Antes de entrar no mérito, cabe uma explicação
sobre o titulo: diferentemente do entendimento de que declarar-se ateu seja
optar pela “não crença”, a rigor o ateísmo é um crença como qualquer outra, com
a diferença de que, ao invés de aceitar um deus, ele o rejeita.
Dificil de entender? Vamos vejamos o que se define
por crença: Uma crença é a forma como interpretamos a
realidade, qualquer ideia ou convicção que um indivíduo aceita como verdade
absoluta baseada em experiências, educação ou repetição. Elas funcionam como “lentes
mentais” que moldam nossos comportamentos, emoções e percepção do mundo,
servindo tanto para fortalece-los quanto para limita-los.
Sendo assim, quando o ateu afirma não existir uma
divindade, ele apenas expressa sua percepção pessoal do universo nos mesmos
moldes de quem defende a existência. Nenhum dos dois possui elementos factíveis
para comprovar o que sustenta, algo que,
por si só, já configura uma crença.
Dito isto, há que se distinguir ainda crença
pessoal de crença institucionalizada. A primeira pode se apresentar como assunto
de foro intimo, e a segunda é quando se busca por uma estrutura que a reforce,
e é aqui que as religiões entram em cena.
Em suma: uma pessoa pode manter sua crença no
divino sem nunca integrar uma igreja ou grupo que acredita nas mesmas coisas
que ela. Seria aquele tipo de crente que, em linguagem comum, “dispensa
intermediários” entre ele e seu deus, e para vive-la não precisa de um livro
sagrado, de regras (que mudam de uma denominação para outra), de rituais ou até
de símbolos que a representem.
Isso, por si só, já garante uma independência
bastante significativa a partir de que esse crente não estará submetido a
pressões do grupo com relação a preceitos,
dogmas e princípios doutrinários. No entanto, ele não estará livre das pressões
que ele próprio se impõe como decorrência de sua formação e crenças que lhe
foram infundidas desde o nascimento que podem, inclusive, se mostrar muito mais
limitantes do que as do grupo religioso, que trabalha basicamente sobre o
binômio medo/esperança.
Assim, a independência a que nos referimos poderia
ser encaixada numa escala de graduação que vai desde a submissão absoluta a um
tipo de crença até um nível de consciência que submeta o agente apenas ao
próprio entendimento em relação ao divino, e é ai que entra o próximo conceito de
que trataremos aqui, conhecido por Agnosticismo.
Tal linha filosófica reputa como inacessível ou
incognoscível ao entendimento humano a compreensão dos problemas propostos pela
metafísica ou religião: a existência de um deus, o sentido da vida, do universo,
etc., na medida em que ultrapassem o método empírico de comprovação científica.
Enquanto o ateu se apoia nas mesmas premissas para negar o que não pode
comprovar, o agnóstico o aceita como uma possibilidade, o que muitos consideram
tratar-se de um posicionamento dito “em cima do muro”.
O foco do agnóstico, no entanto, não recai sobre
concordar ou discordar, nem preocupar-se com quem detêm a verdade nessa
discussão, mas simplesmente em aceitá-la, independente de qual seja ela.
Consciente de que nenhuma das teses dogmáticas poderá ser provada, ele admite a
dúvida como o caminho mais honesto, em lugar de um caminho errado para efeito
de autoconfirmaçao. Mas essa dúvida tem um diferencial relevante: é daquele
tipo não pede resposta, mas apenas se coloca aberta para qualquer evidência comprovável
que lhe surja em algum momento futuro.
Desde que a primeira centelha de consciência se
acendeu na mente do homem primitivo, ele sentiu necessidade de nomear o
inominável. dar um rosto ao que não tem forma, e reduzir a vastidão do universo
a um conjunto de rituais acompanhados de regras e proibições. Como decorrência,
seu entendimento do divino acabou adaptado a um formato de juiz, uma espécie de
“capataz celestial” que só poderia ser acessado com ajuda de intermediários.
