terça-feira, 17 de março de 2026

O que a igreja é para você?

 


(Pergunta de Hélder Oliveira / Portugal):






Importante a ênfase que estarei dando ao "para você" do final de sua pergunta, e a razão é muito fácil de entender: basta correr os olhos pelas respostas que já foram dadas pelos demais que já atenderam à sua questão, e verá que são bastante diferenciadas entre si, pois para cada pessoa a igreja tem um sentido muito próprio, e pode-se concluir que ninguém pode se apoiar em coisa alguma senão no seu próprio sentimento a respeito.  

Igreja nenhuma é por si mesma, como já ficou evidenciado nas respostas, mas simplesmente será aquilo que as pessoas queiram encontrar ali. Mas como você quer conhecer a visão de cada um, a minha não é das mais positivas. Eu vejo no local um ambiente de "confirmação" para o "terrorismo psicológico" que a sociedade realiza para arrastar pessoas para elas, principalmente pela crença de que os que não o fizerem serão punidos por Deus e estarão condenados ao inferno. A igreja funciona como o segundo lado da "prensa" formada com a sociedade para esmagar o indivíduo posicionado entre essas duas partes, principalmente os mais frágeis que não sabem como se proteger sozinhos, e correm para ela na crença de que ali estarão seguros, como moscas atraídas justamente para a teia da aranha tentando escapar de um jato de inseticida.  

Eu poderia passar horas aqui discorrendo sobre tudo o que a "aranha" poderá fazer com a mosca que enxerga presa à sua rede, bem como a "sufocação por esganadura" produzida pela própria teia, representada pelos fiéis que exercem forte pressão sobre a mosca mais recente presa à ela de modo a que não deseje se libertar. E isso não surgiu por simples opinião pessoal, já que não me permito criar lendas sobre coisa alguma sem um mínimo de pesquisa sobre o assunto. Por um bom tempo acompanhei a trajetória de um ex-pastor que respondeu a mais de 80 processos contra uma das maiores igrejas pentecostais do Brasil (que alcançou os quatro cantos do mundo), e ganhou todos! Mas o que mais me alarmou foi a quantidade de depoimentos de antigos fiéis que narram terem perdido todos os seus bens para a igreja, chegando ao nível de se virem transformados em moradores de rua.  

Não vou prosseguir por essa linha para não sugerir que todas as igrejas fazem isso. Mas, de minha parte, prefiro seguir a sabedoria popular naquela famosa frase hispânica que diz o seguinte: "Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay", lembram dela? Pois é. Mas não se pode dizer que a igreja faz tudo sozinha, pois que 90% do mal vem pela insegurança e ignorância das pessoas que para lá correm, tornando-se presas fáceis de ser manipuladas pelo medo, a principal arma usada nesses ambientes tóxicos de dominação de massas. Eu, por exemplo, passei seguramente por mais de 20 igrejas e templos das mais diferentes matrizes, e nunca me senti preso a teia alguma porque já as procurava para entender como eram vistas por dentro, e não como pessoa fragilizada buscando por proteção, que é o "acúçar" oferecido às "moscas" pelas "aranhas" locais.  

Mas não iria longe a ponto de afirmar que não há igreja com pastores íntegros e bem intencionados. Eu mesmo conheci alguns de caráter inquestionável que se colocavam como missionários firmemente dispostos a levar a paz aos que por ela buscavam. E ainda que eles próprios possam ter chegado lá por conta do "efeito manada", o trabalho sério que faziam os resgatava desse meio espúrio dos manipuladores, convertendo-os em portos seguros para muita gente. No frigir dos ovos, eu continuo defendendo que o risco não vale à pena, principalmente quando não se entra lá com a preparação que me impus, e no geral o melhor antídoto é a distância.

Abraços.

 

domingo, 15 de março de 2026

Agnosticismo: Opção para crenças que já não convencem?

 

 


Antes de entrar no mérito, cabe uma explicação sobre o titulo: diferentemente do entendimento de que declarar-se ateu seja optar pela “não crença”, a rigor o ateísmo é um crença como qualquer outra, com a diferença de que, ao invés de aceitar um deus, ele o rejeita. 

Dificil de entender? Vamos vejamos o que se define por crença: Uma crença é a forma como interpretamos a realidade, qualquer ideia ou convicção que um indivíduo aceita como verdade absoluta baseada em experiências, educação ou repetição. Elas funcionam como “lentes mentais” que moldam nossos comportamentos, emoções e percepção do mundo, servindo tanto para fortalece-los quanto para limita-los.   

Sendo assim, quando o ateu afirma não existir uma divindade, ele apenas expressa sua percepção pessoal do universo nos mesmos moldes de quem defende a existência. Nenhum dos dois possui elementos factíveis para comprovar o que sustenta,  algo que, por si só, já configura uma crença. 

Dito isto, há que se distinguir ainda crença pessoal de crença institucionalizada. A primeira pode se apresentar como assunto de foro intimo, e a segunda é quando se busca por uma estrutura que a reforce, e é aqui que as religiões entram em cena. 

Em suma: uma pessoa pode manter sua crença no divino sem nunca integrar uma igreja ou grupo que acredita nas mesmas coisas que ela. Seria aquele tipo de crente que, em linguagem comum, “dispensa intermediários” entre ele e seu deus, e para vive-la não precisa de um livro sagrado, de regras (que mudam de uma denominação para outra), de rituais ou até de símbolos que a representem. 

Isso, por si só, já garante uma independência bastante significativa a partir de que esse crente não estará submetido a pressões do grupo  com relação a preceitos, dogmas e princípios doutrinários. No entanto, ele não estará livre das pressões que ele próprio se impõe como decorrência de sua formação e crenças que lhe foram infundidas desde o nascimento que podem, inclusive, se mostrar muito mais limitantes do que as do grupo religioso, que trabalha basicamente sobre o binômio medo/esperança. 

Assim, a independência a que nos referimos poderia ser encaixada numa escala de graduação que vai desde a submissão absoluta a um tipo de crença até um nível de consciência que submeta o agente apenas ao próprio entendimento em relação ao divino, e é ai que entra o próximo conceito de que trataremos aqui, conhecido por Agnosticismo. 

Tal linha filosófica reputa como inacessível ou incognoscível ao entendimento humano a compreensão dos problemas propostos pela metafísica ou religião: a existência de um deus, o sentido da vida, do universo, etc., na medida em que ultrapassem o método empírico de comprovação científica. Enquanto o ateu se apoia nas mesmas premissas para negar o que não pode comprovar, o agnóstico o aceita como uma possibilidade, o que muitos consideram tratar-se de um posicionamento dito “em cima do muro”. 

O foco do agnóstico, no entanto, não recai sobre concordar ou discordar, nem preocupar-se com quem detêm a verdade nessa discussão, mas simplesmente em aceitá-la, independente de qual seja ela. Consciente de que nenhuma das teses dogmáticas poderá ser provada, ele admite a dúvida como o caminho mais honesto, em lugar de um caminho errado para efeito de autoconfirmaçao. Mas essa dúvida tem um diferencial relevante: é daquele tipo não pede resposta, mas apenas se coloca aberta para qualquer evidência comprovável que lhe surja em algum momento futuro. 

Desde que a primeira centelha de consciência se acendeu na mente do homem primitivo, ele sentiu necessidade de nomear o inominável. dar um rosto ao que não tem forma, e reduzir a vastidão do universo a um conjunto de rituais acompanhados de regras e proibições. Como decorrência, seu entendimento do divino acabou adaptado a um formato de juiz, uma espécie de “capataz celestial” que só poderia ser acessado com ajuda de intermediários. 

