sábado, 15 de novembro de 2025

Lidando com os próprios medos

 


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Apesar de Você

O maior temor da minha vida eu descobri muito precocemente, quando ainda era um pré-adolescente, por volta dos 12 anos de idade. Nessa fase eu nem questionava a maior parte do que descobria com as experiências de minha curta existência, mas um episódio corriqueiro acabou dando forma à primeira base filosófica de minha vida, que foi se consolidando ao longo de minha trajetória e permaneceu inalterável até hoje. Vou narrar o fato que lhe deu causa, para me fazer entender de uma forma bem simples: 

Por alguma razão que não sei quando começou, um colega de escola - de seus 16 anos e bem maior do que eu - me fez uma ameaça de que me espancaria no primeiro momento em que cruzasse comigo na rua, já que no ambiente escolar seria punido por isso. Só que esse rapaz morava na minha rua e bem no caminho que eu precisava fazer para chegar ao colégio, a uma distância de duas quadras da minha casa. Assim, todos os dias em que saía para a escola eu passava na frente da casa dele. 

Nossa rua corria paralela à avenida principal do bairro, numa quadra abaixo desta. No dia seguinte à ameaça do valentão eu seguia pelo caminho de sempre para alcançar o colégio quando, ao chegar na esquina da rua que separava meu quarteirão do dele, me lembrei de sua promessa de me surrar. Para escapar eu só teria a opção de subir a rua em direção à avenida principal para contornar o quarteirão da casa dele, pois que para baixo dava num rio e não havia passagem para a mesma direção. 

Eu cheguei a dar dois ou três passos para alcançar a avenida quando parei ao ser assaltado por um pensamento. Estávamos ainda no começo do ano letivo, e já fora provocado várias vezes pelo valentão que adorava ameaçar os colegas menores. Se eu quisesse fugir do confronto a solução seria contornar o quarteirão da casa dele o resto do ano, pegando uma subida forte até a avenida e descendo pela outra quadra. Estaria mesmo disposto a fazer isso todos os dias, a partir de então, para escapar da surra? 

A decisão veio em seguida: se ele quisesse me bater mesmo eu teria que enfrentar meus temores e resolver aquela questão de uma vez por todas, ou me entregar ao medo de apanhar que me acompanharia pelo resto do ano, e talvez nos próximos, se ambos permanecêssemos colegas de escola. Então segui firme em frente, e não apenas isso, mas também mudando de calçada para passar bem em frente à casa dele, pois que ficava à minha esquerda, enquanto minha casa era do lado direito. 

Pouco antes de atingir a calçada do fanfarrão eu o vi também saindo para ir ao colégio, pois que estudávamos no mesmo horário, e ao me ver à distância dirigiu-se direto para mim para cumprir a ameaça. Eu deixei os livros cairem na calçada e preparei os punhos para me defender como podia, já que me preparara para aquilo. E parti para cima do brutamontes com socos e pontapés de toda forma que eu podia, apesar de sabê-lo maior e mais forte do que eu. Rolamos no chão até que um adulto se aproximou, pegando-nos pelo braço. Passou-nos "um sabão" e mandou que cada qual tomasse seu rumo. 

A essa altura eu já estava todo sujo e rasgado. Meu nariz sangrava e manchou de sangue toda a camisa branca do uniforme. Eu sentia a minha boca inchada por um soco que ele me acertou, e meu casaco (estava bem frio no dia) fôra transformado em trapos pelos puxões. Então tive que retornar para casa, sem condições de ir à escola daquele jeito. No caminho de volta a primeira percepção sobre tudo o que ocorrera: eu não sentia as dores dos socos nem das escoriações conseguidas por termos rolado na calçada. O que  sentia era uma sensação de orgulho tão grande de minha coragem que me lembro dos machucados e de minha roupa rasgada como uma espécie de troféu que eu levava para minha casa. 

