Parte 1
Controvérsias dogmáticas
Algumas dessas teses disseminadas entre os fiéis atingem níveis de um verdadeiro “teatro do absurdo”, de tão ilógicas e claramente inverossímeis, não requerendo sequer que se busque argumentos fora de seu próprio contexto, já que se chocam entre si. A própria Bíblia é um exemplo de como um mesmo sistema dogmático pode ditar regras que se anulam mutuamente, bastando analisá-las à luz da realidade factual: Em Romanos 3:28, por exemplo, Paulo afirma que somos justificados pela fé, sem as obras da Lei; já em Thiago 2:24 o discípulo afirma que a fé sem obras é morta, e que somos justificados pelas obras. Em Matheus 27:5 se observa outro flagrante confronto: Judas teria jogado fora as 30 moedas obtidas com a venda de Jesus e se enforcado; mas em Atos 1:18 é dito que ele comprou um terreno com o dinheiro, caiu de cabeça e seu corpo se abriu. E esses exemplos representam quase nada frente ao enorme volume de passagens bíblicas em que tais conflitos se mostram visíveis.
Questionados a respeito, religiosos de diferentes denominações cristãs responderam que os relatos apresentariam versões diferentes por terem sido escritos por pessoas diferentes, com base em tradições que mantinham focos distintos. O argumento pareceria sustentável, não fosse uma outra afirmação que o contradiz: a de que os relatos teriam sido ditados por Deus. Nesse caso Deus estaria desmentindo a si mesmo. Outros líderes religiosos o justificam dizendo tratar-se de linguagem simbólica, e que por tal razão não devem ser lidos literalmente. Contudo, é ouvido de muitos pastores que a Bíblia não contém inverdades, e deve ser consultada sempre que sobrevier alguma dúvida, pois expressa a palavra divina que se faz incontestável e perene. Colocadas todas num mesmo contexto em que possam ser comparadas entre si, não há como não perceber todas as suas inconsistências. No entanto, não se tem notícia de que a linha dogmática por trás dessas instituições tenha sofrido algum abalo ao longo de milênios de existência.
Alguns versículos, como os de Provérbios 26:4-5, sobre como responder ao tolo, mesmo se mostrando contraditórios são justificados como princípios aplicáveis a diferentes situações. Para os fiéis essas passagens não revelam contradições, mas pontos que exigem “uma leitura mais aprofundada”, considerando o gênero literário, o contexto histórico e a legitimidade do autor para se obter uma compreensão mais rica da mensagem bíblica.
Neste ponto é possível entender a
estratégia básica de sobrevivência das religiões: independentemente da força do
argumento contrário, elas sempre encontrarão novos pilares de sustentação para
suas postulações dogmáticas, já que os mistérios do universo, à luz da verdade
divina, “ficam muito além do que pode alcançar a nossa limitada mente humana”.

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