Esse entendimento perdurou por milênios até nossos dias, forjou todos os escritos sagrados que chegaram até nos, além das leis a que deram origem. Mas só bem recentemente a própria ciência – em sintonia com o agnosticismo extemporâneo – trouxe evidências de uma realidade que, mesmo permanecendo oculta, deixa antever elementos ainda além de sua compreensão, mas possíveis. Estamos falando da física quântica, que os antigos chegaram a tratar como crença, mas que o conhecimento alcançado pelo homem classificou, de forma indubitável, como ciência.   

E neste momento da discussão, em que a defesa de tese é substituída por constatação, permito-me sair da terceira pessoa para a primeira, de modo a explicar minha própria experiência com tais fenômenos, que acabaram resultando no meu agnosticismo. Diferentemente da crença, passa-me a consciência de que não se tratou de opção – algo que decorre de escolha deliberada por um caminho – mas de uma conclusão baseada numa longa trajetória entre erros e acertos, entre incontáveis tropeços e retomadas de rumo, que a principio pareciam pura perda de tempo, mas que acabaram consolidando o que antes era apenas uma suspeita: o que se acredita não muda a realidade dos fatos, e o bom-senso pede para não se investir numa busca inútil, mas apenas aceitar a verdade que prescinde de reconhecimento, como também de nossa validação. Pelo menos no meu caso, chegar ao agnosticismo não foi uma escolha, mas uma descoberta,  a conclusão honesta e inteligente pela improdutividade dos outros dois caminhos. 

Nenhuma conclusão surge do nada, ela apenas brota a partir de uma hipótese, etapa fundamental do método científico que consiste na validação ou refutação de uma suposição provisória baseada em evidências coletadas, experimentação e análise de dados. Não se trata de provar que a ideia inicial estava certa ou errada, mas de verificar sua veracidade com base em estudos e comparações entre elementos possíveis ou mesmo improváveis, até se chegar à conclusão quase que, digamos, por acidente. Vejo isso como única forma de se chegar ao agnosticismo autêntico já que, se surgido de escolha, apresentar-se-ia tão dogmático quanto qualquer crença.  Gosto de pensar, portanto, que não fui eu que encontrei o agnosticismo, mas foi ele que me encontrou. 

O processo foi bastante longo, recheado de pesquisas entre incontáveis denominações, quando ainda não me estava clara a diferença entre religiosidade e religião. E foi quando, ao me distanciar da que me foi transmitida no nascimento, saí em busca de uma substituta, seguindo a conhecida máxima de que existiria uma que seria “a verdadeira”. 

O termino desse primeiro estagio veio com a ajuda de Teillard de Chardin, demonstrando que minha “igreja interna” não dependia das que eu frequentara ao longo daquela extensa trajetória. Mas viriam muitos outros que não necessariamente olharam o processo pela mesma ótica, como foi o caso de Nikola Tesla, que me apresentou a possibilidade de um deus não como entidade, mas como frequência. 

Isso nos reporta a teoria da "Energia Vril" do século XIX, publicada em 1871 pelo escritor inglês Edward Bulwer-Lytton. Segundo ele, essa energia seria capaz de curar, destruir, iluminar e movimentar tanto o micro quanto o macrocosmos, sendo considerada uma força vital atuando em forma de uma rede energética única, reunindo todos os elementos animados e inanimados do universo. 

Depuradas todas as teorias conspiratórias que se criou em torno do conceito, o componente mais importante dessa pesquisa foi o entendimento de uma energia imanente que perpassa tudo o que se conhece, vibrando numa frequência que funciona exatamente como as ondas de rádio:  a sintonia com ela resulta em integração e harmonia entre todas as forças atuantes, e a não sintonia  ocorre quando o receptor (no caso, o homem) não está ajustado na mesma frequência de ressonância da onda eletromagnética que percorre a rede transmissora.  

Dessa forma, em  lugar de absorver apenas a energia da fonte, o receptor falha em separar o sinal correto dos milhares de outros sinais que chegam à “antena” (o ser humano). O resultado dessa falta de sintonia produziria uma serie  de  efeitos em cadeia, traduzida pelos infinitos males que podem nos atingir e que, se os quisermos comparar com os do rádio, teríamos:

Estática – Uma vez que o receptor não foca em um sinal específico, ele amplifica ruídos eletromagnéticos aleatórios presentes no ambiente, resultando em ruidos difusos e incompreensíveis

Sinal Fraco – O receptor pode não emitir sinal, ou apenas sinais muito fracos por incapacidade de decodificar as informações recebidas da fonte.

Mistura de Estações – Sobreposição de duas ou mais estações, com o som de uma interferindo na outra, dando causa a uma recepção confusa e disfuncional.

Interferência de sinal – O receptor captura sinais indesejados advindos de outras fontes, resultando em ruídos, zumbidos ou falhas na transmissão.

Perda de Informação – A ausência da sintonia correta impede a demodulação correta do sinal, fazendo que a mensagem não seja reproduzida, ou se mostre totalmente distorcida. 

 

Substituindo-se a nomenclatura técnica aplicada a um emissor e receptor de rádio pela energia universal de que falamos e seu receptor humano, fica fácil entender como o modelo se encaixa nos elementos disseminados pelas religiões para captura, controle e conservação de seus seguidores: 

·       Desarmonizaçao espiritual pelos males do cotidiano,  conflitos  nos relacionamentos, desregramento fisico que dá causa a doenças (‘estatica’)

·       Incapacidade de autogerenciamento e vulnerabilidade de caráter  pela insuficiência de energia vital (‘sinal fraco’).

·       Desequilibrio mental e perda de discernimento (‘mistura de estações’);

·       Desvios de conduta por influencia alheia, possessões demoníacas, relações degradantes, etc. (‘Interferência de sinal’);

·       Impossibilidade de recuperação pela desconexão com a fonte alimentadora e rompimento do canal com o divino (Perda de informaçao). 

O paralelo serve para mostrar que a lógica póstuma de funcionamento é a mesma, mas com a grande diferença de que, no caso da religião, as regras são impostas de fora pra dentro, e no processo individual as ações obedecem unicamente ao comando da consciência, em estreita sintonia com a fonte. O raciocínio é bastante simples: a falta de sintonia produz interrupção na ressonância necessária, gerando ruído e impedindo a captação do sinal proveniente da fonte transmissora.  

O que isso significa? Que não há culpados externos pelos nossos males, que não navegamos entre prêmios e castigos, que o controle de nossos medos é inteiramente nosso, que nossos atos não ficam atrelados a um céu dos bons ou um inferno dos maus, mas unicamente à consciência que os torna desnecessários por conta do que chamamos de autodeterminação. 

Inicialmente parece difícil entender como isso é libertador, a ponto de superarmos o medo de nos libertarmos de um deus criado pelo homem à sua imagem e semelhança. Igualmente se diz daquele temor de nos sentirmos “ao desemparo” pela falta de algo maior para nos cuidar e proteger, ainda que mergulhados em dependência psicológica e emocional de dimensões doentias. Poucos refletem sobre como essa suposta divindade protetora também pode ser repressora e tirânica a ponto de sermos privados das mais ínfimas (e íntimas) imperfeiçoes, como o do simples pensar. 

