terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Religiões - Um estudo sobre seus pilares e contradições - Parte 2

Bella Ciao - Banda Republicana

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A eterna batalha contra um mundo que não perdoa

No momento em que dou início a este terceiro texto da série sobre as religiões, alguém deve estar se perguntando em que momento me tornei ateu. Mas, ao se inteirar de tudo o que revelo em seus textos, a resposta pode surpreender: Nunca me declarei ateu, e isso não tem nada a ver com crenças – como podem sugerir – mas com traços de personalidade que foram sendo construídos ao longo do tempo, e relacionados  com inquietude, curiosidade intelectual, busca permanente por elementos factíveis, e coragem para encarar o que descubro, antes de qualquer coisa.    

Tal postura não é algo que ocorre de um momento pra outro,  mas por uma construção que vai acontecendo ao longo de décadas. No meu caso muitas, já que me aconteceu aos 12 anos de idade, quando decidi que não mais permitiria que meus medos fossem mais fortes do que minha determinação de dominá-los. Mesmo tão novo, já tinha consciência de que não querer sentir medo é no mínimo falacioso, além de inútil: o verdadeiro ato de coragem consiste numa permanente resistência, de modo a que nunca saia vencedor. 

  Já acostumado a assumir minhas verdades desde muito cedo, aquele momento também fora reflexo de uma construção ainda mais antiga, a de não baixar a cabeça diante de forças maiores que as minhas, pra me acovardar frente à prepotência, arrogância e autoritarismo do mundo que mal acabara de conhecer. 

Isso me despertou para a dissonância que sentia em relação a ele, ao mesmo tempo em que acordava para a dimensão de uma luta que jamais teria fim. A mim ficou claro, então, que nossos inimigos internos são muito mais fortes que os externos, e que seu enfrentamento seria uma batalha eterna – mas nunca inglória – pois que o grande desafio não está em sua eliminação, mas em não permitir que nos vençam. Em resumo, o que se está falando aqui não é sobre religião, mas sobre libertariedade! 

Sabe-se que, para quem não se identifica com o que chamo de “Lia” – essa Liberdade, Independência e Autonomia que me definiu desde sempre – a mudança chega a ser algo aterrorizante, principalmente num contexto de “crenças limitantes”. Tal nome se deve a um cenário que aprisiona o indivíduo dentro de verdades dogmáticas que não escolheu: simplesmente permitiu que lhe fossem incutidas de fora pra dentro, sem nunca havê-las submetido a qualquer análise crítica. 

Constituem-se naquele tipo de “verdade” que lhe transmitiram em algum momento – e de forma tão esmagadora – que ele jamais se atreveria a contestá-la, por mais absurda que se mostrasse.  Daí se entender o pavor de mudanças que possam ameaçar tais construções, erguidas basicamente pelo uso do medo como estratégia, e principal garantia de sua fidelidade. 

Quando esse indivíduo encontrar coragem para enfrentar suas próprias mudanças de pensar, seja no campo ideológico, religioso ou filosófico, estará dando o primeiro passo – o mais decisivo dentre todos – rumo à sua libertação. Daí se entender a razão dos mais acovardados para sequer tentá-lo, preferindo não vasculhar seus labirintos internos pelo medo de escancarar sua “caixa de pandora” pessoal.     

Isso poderia significar que toda pessoa que permanecer em sua fé, ao longo de toda uma vida, estaria no time dos acovardados? Decididamente não! Ele pode ter explorado todos os seus espaços internos sem encontrar nada que lhe mostrasse mais sentido, pura é simples. Não é sobre conceitos de certo e errado de que falamos, mas sobre encarar de frente qualquer resultado a que se chegue. “Certo” e “errado” são conceitos subjetivos de natureza cultural que variam continuamente, enquanto que decisão é o ato afirmativo e consciente de assumir as consequências das próprias escolhas. Em suma, é uma demonstração de coragem, não de covardia.

 Mas, retornando ao início do texto, o que teria me levado a recusar o ateísmo como tese de vida, após quase quarenta anos mergulhado no estudo comparativo das religiões? A resposta é bem mais simples do que possa parecer:  Primeiro, por ter no autoconhecimento meu maior propósito de vida, algo que converteu minha trajetória num mergulho profundo em minhas verdades mais impactantes; e segundo por ter encontrado desde cedo em minha coragem o mais forte pilar de sobrevivência, dando início a uma escalada de posicionamentos que construíram o meu libertarianismo, sem temer o que poderia encontrar ao final dessas buscas. Por último, por me colocar disposto a rever todo o caminho percorrido ao identificar que a linha de chegada  contrariava aquilo que minha bússola interna assumira como verdadeiro. A verdade sempre foi o norte para onde essa bússola apontava, em perfeita sintonia com os parâmetros ditados por uma mistura de lógica, princípios e senso crítico. E caso o sentimento de certeza não se fizesse presente, nova mudança de rumo  não seria o problema.    

E como saber se tal certeza não iria além de um equívoco conceitual? A “testagem”, desta feita, passaria por uma pesquisa levada a extremos, onde muitas vozes seriam ouvidas de modo a lhe dar sustentação, e a credibilidade das fontes seria reforçada para eliminar possibilidades de erro por negligência, imprudência ou imperícia, prática essa adquirida ao longo de minha formação jurídica. No que toca a este quesito, posso afirmar que a lógica se mostrou indispensável para filtrar “os elementos de prova” e prevenir, pelo menos em parte, aquele tipo de “erro crasso” que pudesse desvirtuar o resultado.   

Na prática, a opção pelo Agnosticismo ao final de minha busca foi de encontro a uma lógica insofismável: nunca se poderá tomar como verdade qualquer coisa que diga respeito a espiritualidade pela simples constatação de que nenhum de seus elementos são comprováveis. Eles apenas refletem a visão do observador, tendo como premissa sua experiência pessoal, mas não necessariamente a narrativa com que o teriam convencido.  

Não podendo, portanto, referendar minhas próprias percepções, concluí que admitir a dúvida era o que se mostrava mais coerente e honesto, notadamente quando não se pode provar ou negar a postulação tomada como objeto de estudo. E a explicação se revela ainda mais simples, no tocante ao estudo das crenças humanas: Tanto o crente quanto o cético não se mostram diferentes na forma, mas apenas na direção escolhida. O crente acredita na existência de Deus, já o cético acredita na inexistência dele. Ou seja: cada um deles é tão crente quanto o outro, mudando apenas o corpo de prova.

E foi assim que minha lógica me levou diretamente para o Agnosticismo, ao me aproximar do entendimento de Spinoza em relação a um deus diferente do bíblico, que exibe posturas não apenas iguais às nossas idiossincrasias humanas, mas tão contraditórias e censuráveis quanto às observadas nas sociedades mais primitivas deste planeta repleto de incoerências.  

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