O texto é uma crônica reflexiva na qual o autor explora sua incapacidade de se envolver com paixões fervorosas, como o fanatismo futebolístico, contrariando a tendência comum. Ele analisa essa peculiaridade como um traço de sua personalidade, questionando se é algo inerente ou resultado de uma forma de pensar diferente. A narrativa oscila entre memórias pessoais e especulações filosóficas, culminando na autoaceitação de sua singularidade. O autor se compara metaforicamente a um extraterrestre, enfatizando sua busca pela compreensão de sua própria individualidade em contraste com as normas sociais.
Eu nem deveria estar aqui escrevendo. Um dia cheio de sol
como este envia um convite quase irrecusável para meu espírito libertário se
livrar do mofo e sair pedalando sem rumo, diante desse sol brilhante que me
invade tanto a alma quanto o escritório de onde escrevo esta crônica. Mas meu
espírito incorrigível de eterno buscador acaba vencendo a disputa e cá estou
eu, deixando a bike para amanhã, que a previsão garantiu trazer um dia mais
bonito ainda, confiando que o sol continuará nascendo todos os dias mas a
inspiração que chega de repente raramente se mantém viva até o dia
seguinte.
Tô eu aqui querendo entender o porquê dessas paixões sem
sentido (pra mim, pelo menos!) a que as pessoas se entregam, e me perguntando
ao mesmo tempo por que eu, mesmo me esforçando, nunca consegui manter alguma
delas mais do que por um curto período de tempo. Mas a verdade é que gosto
disto, a de não me sentir submetido a nenhuma, exceto o sentido que me prende à
minha própria liberdade ou às pessoas das quais me aproximo por algo bem menos
profundo do que seus discursos dogmáticos!
Serei um ET? Mas como um ET sabe se tratar de um se nunca
sair de seu próprio meio? Às vezes o mundo à minha volta parece tão estranho ao
que trago por dentro que me dano a perguntar se me trouxeram de algum outro
planeta, mas esqueceram de me contar. Quem saberia me dizer como se pode passar
uma vida inteira se perguntando porque as paixões – como a qualquer outro
mortal – não o definem, e ainda assim gostar de se sentir esse alienígena que
nada contra a maré? Pois é exatamente o que me pergunto há décadas, e até agora
não consegui sequer me aproximar de uma resposta, mas somente acumular um
número cada vez maior de perguntas, pois que as primeiras nunca são suficientes
para aplacar uma sede sabidamente insaciável.
Sei... Você que lê este texto não deve estar entendendo nada
do que estou falando. Compreensível. Já me fiz essa pergunta também e foi
difícil chegar a uma resposta plausível. Mas tenho motivos de sobra pra achar
que eu tenho um ET enrustido lá dentro desta configuração de carne e osso. Não
consigo entender, por exemplo, porque praticamente todo mundo no país em que
vivo tem que ser fanático por futebol... e eu não gosto! Por que é que todo
mundo que conheço é fanático por cerveja... e eu não suporto! Ou porque um
montão de gente apoia algum mito que eu odeio!
Tá! Pisei no seu calo agora e tenho que abrir mais a coisa.
A ideia não era entrar por essa seara, mas já que entrei, vamos lá. Não é que
eu seja imune a paixões, mas o que sei é que algo impede que eu me afogue
nelas. De quando em quando até mergulho mais fundo, mas é só pra, quando voltar
à tona, poder comparar o que senti lá do fundo com o percebido aqui em cima, e
não acabar dominado por nenhuma das duas.
Em tempos de redes sociais é impossível não topar com algum
desses heróis acima do bem e do mal – ou até um anticristo, sei lá – que
seguidor nenhum ousa questionar, e isso é um fator que, por si só, já me
provoca arrepios. E a razão é simples: pela minha ótica “auto-aflorada”, nada
absolutamente, dentre tudo o que se coloca entre Deus e o diabo, está livre de
ser questionado, inclusive os próprios.
Se eu concebesse um deus que nos dotasse de inteligência
para questionar todo o resto, exceto ele mesmo, seria difícil distingui-lo de
qualquer ditadorzinho de uma república de bananas. Não o vejo tão “sem noção”
pra cobrar ser aceito por esse viés, e isso me remete ao velho enigma das
paixões inquestionáveis: por que não acontecem comigo, se vistas como razão de
ser por tantos? Seria mera pretensão minha de parecer “especial”, ou o meu ET
interno gritando algo tipo “pula fora que vai entrar numa furada”? Acho
que nunca o saberei!