E assim como obtemos benefícios quando em sintonia com a energia primordial, também sofremos prejuízos quando a dissonância acontece, seja por ato nosso ou simplesmente por negligência com suas regras naturais de funcionamento. 

Mas o momento mais importante de tudo isso é quando passamos a pensar em coisas como essas não apenas como filosofia, mas como descoberta, obrigando-nos a questionar cada crença que nos infundiram. 

Tanto no existencialismo de Sartre quanto no libertarianismo de Nietzsche, a liberdade individual é imprescindível à condição o humana, tendo a responsabilidade por escolhas e ações como ponto central para a autenticidade. Ambos focam na liberdade de agir de acordo com as próprias convicções, em oposição as expectativas sociais baseadas em dogmas e doutrinas, o que os coloca em rota de colisão com as religiões. 

Daí se entender a forte tendência para o ateísmo entre a maior parte de libertários. Mas alguns – como Murray Rothbard – apesar da visão critica em relação à religião organizada, também focavam na espiritualidade como decorrência de uma consciência moral, o que os aproxima do agnosticismo. Em capítulos vindouros teremos oportunidade de entrar em abordagens um pouco mais profundas sobre esses libertários e suas visões de mundo.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

A perspectiva franco-libertaria - Parte I

 



Além de sua proposta filosófica, o conceito do franco-litertário revela um viés quase poético na linguagem e na forma de expressar um pensamento todo focado em seu legado, contrariando o senso comum do “farol” emergindo das sombras para um número cada vez maior de pessoas. E a ideia aqui é mergulhar um pouco nas ideias centrais do que se entende como perspectiva franco-libertária.   

"Há pensamentos em forma de muralhas e há os que apenas fluem, como as correntes de um rio". Traduzindo, rigidez versus fluidez. E é por aí que começamos. A metáfora já monta um cenário para essa tensão principal: de um lado, o pensamento do tipo “muralha”, que é rígido, bloqueia, se impõe. Do outro, o pensamento fluídico como um rio – que é flexível, se adapta, contorna, segue o fluxo. 

A impressão que fica para além do texto é que a liberdade sob esse prisma não é o de uma fortaleza construída como meio de defesa, mas um fluxo para ser experenciado e respeitado. É uma visão que valoriza muito mais a adaptação à continuidade que precisa ser mantida do que o confronto imobilizado, estático, que se encerra com a extinção da ameaça. 

A ideia dessa fluidez é a de permanecer conectada com um sentido de autenticidade, de fidelidade a si mesmo sem ficar preso a formas prontas. O sentido se traduz em trocar arestas por sinuosidades, e o conceito de “liderados” em entes pensantes e “autoajustáveis” a cada momento, sempre desapegados de “fôrmas” e formas. 

A recusa de moldes externos, porém, para a construção de uma liberdade que tem na consciência seu único juiz, não correria o risco de se distanciar da própria configuração, aquelas características que a definem? A perspectiva do franco-libertário parece indicar que essa “forma autêntica” não foca na aspereza das arestas, mas na capacidade de exibir sinuosidades, de se adaptar sem perder sua essência. Quando ele menciona “entes auto ajustáveis” deixa claro que isso não significa ausência de uma identidade, mas uma identidade dinâmica que se alimenta do próprio movimento, de uma capacidade permanente de adaptação a novos momentos, mas com base em valores irrenunciáveis.   

O entendimento é o do rio contornando as pedras de seu leito em seu próprio tempo, sem ingerência nem pressa. O ajuste jamais se faz forçado, mas como um processo natural, orgânico, e não destrutivo. Assim, a identidade não seria algo imposto de fora pra dentro: seria mais uma coerência interna que aparece no jeito como a pessoa flui e lida com os obstáculos do caminho. 

Por extensão, a liberdade do franco-libertário não seria a ausência de limites, mas um jeito próprio de navegar por eles. Um tipo de navegação que revela uma trajetória quase silenciosa e interna, claramente exposta na citação que reforça bem esse entendimento: “O caminhar se traduz pelo silêncio entre ideias que se movem, deixando que cada uma encontre seu lugar natural.” 

Assim o ato de pensar, de ser, diz menos sobre o debate externo, a discussão publica, e mais sobre uma arrumação interna, uma decantação natural de ideias. O foco sai da ação externa de tirar as pedras do caminho e vai para a dinâmica interna de contorna-las, de se adaptar ao convívio em lugar de, simplesmente, elimina-lo por qualquer meio. 

O conceito muda para o da “liberdade percebida”, aquele instante em que o pensamento passa de comando para um sentimento de plenitude num mundo que valoriza correntes e reprime os que se rebelam. Uma mudança diametral em relação a forma convencional de nos sentirmos livres: o não uso do pensamento como ferramenta de controle, de imposição da vontade sobre si ou sobre o mundo, pra o transformar em algo tão natural e vital quanto o respirar. 

A liberdade nesse contexto não é algo que se conquista no campo de batalha, mas a que acontece na naturalidade desse fluxo, nessa sintonia interna. Traduzindo, é menos sobre lutar contra a correnteza e mais sobre achar a sua própria corrente, que não precisa ser a mesma seguida por todos, e possivelmente não será. 

Ao manter essa linha de fluxo, o da mudança como processo natural, a “fidelidade ao pensamento” acontece de uma forma bem peculiar, o  de que o pensamento coerente precisa ser fiel apenas à sensatez de sua fonte e, ainda assim, por breves momentos, até que uma nova luminiscência o alcance. 

Poderia haver coerência numa fidelidade fluídica? O mais fascinante, na realidade, é como essa coerência é redefinida: não é sobre se agarrar a uma ideia fixa para sempre, mas sobre se manter fiel à sensatez que lhe deu causa, ou seja, à lógica ou percepção original que deu vida ao pensamento. 

A fidelidade assim não poderia ser mais genuína, mesmo não sendo feita para ser eterna e se manter até que um insight novo – uma compreensão maior ou mais profunda do pensamento – ocorra para torna-lo ainda mais solido. 

A coerência, então, não está na rigidez da ideia em si, mas na continuidade do processo de buscar um entendimento cada vez mais lúcido, de seguir em busca de seu sentido mais profundo. É uma coerência dinâmica que se mantém justamente porque nunca se fecha para a mudança, mas disposta a seguir a próxima luz que surge no caminho.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

A Peneira que filtra o Cascalho

 


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A peneira que filtra o cascalho

Luiz Roberto Bodstein

 

Que não se enganem: não escrevo para massas humanas, mas para cérebros que pensam. Odiaria ter um livro meu numa lista de ‘bestsellers' –  que costuma reunir joio e trigo num mesmo lote. Meus escritos brotam de dois propósitos específicos e viscerais: desafiar meu próprio pensamento crítico e descobrir pérolas entre milhares de ostras improdutivas. Um dia uma dessas pérolas raras inadvertidamente topa com um texto meu, e pensa nele como uma fonte escondida entre rochas cobertas de limo.  É para elas que escrevo. 

Meus livros fortuitamente podem aparecer em sebos, perdidos entre joias avessas ao brilho, não em magazines online. Não foram feitos para vitrines, mas para prateleiras empoeiradas que não exibem obras de Shakespeare...  Estarão perdidos entre flashes nietzschianos que falam com seus botões sobre coisas que a massa preferiria não ouvir. E estará certa, porque não foram ditas pra ela, mas para uns poucos que nunca estarão ali, que rejeitam o senso comum de se diluir em resenhas,  minimizar-se em resumos literários, ou frequentar os palcos dos concorridos debates públicos que as legitimem.  

