século XIX, onde ele teve suas raízes. Mas onde fica a diferença entre esse libertário mais comum e o “franco-libertário” que dá título a este nosso compêndio? 

Basicamente a diferença se concentra no campo das interações humanas. Pode-se dizer que o libertário tradicional vê com muita simpatia a adesão de pessoas à sua forma de pensar, o que o predispõe a integrar comunidades de pensadores com quem desenvolva afinidades, ou se tornar uma voz destacada entre eles para reforçar suas convicções libertárias. 

O “franco-libertário”, por sua vez, não tem pretensões de integrar comunidades ou, mais especificamente, unir sua voz a de outros que sigam a mesma corrente de pensamento. Metaforicamente poderíamos usar a expressão “trabalho de formiguinha” para ilustrar o comportamento típico de um libertário tradicional, enquanto que ao franco-libertário caberia bem a alegoria da cigarra para descrevê-lo:  ele vê sua atuação como um ato isolado e totalmente alheio à necessidade de integrar grupos de qualquer natureza, descobrindo, inclusive, fontes de prazer (muito intensos até) que não dependam de ninguém mais a não ser dele próprio. Pensadores modernos estão considerando tal postura como uma nova forma de hedonismo que, por essa concepção mais recente, caracteriza a busca por prazer nas pequenas coisas do cotidiano e de uma forma altamente positiva, já que baseada em sustentabilidade consciente e autônoma, ou seja:  ela não depende de validação externa para atingir a plenitude em nível de auto-realização. 

Em resumo, assim como esse “hedonismo positivo” envolve o franco-libertário numa escala crescente de prazer – alimentada por forte senso de satisfação interna e de auto-descoberta – ele transforma sua filosofia libertária em verdadeiro propósito existencial: seu trabalho incansável pela liberdade, tanto própria quanto a de todos, pode sequer ser percebido pelas pessoas à sua volta, pois ele o desempenha como um “canto de cigarra” que encontra prazer no próprio ato de cantar, sem precisar de platéia para se mostrar potente como é.  Como o canto da cigarra seu desempenho é solitário. mas potente quando ouvida pelos que lhe prestam atenção, e apenas pelos que prestam atenção, e é esse exatamente o seu foco: ele se distingue não pelo alcance, mas pela força da mensagem, que se propõe a se manter qualitativa e atemporal. 

Mais uma vez, o que o distingue do libertário tradicional é que, diferentemente deste, sua atuação é passiva, silenciosa, mas persistente e de longo prazo. A frase que resume esse tipo de postura adotada pelo franco-libertário é esta aqui, já mostrada inclusive na apresentação deste blog: 

Sua mensagem não é posta na ponta de um mastro, mas levada pelo vento como sementes lançadas da janela de um trem: muitas caem sobre rochas impenetráveis, e fenecem; algumas caídas sobre terras rasas não conseguem aprofundar suas raízes, e logo secam; outras, porém, encontrando terras férteis e profundas, se transformam pouco depois em árvores frondosas!”

Se lhe perguntassem sobre os resultados que espera do seu trabalho, ele fatalmente diria que não tem pretensão alguma de obter “sucesso”  pela ótica desta nossa era digital, em que o “parecer” (ou “aparecer”) é mais valorizada do que o “ser”, realmente. Seu conceito de sucesso é de foro absolutamente íntimo, onde cada retorno esporádico e anônimo lhe mostra que seu público-alvo – constituído por futuras mentes libertárias – está brotando aqui e ali, confirmando que a semente caíra sobre terras férteis e dessa árvore virão mais e mais sementes... E isso é o que ele traduz por realização. 

O adjetivo “franco” que antecede este tipo de libertário pode ser facilmente entendido quando o comparamos ao do franco-atirador, que não mira num alvo específico, mas cujo impacto de sua intervenção pode atingir proporções muito além do que o conseguiria se direcionado a um alvo específico.

O franco-libertário, enquanto ente social, costuma trazer um espírito inquieto, racional e contestador, questionando normas, hierarquias e “verdades” aceitas sem reflexão. Prefere construir suas próprias conclusões, ainda que isso o torne minoritário ou incompreendido. Por conta disso vai se sentir desconfortável em ambientes onde predomina a obediência cega e a cultura de rebanho. 

Então aceita pagar o preço de ser livre — inclusive o do isolamento e dos becos sem saída — por considerar que a servidão voluntária é pior que o fracasso autêntico. Sua vida interior costuma ser intensa, movida por um senso de coerência entre pensar e agir. Sob o prisma dos objetivos existenciais um franco-libertário nuca sairá em busca do poder: sua perspectiva é por autenticidade e soberania pessoal. O objetivo último é viver em harmonia com sua própria natureza e princípios em um mundo onde cada indivíduo possa fazer o mesmo. 

Isso, em termos práticos, se traduz por coisas como criar, produzir e amar por escolha, em vez de por dever ou coerção; ser dono de seu tempo, de sua consciência e de seu destino; viver com integridade, mesmo que em desacordo com a maioria. Coisas que, em lugar de abatê-lo, o deixa orgulhoso pela resiliência que lhe pula do peito. No fundo, o libertário aspira a uma forma de paz ativa — aquela que surge quando o indivíduo vive sem máscaras, coerente consigo mesmo e livre de amarras externas mas, principalmente, das internas que as pessoas criam para aprisionar a si mesmas. 

Como tudo, no entanto, seu senso libertário carrega tensões e desafios, como o de conciliar liberdade absoluta com o convívio social. A solidão poderia ser um grande problema, não fosse a sua habilidade para auto-realização, momento em que a substitui pela postura de quem se basta a si mesmo, popularizada como “solitude”. 

Mas como todos que seguem o caminho inverso ao da corrente, não há como não viver a solidão de quem se nega a integrar os sistemas de obediência coletiva, que leva muitos ao risco de mergulhar no niilismo ou na indiferença social, quando a busca pela liberdade se afasta do eixo ético. Apesar de tantos desafios, para o franco-libertário esses riscos são apenas uma parte pequena do preço que paga por sua lucidez, pois que sua natureza irá sempre preferir o peso da liberdade à leveza da servidão.




 


Nenhum comentário:

Postar um comentário

O que a igreja é para você?

  (Pergunta de Hélder Oliveira / Portugal): Importante a ênfase que estarei dando ao " para você " do final de sua pergunta, e a r...