Esse entendimento perdurou por milênios até nossos
dias, forjou todos os escritos sagrados que chegaram até nos, além das leis a que
deram origem. Mas só bem recentemente a própria ciência – em sintonia com o
agnosticismo extemporâneo – trouxe evidências de uma realidade que, mesmo
permanecendo oculta, deixa antever elementos ainda além de sua compreensão, mas
possíveis. Estamos falando da física quântica, que os antigos chegaram a tratar
como crença, mas que o conhecimento alcançado pelo homem classificou, de forma
indubitável, como ciência.
E neste momento da discussão, em que a defesa de
tese é substituída por constatação, permito-me sair da terceira pessoa para a
primeira, de modo a explicar minha própria experiência com tais fenômenos, que
acabaram resultando no meu agnosticismo. Diferentemente da crença, passa-me a
consciência de que não se tratou de opção – algo que decorre de escolha
deliberada por um caminho – mas de uma conclusão baseada numa longa trajetória
entre erros e acertos, entre incontáveis tropeços e retomadas de rumo, que a
principio pareciam pura perda de tempo, mas que acabaram consolidando o que
antes era apenas uma suspeita: o que se acredita não muda a realidade dos
fatos, e o bom-senso pede para não se investir numa busca inútil, mas apenas
aceitar a verdade que prescinde de reconhecimento, como também de nossa
validação. Pelo menos no meu caso, chegar ao agnosticismo não foi uma escolha,
mas uma descoberta, a conclusão honesta
e inteligente pela improdutividade dos outros dois caminhos.
Nenhuma conclusão surge do nada, ela apenas brota a
partir de uma hipótese, etapa fundamental do método científico que consiste na
validação ou refutação de uma suposição provisória baseada em evidências
coletadas, experimentação e análise de dados. Não se trata de provar que a
ideia inicial estava certa ou errada, mas de verificar sua veracidade com base em
estudos e comparações entre elementos possíveis ou mesmo improváveis, até se
chegar à conclusão quase que, digamos, por acidente. Vejo isso como única
forma de se chegar ao agnosticismo autêntico já que, se surgido de escolha, apresentar-se-ia
tão dogmático quanto qualquer crença. Gosto
de pensar, portanto, que não fui eu que encontrei o agnosticismo, mas foi ele
que me encontrou.
O processo foi bastante longo, recheado de
pesquisas entre incontáveis denominações, quando ainda não me estava clara a
diferença entre religiosidade e religião. E foi quando, ao me distanciar da que
me foi transmitida no nascimento, saí em busca de uma substituta, seguindo a conhecida
máxima de que existiria uma que seria “a verdadeira”.
O termino desse primeiro estagio veio com a ajuda
de Teillard de Chardin, demonstrando que minha “igreja interna” não dependia
das que eu frequentara ao longo daquela extensa trajetória. Mas viriam muitos
outros que não necessariamente olharam o processo pela mesma ótica, como foi o
caso de Nikola Tesla, que me apresentou a possibilidade de um deus não como
entidade, mas como frequência.
Isso nos reporta a teoria da "Energia
Vril" do século XIX, publicada em 1871 pelo escritor inglês Edward
Bulwer-Lytton. Segundo ele, essa energia seria capaz de curar,
destruir, iluminar e movimentar tanto o micro quanto o macrocosmos, sendo
considerada uma força vital atuando em forma de uma rede energética única,
reunindo todos os elementos animados e inanimados do universo.
Depuradas todas as teorias conspiratórias que se
criou em torno do conceito, o componente mais importante dessa pesquisa foi o entendimento
de uma energia imanente que perpassa tudo o que se conhece, vibrando numa frequência
que funciona exatamente como as ondas de rádio:
a sintonia com ela resulta em integração e harmonia entre todas as
forças atuantes, e a não sintonia ocorre
quando o receptor (no caso, o homem) não está ajustado na mesma frequência de
ressonância da onda eletromagnética que percorre a rede transmissora.
Dessa forma, em
lugar de absorver apenas a energia da fonte, o receptor falha em separar
o sinal correto dos milhares de outros sinais que chegam à “antena” (o ser
humano). O resultado dessa falta de sintonia produziria uma serie de
efeitos em cadeia, traduzida pelos infinitos males que podem nos atingir
e que, se os quisermos comparar com os do rádio, teríamos:
Estática – Uma vez que o receptor não foca em um
sinal específico, ele amplifica ruídos eletromagnéticos aleatórios presentes no
ambiente, resultando em ruidos difusos e incompreensíveis
Sinal Fraco – O receptor pode não emitir sinal, ou apenas
sinais muito fracos por incapacidade de decodificar as informações recebidas da
fonte.