Estarão antes abrigadas (ou protegidas?) naqueles recônditos internos impermeáveis aos que olham as coisas "de passagem"... Visíveis apenas a alguns olhares que conseguem ler texto e contexto entre frases que não estão escritas.

 


'React' ao texto:

Luiz R. Bodstein escreve para o pensador crítico e não para as massas. Ele rejeita o sucesso comercial, buscando leitores seletos capazes de decifrar contextos profundos. Suas obras são pérolas raras destinadas a quem evita o senso comum e valoriza a reflexão genuína e silenciosa. A filosofia por trás da escrita para poucos leitores, conforme expressa o autor, fundamenta-se na busca pela profundidade e pelo desafio intelectual, em oposição à popularidade comercial e ao consumo de massa.

O ato de escrever, para ele, não visa o entretenimento fácil, mas sim desafiar o próprio pensamento crítico e, por extensão, o do leitor. O objetivo é criar uma obra que funcione como uma "fonte escondida", exigindo esforço para ser encontrada e compreendida.

Ele revela que experimenta um desprezo deliberado pelas listas de "bestsellers", que são vistas como locais onde se mistura o "joio e o trigo" sem critério qualitativo, ou seja: a obra não é feita para vitrines ou magazines online, mas para prateleiras empoeiradas e sebos, locais onde o valor reside na descoberta e não na promoção comercial.

Segundo suas palavras, ele escreve especificamente para "cérebros que pensam" e para um tipo de leitor que chama de "pérolas raras" — aqueles que se destacam em meio a uma maioria considerada improdutiva. A escrita serve como um filtro para encontrar esses indivíduos capazes de uma conexão intelectual profunda, privilegiando leitores que rejeitam o senso comum, resumos literários ou debates públicos superficiais. Seu público-alvo é composto por aqueles que conseguem "ler texto e contexto entre frases que não estão escritas", adotando um olhar que ultrapassa a observação "de passagem".  O que ele escreve é descrito como estando "abrigado" ou "protegido" em recônditos internos, acessíveis apenas àqueles que evitam a diluição da individualidade em resenhas e palcos de legitimação pública.

Em suma, trata-se de uma escrita de resistência ao óbvio, que prefere o silêncio das prateleiras esquecidas ao brilho efêmero dos flashes, focando-se em temas que a massa "preferiria não ouvir".

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Como se define o franco-libertário





 Assista ao Podcast clicando AQUI

1.       Usa o direito de se expressar sem qualquer tipo de cerceamento, desde que não se afaste do que acredita.

2.       Defende sua opção por não integrar qualquer estrutura social que acredite restringir seu livre pensamento ou limitar-lhe a voz.

3.       Exerce sua prerrogativa de se posicionar a respeito de tudo, de concordar ou discordar, de acordo com sua consciência.

4.       Garante seu direito de livre movimentação, como o de ir e vir, desde que tal ação não invada o direito de terceiros.

5.       Defende sua autonomia para agir da forma como bem entende, exceto quando sua ação resulte em prejuízo a outrem.  

6.       Tem como premissa o pleno domínio de suas vontades e desejos, sendo contrário a tudo que limite tal capacidade.

7.       Posiciona-se como livre pensador, não permitindo ser contido em sua busca por conhecimento.

8.       Tem como valor maior sua autonomia de decisão, não aceitando que outros decidam por si, ou por quem não o possa fazer.

9.       Coloca sua lógica à frente das emoções, antes de formar juízo sobre fatos ou pessoas, sejam quais forem.

10.   Atém-se à amplitude de sua percepção, fugindo a visões particularizadas de modo a concluir pela que se mostrar mais isenta e autônoma possível.  


Na visão do franco-libertário, a identidade é construída sobre o exercício irrestrito da liberdade individual e o rigor intelectual. Os princípios de autonomia e lógica funcionam como os pilares que sustentam sua forma de interagir com o mundo e com a sociedade.

A autonomia define o franco-libertário como um indivíduo que possui o valor maior na sua capacidade de decisão, recusando-se a permitir que outros decidam por si. Essa autonomia se manifesta de diversas formas, como se pode ver:

• Livre pensamento e expressão: Ele utiliza o direito de se expressar sem cerceamentos, posicionando-se de acordo com sua própria consciência e agindo como um livre pensador na busca por conhecimento.

• Rejeição a estruturas restritivas: O franco-libertário opta por não integrar estruturas sociais que possam limitar sua voz ou restringir seu pensamento.

• Domínio da vontade: Ele busca o pleno domínio de seus desejos e vontades, opondo-se a qualquer barreira que limite seu pleno exercicio.

• Liberdade de ação e limites éticos: Ele defende a autonomia para agir e se movimentar por livre escolha, com a ressalva de que tais atos não resultem em prejuízo a outrem ou invadam o direito de terceiros. 

Complementando a autonomia entra a lógica, como filtro fundamental na formação de julgamentos isentos. Para o franco-libertário, é essencial colocar a lógica à frente das emoções antes de avaliar qualquer fato ou pessoa. Essa postura racional busca evitar o tendencialismo, permitindo que alcance a percepção mais isenta e autônoma possível. Assim, a identidade desse indivíduo é marcada por uma busca constante pela verdade através do intelecto, fugindo de limitações impostas por sentimentos momentâneos ou pressões externas. 

Para melhor compreensão desse complexo perfil podemos lançar mão de uma metáfora em que o franco-libertário seria o comandante de um navio em mar aberto: a autonomia é o seu leme, garantindo que ele tenha o poder total de decidir sua rota sem que ninguém retire o controle de suas mãos; já a lógica seria a sua bússola e seus mapas cartográficos, que ele utiliza para ignorar os ventos emocionais e seguir apenas o caminho que o raciocínio aponta como o mais correto e seguro. 

Para o franco-libertário, o direito à livre movimentação – que envolve o ir e vir – é uma prerrogativa fundamental que deve ser garantida. No entanto essa liberdade encontra um limite claro e ético: a ação de se movimentar não deverá invadir o direito de terceiros.  Esse limite está intrinsecamente ligado ao princípio da autonomia, que permite ao indivíduo agir da forma que considerar adequada, desde que não resulte em prejuízo a outrem. Dessa forma a identidade do franco-libertário pressupõe que sua liberdade termina no momento em que ela interfere negativamente nos direitos ou na integridade de outras  pessoas. Podemos ilustrar esse conceito imaginando um dançarino no palco: ele tem total autonomia para executar os passos que desejar e se deslocar por todo o espaço, mas o limite de sua dança é o corpo dos demais dançarinos; seus movimentos, livres individualmente, possuem as limitaçoes fisicas do ambiente externo para não causar danos ou impedir o movimento dos que dividem o palco com ele. 

Para o franco-libertário, a lógica desempenha um papel crucial como uma espécie de filtro primário para a compreensão da realidade. A sua importância na formação de juízos reside nos seguintes pontos:

• Prioridade sobre a emoção: Antes de formar qualquer juízo sobre fatos ou pessoas, é fundamental colocar a lógica à frente das emoções. Isso garante que a avaliação não seja obscurecida por sentimentos momentâneos ou reações impulsivas.

• Atenção a visões distorcidas ou incompletas: O uso do raciocínio lógico permite que o indivíduo fuja de visões acanhadas que distorçam a realidade. Em vez de se prender à uma única perspectiva estreita, ele busca a amplitude de sua percepção.