A questão é que tem algum troço lá no fundo, alguma espécie
de luzinha vermelha no painel – e eu não sei como nem porque – que parece
piscar me avisando a hora de mudar a rota. E não adianta tentar resistir,
porque a rejeição à ela entra num crescente tão automático que, a partir daí,
não consigo seguir em frente sem sentir todos os pelos do corpo em pé. E é
quando meus diálogos internos entram em cena, tentando explicar o fenômeno da
repulsa espontânea e auto insurgida como sexto sentido, algo assim, me forçando
a ligar os pontos e levantar-lhe as arestas, até que aflore ao plano
consciente. E de novo as famigeradas (e recorrentes) elucubrações: “Onde estão
os outros?...”
Mais tarde vêm as tentativas de entendimento: “Porque as
pessoas atuam como um bando de idiotas anencéfalos, de
‘maria-vai-com-as-outras’? Por que tantos passam por cima do incontestável para
manter a postura do ‘impávido colosso’? Acreditariam mesmo numa imponderável
teoria da conspiração para explicar tudo o que não querem descobrir? Sentem-se
assustadas pela ideia de descontruirem suas próprias verdades ao tentar
entendê-las?
Mas o mistério maior não recai sobre a razão das pessoas
para seguir um rumo que se mostra claramente equivocado, mas no meu para essa
“ficha” cair de repente, sem que eu saiba exatamente a razão. Fico sempre com a
imagem desagradável de colocar meu cérebro numa mesa, junto a vários outros, na
tentativa de entender por que o meu funciona diferente. E a percepção é a de
receber um “suporte técnico” por alguns “hermanos” da além-galáxia: “Seu
cérebro parece desprovido do componente comum da paixão direcionada a pessoas
ou coisas, tendendo a produzir respostas lógicas na maioria das vezes. Isso o
torna refratário a construções que transformam pessoas comuns em heróis, de
modo a que consiga enxergar suas falibilidades.”
Eureka! Meu ET interno de novo me ajudou a decifrar a
parada! Claro que isso não me torna imune a armadilhas de toda ordem. Vez por
outra sucumbo às tendências numéricas que me levam a concluir: “Pessoas
analíticas também desenvolvem paixões irracionais em algum momento. Essa é a
regra!”– quando então meu “etezinho” interno entra na briga: “Mas essa regra
não se aplica a você, porque você é um ET, esqueceu?”... Complicado isso! O
conflito se instalou com a ideia de que seria mais fácil sucumbir às paixões,
como todo mundo. Mas cadê tesão pra sustentá-la? “Pô, não fiquei assim pela
desilusão com a vida, muito menos por indiferença. Eu choro vendo uma menina
que acabou de recuperar o cãozinho sequestrado... Por que então não consigo
entender a paixão do povo sofrendo por seu time?” Pois é! Desenvolver um
pensamento ET como padrão pode acabar em tortura pela vida inteira!
Volto no tempo e me vejo décadas atrás – menino ou
adolescente – compondo a rodinha fechada do bairro, a minha “turma de fé”,
como todo mundo. Lembro do “baseado” passando de mão em mão, até chegar
em mim... Estendo pro seguinte, sem leva-lo à boca, e a turma questiona: “Pô,
não vai dar nem um “tapinha? Nem pra saber o gosto?” E eu: “Não!
Não tô nem curioso!”. Tinha também os “Hi-Fi”, os populares “bailinhos” que
aconteciam cada vez na casa de um e, como de costume, todo mundo de “Cuba
Libre” na mão!... Menos eu, que ficava na Coca Cola. A turma pira, zoa... Eu
nem na deles. Algumas vezes não queria nem Coca e partia pra um coquetel de
frutas... E só com frutas! “Ferrou!” – diziam, e eu nem aí,
apesar de toda a zoação.
Aí você vai dizer que foi a formação de casa. Nada! Meu pai
fumava desbragadamente, e ele ou mamãe nunca falavam sobre drogas com nenhum de
nós. Era tabu, como tantos outros assuntos. Então aquela minha resistência
parecia vir do nada, ou dos “hermanos galáticos”, sei lá. Mas o que sei é que
não entrava numa de fazer algo apenas porque todo mundo estava fazendo. Na
época nem buscava as razões: não sentia tesão pela coisa e pronto. Apenas
seguia meus instintos, sem tentar explicá-los! Não tinha nada de querer
ser bonzinho, diferente, ou trazer alguma ideologia por trás. Era falta de
vontade pura e simples, vá lá entender a razão!
Só muito mais tarde saí buscando o porquê daquilo, da recusa
em entrar na “vibe” da minha turma, como seria o esperado. E finalmente
concluí: já era a ausência da bendita paixão! Simples assim! Algo me dizia que
o que eles buscavam não me faria a menor falta. Não importa a razão: era uma
resposta ao chamado interno e não ao externo, e ponto final!