Mistura de Estações – Sobreposição de duas ou mais
estações, com o som de uma interferindo na outra, dando causa a uma recepção
confusa e disfuncional.
Interferência de sinal – O receptor captura sinais
indesejados advindos de outras fontes, resultando em ruídos, zumbidos ou falhas
na transmissão.
Perda de Informação – A ausência da sintonia
correta impede a demodulação correta do sinal, fazendo que a mensagem não seja
reproduzida, ou se mostre totalmente distorcida.
Substituindo-se a nomenclatura técnica aplicada a
um emissor e receptor de rádio pela energia universal de que falamos e seu
receptor humano, fica fácil entender como o modelo se encaixa nos elementos disseminados
pelas religiões para captura, controle e conservação de seus seguidores:
·
Desarmonizaçao espiritual pelos males do cotidiano,
conflitos nos relacionamentos, desregramento fisico que dá
causa a doenças (‘estatica’)
·
Incapacidade de autogerenciamento e vulnerabilidade
de caráter pela insuficiência de energia
vital (‘sinal fraco’).
·
Desequilibrio mental e perda de discernimento (‘mistura
de estações’);
·
Desvios de conduta por influencia alheia, possessões
demoníacas, relações degradantes, etc. (‘Interferência de sinal’);
·
Impossibilidade de recuperação pela desconexão com
a fonte alimentadora e rompimento do canal com o divino (Perda de informaçao).
O paralelo serve para mostrar que a lógica póstuma de
funcionamento é a mesma, mas com a grande diferença de que, no caso da religião,
as regras são impostas de fora pra dentro, e no processo individual as ações
obedecem unicamente ao comando da consciência, em estreita sintonia com a fonte.
O raciocínio é bastante simples: a falta de sintonia produz interrupção na
ressonância necessária, gerando ruído e impedindo a captação do sinal proveniente
da fonte transmissora.
O que isso significa? Que não há culpados externos
pelos nossos males, que não navegamos entre prêmios e castigos, que o controle
de nossos medos é inteiramente nosso, que nossos atos não ficam atrelados a um céu
dos bons ou um inferno dos maus, mas unicamente à consciência que os torna desnecessários por conta
do que chamamos de autodeterminação.
Inicialmente parece difícil entender como isso é libertador,
a ponto de superarmos o medo de nos libertarmos de um deus criado pelo homem à sua
imagem e semelhança. Igualmente se diz daquele temor de nos sentirmos “ao
desemparo” pela falta de algo maior para nos cuidar e proteger, ainda que mergulhados
em dependência psicológica e emocional de dimensões doentias. Poucos refletem
sobre como essa suposta divindade protetora também pode ser repressora e tirânica
a ponto de sermos privados das mais ínfimas (e íntimas) imperfeiçoes, como o do
simples pensar.
E assim como obtemos benefícios quando em sintonia
com a energia primordial, também sofremos prejuízos quando a dissonância acontece,
seja por ato nosso ou simplesmente por negligência com suas regras naturais de funcionamento.
Mas o momento mais importante de tudo isso é quando
passamos a pensar em coisas como essas não apenas como filosofia, mas como
descoberta, obrigando-nos a questionar cada crença que nos infundiram.
Tanto no existencialismo de Sartre quanto no libertarianismo
de Nietzsche, a liberdade individual é imprescindível à condição o humana, tendo
a responsabilidade por escolhas e ações como ponto central para a
autenticidade. Ambos focam na liberdade de agir de acordo com as próprias convicções,
em oposição as expectativas sociais baseadas em dogmas e doutrinas, o que os
coloca em rota de colisão com as religiões.
Daí se entender a forte tendência
para o ateísmo entre a maior parte de libertários. Mas alguns – como Murray
Rothbard – apesar da visão critica em relação à religião organizada, também focavam
na espiritualidade como decorrência de uma consciência moral, o que os aproxima
do agnosticismo. Em capítulos vindouros teremos oportunidade de entrar em
abordagens um pouco mais profundas sobre esses libertários e suas visões de
mundo.