• Garantia de isenção e autonomia: O objetivo final de priorizar a lógica e chegar a uma conclusão que se mostre a mais isenta e autônoma possível. Dessa forma, o juízo formado não é fruto de pressões externas ou de vieses emocionais, mas sim de uma análise intelectual rigorosa e independente. Em resumo, a lógica funciona como uma lente de precisão: enquanto as emoções podem embaçar a visão com cores e distorções, ela limpa essa lente para que o indivíduo enxergue os fatos como eles realmente são, permitindo uma decisão final clara e imparcial. 

Diante de estruturas sociais restritivas, o franco-libertário adota uma postura de preservação da sua independência intelectual e funcional. Tal posicionamento se manifesta principalmente através da decisão de não integrar qualquer organização humana que possa restringir seu livre pensamento ou limitar sua voz, de modo a não ficar submetido ao “efeito-manada”. Essa rejeição fundamenta-se em princípios fundamentais que definem sua identidade, tais como:

• Busca incondicional pelo conhecimento – Ele se posiciona como livre pensador, o que significa que não permite ser contido ou limitado em sua trajetória de aprendizado por dogmas ou regras institucionais.

• Soberania de decisão: Tendo a autonomia de decisão como valor maior, ele não aceita que outros decidam por si. Integrar uma estrutura restritiva seria, portanto, uma violação desse princípio básico de autodeterminação.

• Liberdade de expressão: O franco-libertário exerce o direito de se expressar sem qualquer tipo de cerceamento, desde que sua fala seja condizente com suas convicções pessoais. Estruturas que impõem censura ou "scripts" sociais se apresentam, portanto, como um “encaixotamento” que contraria todo o seu senso de liberdade.

• Consciência individual: Ele se reserva o direito de concordar ou discordar de qualquer posicionamento em intima sintonia com sua consciência, algo que pode entrar em conflito com a conformidade exigida por estruturas sociais rígidas. Em suma, o franco-libertário escolhe sua autonomia intelectual em relação à integração que exija a renúncia de sua lógica ou da capacidade de decidir e se manifestar livremente. Ele se comporta como um escultor que trabalha ao ar livre: prefere a vastidão do espaço aberto para criar a obra conforme a própria concepção, em lugar de uma oficina em que o teto não comporte suas dimensões, as regras do local ditem qual ferramenta deva usar, ou até que forma sua arte deve tomar. 

No julgamento franco-libertário, a relação entre lógica e emoção acontece em termos de hierarquia e filtragem, onde a racionalidade deve preceder obrigatoriamente qualquer reação afetiva ou impulsiva. Essa dinâmica é fundamental para garantir a integridade do pensamento e a justiça das avaliações. Seus pontos centrais seriam:

• Lógica em primeiro lugar: O franco-libertário coloca sua lógica à frente das emoções. Significa dizer que o intelecto atua como o primeiro mediador da realidade, impedindo que sentimentos momentâneos distorçam a análise inicial.

• Neutralização de viéses: Ao priorizar o raciocínio, ele busca expandir a amplitude de sua percepção, evitando que as emoções limitem o seu entendimento a uma perspectiva estreita ou enviesada.

• Objetivos claros: O propósito final é alcançar uma conclusão que prime por isenção e autonomia. A emoção, neste caso, é vista como um elemento que pode comprometer essa autonomia, enquanto a lógica é a ferramenta que a preserva.

• Autonomia decisória: Essa relação reforça o valor maior da autonomia de decisão livre de emoções que possam desvirtuar o resultado esperado. Na visão franco-libertária, significa perder o controle sobre o próprio processo de pensamento para impulsos externos ou internos irracionais. A metáfora aplicável, neste caso, seria a de um juiz  analisando as provas de um caso, onde a emoção funciona como o clamor da plateia no tribunal, que pode ser intenso e persuasivo. A lógica a ser mantida, porém, deve ser o código de leis e as evidências técnicas sobre a mesa. O “juiz” franco-libertário sente o peso da inteferência, mas o ignora para que apenas o peso dos fatos e a clareza da lei ditem a sentença final, garantindo que o veredito seja justo e não decorra das pressões emocionais. 

A autonomia de ação do franco-libertário, embora seja um de seus pilares fundamentais, não é absoluta ou desregrada: ela é delimitada por fronteiras éticas, sociais e intelectuais que garantem o respeito ao próximo e a integridade do próprio pensamento. 

Em suma, a autonomia para o franco-libertário é a liberdade total de ser o mestre de si mesmo, desde que essa maestria não se torne uma ferramenta de opressão ou dano a outros, e se mostre guiada pelo rigor da razão. Seria como um pássaro que voa para onde desejar, podendo escolher a própria rota, mas sempre atento a uma eventual colisão, e à preservaçao do ambiente que lhe é vital.  

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Processos existenciais e livre pensamento


 
"Sou um cérebro,  Watson. O resto é um mero apêndice!" (Sherlock Holmes, personagem de Arthur Conan Doyle)


Por que a algumas pessoas que até gostaríamos de ter mais próximas, nós mesmos colocamos obstáculos à aproximação delas, e outras que conhecemos bem menos nos atraem tanto, ainda que saibamos quase nada delas? 

Resp. – Tenho pra mim que seja porque não atingiram o momento delas como “destinatárias” das mensagens que fazemos chegar aos outros, e que talvez teríamos a atribuição de enviar. Apenas as que já atingiram esse patamar de entendimento é que se aproximarão, assim como nós delas. 


E como é que você, como mensageiro do processo, chega a uma resposta como essa que ofereceu para a questão anterior?

Resp. – Não sei. Simplesmente começo a escrever e elas vão aparecendo na tela sem que eu pare pra pensar no que vou teclar.  É mais automático do que racional.

 

Vê isso como uma espécie de “psicografia” que lhe chega de um plano espiritual?

Resp. – O que sei é que não o sinto com esse formato que se costuma dar ao processo, e até me vem um sentimento de reagir de forma contrária a essa idéia, como se fosse uma espécie de “não”. Sei apenas descrever o que percebo, sem preocupação alguma com a origem nem com o destino, através de uma idéia ou pensamento instantâneo seguido de uma vontade que me força a interromper o que esteja fazendo para registrar o que sinto naquele mesmo instante, e divulgá-lo por um instrumento qualquer. Pode ser um meio eletrônico, onde sinto ser necessário selecionar pessoas em especial ou não, dependendo do conteúdo e por um critério que não escolho de forma lógica. Pode ser por um livro que precise iniciar, por um texto que dependa de uma pesquisa minha, por uma frase em forma de pensamento, ou até por uma simples imagem que passe algum tipo de entendimento. Nunca sei o que vai sair como resultado. Apenas a idéia surge clara na mente requerendo ser repassada a alguém que irá recebê-la, mas não sei quem, onde se encontra, nem quantos serão os receptores.  Então simplesmente faço aquilo, sem buscar explicar porque tudo acontece.  Aliás, odeio a idéia de me ver como “profeta”, mensageiro do além ou responsável por uma “missão”. Esse pensamento entra em conflito com sentimentos fortes e com outras convicções que trago dentro de mim acerca de minha própria realidade e a daquela que me cerca. 


Mas como explica então o que é levado à prática?