Lembro que entre os 10 e os 25 anos – como acontece em todas
as épocas – sempre tinha alguém pra produzir um “frisson” na turma com algum
programa, o que levantava uma enorme expectativa neles bem antes do evento. Mas
comigo não rolava emoção, muito menos aquele clima de “tentar suicídio” se não
fosse convidado. Via como algo natural que poderia ou não acontecer, sem lhe
dar poder para alterar meu rítmo.
O avançar dos anos foi me trazendo outras resistências ao
senso comum que fui associando às anteriores, permitindo montar aquele
quebra-cabeças que me conduziu a uma interessante conclusão: algo dentro
de mim produziu uma resistência natural contra qualquer fato com potencial para
alterar meu estado de consciência, atuando como um gatilho automático
contra a perda do meu poder de decisão.
O que começou apenas como reação instintiva quando eu não
tinha sequer uma posição a respeito, posteriormente se revelou a mim como uma
“blindagem” desconhecida até por mim, uma espécie de “proteção” mantida até o
momento em que pudesse avaliar por mim mesmo se convinha introduzir algum
componente novo à minha vida. E ainda não consegui entender, à luz da lógica, a
ausência de curiosidade ou expectativa diante de algo novo durante os anos de
minha adolescência, uma característica natural desse período que atua
como mola impulsionadora para descobertas e novos aprendizados. Por
alguma razão esse componente não se fazia presente em mim, suprimindo o desejo
comum de experimentar coisas em que o comando pudesse saltar de minhas mãos
para a experiência em si. Isso entraria aparentemente em choque com uma
inquietude intelectual que se debruçava sobre detalhes que meus colegas nem
notavam. Mas no caso desta curiosidade eu queria explorá-la sem interferências,
de dentro pra fora, em vez de fazer o caminho contrário.
Mesmo sem conhecer as razões, algo me impelia àquela
resistência não vinculada a qualquer crença, ideologia ou valores contrariados:
eu a via como uma reação autônoma que não dependia de minha autorização,
tipo uma rejeição programada para funcionar no “piloto automático”, caso
algum risco entrasse em seu radar. Seria muito fácil atribuí-la a fatores
sobrenaturais, se essa fosse a minha tendência, mas preferi me ater à premissa
newtoniana de que “o que sabemos é uma gota, e o que ignoramos é um oceano”
para apenas aceitar o fato, em vez de tentar entendê-lo, em respeito ao meu
ceticismo basilar.
Mas a experiência daqueles tempos acabou se estendendo para
muitos outros aspectos que, já na vida adulta, eu reconhecia como “viciantes”
de forma consciente, e o desejo de seguir o rito comum ficasse submetida à
paixão por uma causa ou pessoa a que se atribuisse um status maior que a
própria vontade. Foi quando meu senso critico se tornou mais acentuado, e com
ele a necessidade de uma autonomia cada vez maior em relação a ideias, crenças
e leituras externas. Mas claro que isso só me chegou bem mais tarde em nível
consciente, após análise daquele histórico de reações instintivas e não
questionadas por muito tempo.
A maturidade acaba convertendo o antigo receio de parecer
“herege” ou mero rebelde sem causa em contestação legítima, naquele
prazer de assumir a própria essência sem medo de ser feliz. A gente
supera o medo de ser punido pelos céus apenas por assumir as próprias dúvidas,
ao se descobrir distante de qualquer “verdade”, antes de se afirmar sobre mitos
ou supostas realidades.
– Mas você não tem religião? – me perguntam alguns.
– Já tive, mas não quero mais ter uma!
– Ah! Tornou-se ateu.
– Também não!
– Como assim?
– Até pensei ser ateu por um tempinho, mas minha própria
racionalidade me impediu. Coisa demais pra surgir do nada. Pura lógica, simples
assim, mais uma vez!
– Mas acredita em ET!
– A lógica de novo: pretensão demais para um povo dessa
poeirinha galáctica em que vivemos. A questão não é existir, mas aproximar os
dois.
– Você é pirado!
E a coisa segue por aí... Sendo visto como “pirado”, mas
sempre pirando os que insistiram em tentar entender a minha diferença nessa
eterna briga pelo espaço entre iguais que nunca precisou de paixões, de heróis,
de crenças, de times, ou de seguir a bússola para um mesmo ponto de atração, em
vez de seguir o norte da agulha interna a que só você tem acesso.
Trocar ideias pode não ser tão fácil como se pensa, principalmente quando um dos lados entende o convencimento como uma tentativa de colonizar o outro, como o disse Saramago. Entretando, na ausência de arreios e verdades construídas, podemos encontrar tempo suficiente para falar de nossas igualdades, entender melhor as nossas diferenças e as complementariedades que geram, que podem inclusive explicar os espíritos indômitos em que nos transformamos.

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