Um colega meu que morava ao lado, ao me ver entrar naquele estado exclamou: "Caramba! A briga foi feia mesmo!". Até hoje lembro da satisfação imensa que suas palavras me provocaram, e eu sorria quando entrei em casa, como se tivesse sido premiado com um presente maior que meu peso, e potente o bastante para anestesiar qualquer dor. Eu só percebi a dimensão da coisa quando me olhei no espelho, com minha mãe me lavando e bastante assustada, e vi o lábio inchado, um olho roxo e o sangue jorrando do nariz. Eu senti orgulho deles – essa foi a sensação que até hoje trago viva na lembrança – como se fossem medalhas de bravura, ampliados ainda por saber que até o momento em que nos separaram eu lutara com todas as forças que conseguira e deixei o fanfarrão tão machucado e rasgado quanto eu, para também não poder seguir para a escola. 

Para fim da estória, durante o resto do ano eu e esse garoto nos encontramos diariamente em sala de aula, no horário do recreio, na chegada ou na saída das aulas, mas nunca mais ele sequer chegou perto de mim, nem mesmo para soltar suas gracinhas, como fazia até o dia da briga. 

De minha parte aquele dia me trouxe a grande lição que nunca iria esquecer, que é a de enfrentar os meus medos, não importa o tamanho que ele tenha. Sempre fiz isso desde então, e não entro "na pilha" dos que ficam em pânico à minha volta, por mais grave que se mostre a ameaça, lidando com a situação de forma firme e controlada. 

Já enfrentei dois assaltos e uma tentativa de um terceiro sem me alterar, como até um risco de tiroteio dentro do ônibus em que viajava em dias de carnaval, e enquanto todos gritavam, se abaixavam ou saltavam pela porta que se abriu, se atropelando uns aos outros, eu permanecia no meu estado normal, apenas observando, como se aquilo estivesse acontecendo numa tela de cinema, e não à minha volta. 

Você pode me perguntar se nunca sinto medo, não é? Isso não é verdadeiro! Depois que a coisa passa sinto os joelhos tremerem, e o coração pula no peito parecendo chegar "em reprise", como por efeito retardado. Mas aí não existe mais ameaça, eu fiz exatamente o que deveria ter feito no momento do fato, e no controle total de minhas emoções, e agora estava em condições até de pensar no risco que correra, mas já consciente de que o perigo já fora superado. 

Brinco sempre que minha adrenalina é dotada de uma espécie de “efeito retardado”, e acho isso muito positivo, pois na hora sei exatamente o que devo e o que não devo fazer, e isso me coloca no controle de minhas emoções e capaz de raciocinar com a mesma lógica e frieza com que o descrevo agora neste texto. 

Minha convicção de hoje, que teve seu primeiro lampejo naquela briga aos 12 anos de idade, é de que não podemos evitar nossos medos, mas é perfeitamente possível não nos deixarmos dominar por eles. Sempre deu certo comigo, sem um único episódio em que tivesse falhado, não importando a gravidade do risco. Encarei situações graves de perigo iminente de vida inclusive, e sempre lidei com a situação com a mesma serenidade e confiança de que logo tudo estaria superado, e minha vida retomaria seu ritmo, só sendo alterada se eu o permitisse, não importando a circunstância. 

As pessoas mais próximas de mim que sabem dessa minha particularidade costumam brincar me chamando de "kamikase" ou de "robô", e outras coisas do gênero. Mas sei que nunca perdi minha capacidade de me emocionar, nem de me mostrar insensível à fraqueza humana. Apenas descobri prematuramente uma forma eficiente de lidar com ela, e sou muito grato ao universo por isso. 

Também não me deixei dominar pela arrogância de me achar "poderoso" ou "indestrutível", mas apenas seguro que aprendi, por alguma razão que desconheço, a lidar com meus medos. E isso me deixa bem confiante para afirmar que o meu maior medo, sem sombra de dúvida, é dos meus próprios medos. 

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