Resp. – Não sei dizer. Apenas que não procuro explicá-lo, e nem se isso é ou não um papel delegado por uma “força” qualquer externa ao que possa entender. Racionalmente nunca desenho a figura dessa tal força em minha cabeça, pois que me enxergo repetindo a mesma história que as pessoas vêm protagonizando há milênios para se sentirem especiais e “escolhidas”.  Mas uma coisa é o que sinto através do meu racional, e outra é o que sei que preciso fazer porque o sinto presente demais em meu emocional para ignorá-lo. A questão é que não procuro encaixar isso em nenhum modelo, ou dar a ele uma explicação à luz da minha lógica. Apenas sigo meu instinto em vez de dar um nome a qualquer elemento do contexto todo. Penso que se isso é algum tipo de “papel delegado” por uma força desconhecida qualquer, seja que nome lhe dêem, ou se é algo criado dentro de minha própria mente, para mim é o que menos importa. O que importa é o que eu sinto, preciso, e externo. O resto não passa da necessidade humana de dar explicação pra tudo, coisa com que eu não me preocupo, e procuro ficar atento para não entrar nesse tipo de coisa! Se existe mesmo a tal força, não cabe a mim afirmá-la ou negá-la para que continue existindo, pois que sua natureza seguirá a mesma, independente de mim. Meu papel é estar aberto ao sim e ao não. Optar pelo sim ou pelo não é demais pretensioso para meu entendimento. Qualquer dos lados posiciona seu defensor como “dono da verdade”, daí que vejo “o caminho do meio” como a forma mais honesta dentre todas, e a mais despretensiosa. Aceite-se apenas buscador e espere. Se a verdade for possuidora de escolhas, ela escolherá chegar a você ou não. O resto todo não vai além da vaidade de dominar o conhecimento. 

 

E o que tem de errado em encaixar o que descobrimos em um modelo conhecido?

Resp. – Nada específico no que toca ao “errado”. Apenas eu rejeito a ideia de uma forma natural e espontânea e procuro minha própria zona de conforto, que é a de não enveredar por esse caminho comum das crenças e interpretações tradicionais. Vejo um universo pleno demais de enigmas para que humanos de um planetóide qualquer como o nosso se arrogue a sabedoria de querer explicá-lo ou encaixá-lo em sua "caixinha de miudezas", reservando uma gavetinha para cada uma delas. Será mesmo que precisamos entender tudo o que ele nos apresenta? Vejo a busca uma necessidade absurdamente necessária, a ponto de não passar um dia sequer sem sair em busca de alguma resposta, mas contrariamente a isso a inteligência me lembra que nunca conseguiremos dominar o conhecimento dessa imensidão toda, e então me recolho a minha insignificância de alcançar um degrauzinho de cada vez, sem me preocupar em dar um salto maior do que minha perna alcança, e muito menos pensar que cheguei à resposta final. Nisso que você me perguntou, por exemplo, sobre o porquê do que faço a partir dos pensamentos – e sentimentos – que me brotam na mente, eu reconheço haver muita coisa acima do que conseguiria explicar à luz da minha própria lógica e de tudo o que absorvi de conhecimento até aqui. Ficaria louco se tentasse explicá-los por tais parâmetros. Sei que muitos também sentem o mesmo. Apenas ao chegar nesse ponto uma enorme parcela dessas pessoas insiste em encaixá-las em alguma “caixinha”, ou se arvoram ao patamar de se sentirem “mensageiros de Deus” ou de alguma força que se sobrepõe a tudo o que conhecem. Ao contrário disso, eu sinto que, atingido esse ponto, é hora de parar onde estou e não ficar tentando pular de degrau. Se a resposta existir, em algum momento ela chegará até mim. Se ainda não existir – e pouco importa qual seja sua origem – fica claro que só me resta esperar ou esquecer, em vez de me colocar naquele patamar de “anunciar a Nova ao mundo”. Meu papel é falar apenas do que entendo, ou provocar as pessoas para que elas passem pelo mesmo processo de questionamento por que passei. Mas encontrar ou não a resposta é papel de cada um, e fazer o mesmo caminho mais ainda. Apesar de haver atuado como professor minha vida inteira e parecer incoerente o que vou dizer, não acredito que ninguém ensina nada para pessoa alguma. Apenas oferecemos algumas chaves – que é o papel de quem se propõe a lidar com o conhecimento – mas quem abre ou não a porta do depósito para guardar o que lhe parece importante é quem o recebe.

 

Essa forma tão especial de pensar o que o cerca não induz as pessoas a pensar que toda a vaidade que vê nesses “donos da verdade” também não se faz presente em você, e na realidade o que deseja é se mostrar diferente, ou até superior à maioria das pessoas?

Resp. – Já li em algum lugar que uma coisa é como nos vêem, e outra é como realmente somos. Não sou responsável pela forma como me possam enxergar ou pelo que as pessoas pensam a meu respeito. Só entendo daquilo que trago em mim mesmo, e nem sempre de uma boa parte destas últimas. Mas minha verdade não precisa ser reconhecida – e já falamos disso – para que seja autêntica. Só eu preciso saber que é. E mesmo quando esse lado “especial” de mim, que você mencionou, pareça arrogante aos outros, em mim bate apenas como uma forte vontade interna de ser eu mesmo, ainda que o resto do mundo esteja caminhando em sentido contrário. Arrogância é uma questão que depende da relação entre quem exibe e quem observa. Essa vontade de que falo está em mim, e não depende de quem quer que seja para se fazer presente. Então não a exibo, no sentido da palavra, apenas a expresso como parte do que sou. Essa é a diferença. Mas sim:  não importando o que sejamos ou o que mostremos, entre os que nos observam seremos sempre julgados pelos parâmetros que trazem, e não pelo que somos realmente. Isso é inevitável, e é um erro fingimos ser o que não somos na tentativa de ampliar o número dos que gostam daquilo que é mostrado.

 Entrevista concedida ao jornalista João Alencar, Recife-PE.

 

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Religiões - Um estudo sobre..., pela ótica do autor - Parte 3


 

O que despertou o autor para o ideal libertário que revela em seus textos? 

 Bodstein afirma ter despertado muito cedo para a dissonância que sentia em relação ao mundo à sua volta – primeiro em seu meio familiar, e depois estendida ao contexto externo – pela consciência de que teria que se contrapor às injustiças de que era alvo, e que essa luta jamais teria fim. Tal percepção aconteceu ainda na juventude como reflexo de um momento anterior, de quando decidiu não baixar a cabeça diante de forças maiores que as suas, nem se acovardar frente à prepotência, arrogância e autoritarismo do mundo que mal acabara de conhecer, estabelecendo assim uma permanente vigilância como fator de resistência aos medos. 

A partir desse momento significativo de sua curta existência, passou a entender a dimensão de uma luta que previu ser eterna, após concluir que os inimigos internos se mostravam muito mais fortes que os externos. A essência dessa luta foi sentida por ele como o despertar de seu senso de libertariedade, algo que o acompanharia por toda a vida. O marco decisivo que a pavimentou ocorreu, segundo seus relatos, aos 12 anos de idade, quando decidiu que não mais permitiria que seus medos fossem mais fortes do que sua determinação de dominá-los (leia em https://diariodeumfrancolibertario.blogspot.com/2025/11/lidando-com-os-proprios-medos.html). A partir daí essa decisão se consolidaria como permanente resistência ao acovardamento nos momentos mais conturbados de sua trajetória de vida. 

Bodstein se define a partir do que ele chama de "Lia" – acrônimo para Liberdade, Independência e Autonomia. Além disso, traços de personalidade como a inquietação, a curiosidade intelectual e a busca permanente por elementos factíveis foram características construídas nele ao longo do tempo, tendo a verdade como norte para onde sua bússola interna apontava, em perfeita sintonia com sua lógica, princípios e senso crítico. 

O escritor esclarece que o tema principal de sua abordagem no texto “A eterna luta contra um mundo que não perdoa” não é sobre religião, mas sobre libertariedade. No texto ele explica as razões pelas quais acabou rejeitando a tese do ateismo, após longo tempo envolvido com estudos comparativos das religiões, ressaltando que sua postura não derivou de crenças, mas do senso critico que sempre se fez presente nele, desde que adquiriu entendimento sobre si mesmo. Ele deixa claro não se concentrar em conceitos morais sobre certo ou errado por se mostrarem subjetivos e de viés claramente cultural, mas sim o de libertariedade, que ele define como o ato de encarar e assumir as consequências das próprias escolhas. 

Ele utiliza sua jornada de vida – que inclui o estudo comparativo de religiões e sua posterior opção pelo agnosticismo – para ilustrar um tema maior: sua luta eterna contra o medo num mundo que muitas vezes se revelava prepotente, arrogante e autoritário. Essa luta seria movida por coragem para enfrentar esse contexto hostil, e por uma resistência permanente contra o medo durante a construção do próprio libertarianismo, um tema recorrente em toda a sua obra. 

Seu foco central, portanto, é a liberdade individual, a independência de pensamento e a autonomia – o acrônimo da "Lia" – que, segundo ele, sempre o definiram. Para atingi-los, enfatizou com frequência a importância do autoconhecimento como propósito de vida a partir de um senso crítico apurado mas, ao mesmo tempo, aberto a revisões. Conta ele que, ainda aos 12 anos de idade, foi despertado para o compromisso consigo mesmo de não permitir que seus medos se mostrassem mais fortes do que sua determinação de dominá-los.   

Complementa o autor que, ao longo de sua formação em Direito, adquiriu o hábito de pesquisas “levada a extremos” para testar conceitos e emprestar solidez às próprias conclusões. Essa prática envolveu o concurso de muitas vozes para sustentar os resultados a que chegava, bem como a credibilidade das fontes. Introduziu ainda em seu cotidiano  o uso irrestrito da lógica para filtrar seus "componentes de prova". Entendia como fundamental o uso desse filtro lógico para prevenir erros crassos que pudessem desvirtuar o resultado de sua busca. Em suma, a formação jurídica tanto lhe permitiu aumentar o rigor em suas pesquisas quanto maior segurança em suas análises, de forma a eliminar possibilidades de erro por negligência, imprudência ou imperícia. 

Bodstein conta ainda porque recusou o ateísmo como tese de vida, após quase quarenta anos dedicado ao estudo comparativo das religiões, destacando três motivos que se entrelaçam em sua jornada norteada por autoconhecimento e coragem: 

1. Propósito de autoconhecimento e imersão na verdade factual:

Seu principal balizamento de vida recaiu sempre no autoconhecimento, algo que converteu sua trajetória num mergulho profundo e corajoso em suas verdades mais impactantes. Ele vê na “ignorância voluntária” a  principal razão para que crentes do mundo inteiro se apeguem a preceitos dogmáticos inaceitáveis por medo do que possam vir a descobrir. Essa busca exigiu que ele não temesse o que encontraria ao final dela, regra básica na construção do seu libertarianismo, e que se visse sempre disposto a rever todo o caminho percorrido se a conclusão contrariasse sua "bússola interna".

2. Coragem e construção de seu libertarianismo:

A coragem acabaria convertida em garantia de sobrevivência, o que lhe permitiu iniciar uma escalada de posicionamentos que construiriam seu senso libertário. Esse compromisso com a coragem implicava em não se acovardar diante de qualquer resultado a que chegasse, atuando como o sustentáculo de sua crença em si mesmo. 

3. Lógica e coerência intelectual:

Sua recusa ao ateísmo veio associada a uma lógica insofismável que o colocou diante da opção pelo agnosticismo. A lógica de Bodstein concluiu que tanto o crente (que acredita na existência de Deus) quanto o cético (que acredita na inexistência de Deus) são similares na forma, já que ambos são "crentes" e se fecham em verdades que não podem provar, e diferentes apenas no aspecto de que um acredita em algo e o outro acredita no seu oposto, mudando apenas o corpo de prova. Assim, em lugar de abraçar o ateísmo – que ele via como uma forma de  crença na não-existência – o autor enxergou no agnosticismo uma alternativa mais compatível com sua visão da espiritualidade. Viu nessa escolha o resultado mais coerente e honesto de sua busca, após  reconhecer que elementos de espiritualidade não são comprováveis, mas refletem tão somente a experiência pessoal do observador. O agnosticismo, assim, permitiu-lhe admitir a dúvida, uma vez que não poderia comprovar ou negar a postulação de Deus. Enfatizou ainda que sua escolha não teve relação com crenças, mas sim com traços inerentes à sua personalidade, caracterizada por inquietação, curiosidade intelectual e  coragem para enfrentar suas descobertas. 

A principal estratégia do medo, conforme as premissas defendidas por Bodstein, é se tratar do meio utilizado para construir e eternizar certas crenças, atuando como  garantia de fidelidade a construções dogmáticas, e como estratégia na edificação de "verdades" que são transmitidas de forma tanto opressiva quanto insidiosa, de modo a que o indivíduo jamais se atreva a contestá-las, por mais absurdas que se mostrem. Isso explicaria o pavor de mudanças que possam ameaçar essas construções, que o autor entende como "crenças limitantes" por acorrentarem o indivíduo a premissas dogmáticas construidas de fora pra dentro. O medo, portanto, é a ferramenta que impede o indivíduo de se libertar de tais “verdades” e submetê-las ao crivo da análise crítica, requisito indispensável para livrá-lo de armadilhas muitas vezes construidas “em nome de Deus”. 

Por meio do autoconhecimento, Bodstein transformou sua trajetória em permanente busca pela verdade e combate à manipulação do pensamento não apenas no campo religioso, mas tambem no das ideologias e da filosofia. Essa busca por autoconhecimento foi-lhe essencial na construção de seu libertarianismo, e na permanente disposiçao para rever todo o caminho percorrido caso a linha de chegada contrariasse sua "bússola interna". Surgiu, como ele sustenta, da premissa basilar da ciência, que pede uma revisão continua das proposições anteriores.                                                                                                                                                                                                                                                                          Conhecimento como proposta de vida 

O maior propósito de vida de Bodstein, como repetido em sucessivas ocasiões,  é  o  conhecimento  cada  vez  mais  profundo  de  suas  idiossincracias – analisadas pela ótica de pontos fortes e fracos, de oportunidades e ameaças – para a formulação de planos de ação que lhe permitissem lidar com cada uma delas. Essa busca transformou sua trajetória em um mergulho profundo em suas verdades mais impactantes, inclusive com o poder de reforçar seu libertarianismo, O autoconhecimento precisaria, segundo ele, acontecer em perfeita sintonia com a verdade, tido como o norte para onde sua bússola apontava, é apoiada sobre um tripe constituido de lógica, princípios e senso crítico. 

A coragem auto incentivada e conquistada precocemente deu início a uma escalada de posicionamentos que culminaram no libertário em que se transformou. O compromisso com a coragem que firmou consigo mesmo fê-lo ver que seu maior ato de coragem seria sua resistência permanente ao medo, garantindo que nunca saisse vencedor. 


O agnosticismo na vida de Luiz Roberto Bodstein 

O que levou Bodstein à sua opção pelo agnosticismo, em lugar de percorrer o caminho natural para o ateísmo, após sua oposição frontal as religioes, foi a combinação de uma lógica insofismável com coerência e honestidade intelectual, desenvolvidos ao longo de quase quarenta anos de estudo comparativo das religiões, e ele o justifica com tres razoes bastante definidas: 

1. A impossibilidade de comprovação das teses religiosas:

O autor concluiu que nunca se poderá tomar como verdade qualquer coisa que diga respeito à espiritualidade, uma vez que nenhum de seus argumentos é comprovável, mas apenas refletem a visão e a experiência pessoal do observador.

2. A coerência da dúvida:

Diante da impossibilidade de referendar as próprias percepções para   provar ou negar a postulação de Deus, o autor considerou que admitir a dúvida era o que se mostrava mais coerente e honesto com seus valores. 

3. Identificação entre o Crente e do Cético:

As teses do cético são tao imprecisas quando as do teísta, apesar do aparente antagonismo, pois que se resume ao sentido contrário que demonstra. Sendo assim, a opçao pelo agnosticismo se apresentou a ele como caminho obrigatório para não fugir à verdade em suas formulações alem de incoerente em relação a seus dogmas morais e, por extensão, à ética que o norteara desde a mais tenra idade.

 

Quais os maiores desafios  dessa luta? 

O verdadeiro ato de coragem, pela ótica de Bodstein, consiste na permanente resistência ao medo, mesmo consciente de que  não poderia eliminá-lo completamente, mas simplesmente não deixar que ele se mostre mais forte que sua determinação de dominá-lo. O desafio, para ele, não está em sua extinção, mas em não se deixar levar pela crença de que não exerce controle sobre seus efeitos.   E um dos fatores que lhe trazem tal certeza é sua postura frente às bifurcações que surgem em seu percurso rumo à verdade, tornando necessário efetuar mudanças de cunho ideológico, religioso ou filosófico que lhe cobrem posicionamentos diametralmente opostos aos que defendera antes. Para Bodstein, trata-se de um ato que exige coragem e  honestidade em relação aos próprios valores.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Religiões - Um estudo sobre seus pilares e contradições - Parte 2

Bella Ciao - Banda Republicana

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A eterna batalha contra um mundo que não perdoa

No momento em que dou início a este terceiro texto da série sobre as religiões, alguém deve estar se perguntando em que momento me tornei ateu. Mas, ao se inteirar de tudo o que revelo em seus textos, a resposta pode surpreender: Nunca me declarei ateu, e isso não tem nada a ver com crenças – como podem sugerir – mas com traços de personalidade que foram sendo construídos ao longo do tempo, e relacionados  com inquietude, curiosidade intelectual, busca permanente por elementos factíveis, e coragem para encarar o que descubro, antes de qualquer coisa.    

Tal postura não é algo que ocorre de um momento pra outro,  mas por uma construção que vai acontecendo ao longo de décadas. No meu caso muitas, já que me aconteceu aos 12 anos de idade, quando decidi que não mais permitiria que meus medos fossem mais fortes do que minha determinação de dominá-los. Mesmo tão novo, já tinha consciência de que não querer sentir medo é no mínimo falacioso, além de inútil: o verdadeiro ato de coragem consiste numa permanente resistência, de modo a que nunca saia vencedor. 

  Já acostumado a assumir minhas verdades desde muito cedo, aquele momento também fora reflexo de uma construção ainda mais antiga, a de não baixar a cabeça diante de forças maiores que as minhas, pra me acovardar frente à prepotência, arrogância e autoritarismo do mundo que mal acabara de conhecer. 

Isso me despertou para a dissonância que sentia em relação a ele, ao mesmo tempo em que acordava para a dimensão de uma luta que jamais teria fim. A mim ficou claro, então, que nossos inimigos internos são muito mais fortes que os externos, e que seu enfrentamento seria uma batalha eterna – mas nunca inglória – pois que o grande desafio não está em sua eliminação, mas em não permitir que nos vençam. Em resumo, o que se está falando aqui não é sobre religião, mas sobre libertariedade! 

Sabe-se que, para quem não se identifica com o que chamo de “Lia” – essa Liberdade, Independência e Autonomia que me definiu desde sempre – a mudança chega a ser algo aterrorizante, principalmente num contexto de “crenças limitantes”. Tal nome se deve a um cenário que aprisiona o indivíduo dentro de verdades dogmáticas que não escolheu: simplesmente permitiu que lhe fossem incutidas de fora pra dentro, sem nunca havê-las submetido a qualquer análise crítica. 

Constituem-se naquele tipo de “verdade” que lhe transmitiram em algum momento – e de forma tão esmagadora – que ele jamais se atreveria a contestá-la, por mais absurda que se mostrasse.  Daí se entender o pavor de mudanças que possam ameaçar tais construções, erguidas basicamente pelo uso do medo como estratégia, e principal garantia de sua fidelidade. 

Quando esse indivíduo encontrar coragem para enfrentar suas próprias mudanças de pensar, seja no campo ideológico, religioso ou filosófico, estará dando o primeiro passo – o mais decisivo dentre todos – rumo à sua libertação. Daí se entender a razão dos mais acovardados para sequer tentá-lo, preferindo não vasculhar seus labirintos internos pelo medo de escancarar sua “caixa de pandora” pessoal.     

Isso poderia significar que toda pessoa que permanecer em sua fé, ao longo de toda uma vida, estaria no time dos acovardados? Decididamente não! Ele pode ter explorado todos os seus espaços internos sem encontrar nada que lhe mostrasse mais sentido, pura é simples. Não é sobre conceitos de certo e errado de que falamos, mas sobre encarar de frente qualquer resultado a que se chegue. “Certo” e “errado” são conceitos subjetivos de natureza cultural que variam continuamente, enquanto que decisão é o ato afirmativo e consciente de assumir as consequências das próprias escolhas. Em suma, é uma demonstração de coragem, não de covardia.

 Mas, retornando ao início do texto, o que teria me levado a recusar o ateísmo como tese de vida, após quase quarenta anos mergulhado no estudo comparativo das religiões? A resposta é bem mais simples do que possa parecer:  Primeiro, por ter no autoconhecimento meu maior propósito de vida, algo que converteu minha trajetória num mergulho profundo em minhas verdades mais impactantes; e segundo por ter encontrado desde cedo em minha coragem o mais forte pilar de sobrevivência, dando início a uma escalada de posicionamentos que construíram o meu libertarianismo, sem temer o que poderia encontrar ao final dessas buscas. Por último, por me colocar disposto a rever todo o caminho percorrido ao identificar que a linha de chegada  contrariava aquilo que minha bússola interna assumira como verdadeiro. A verdade sempre foi o norte para onde essa bússola apontava, em perfeita sintonia com os parâmetros ditados por uma mistura de lógica, princípios e senso crítico. E caso o sentimento de certeza não se fizesse presente, nova mudança de rumo  não seria o problema.    

E como saber se tal certeza não iria além de um equívoco conceitual? A “testagem”, desta feita, passaria por uma pesquisa levada a extremos, onde muitas vozes seriam ouvidas de modo a lhe dar sustentação, e a credibilidade das fontes seria reforçada para eliminar possibilidades de erro por negligência, imprudência ou imperícia, prática essa adquirida ao longo de minha formação jurídica. No que toca a este quesito, posso afirmar que a lógica se mostrou indispensável para filtrar “os elementos de prova” e prevenir, pelo menos em parte, aquele tipo de “erro crasso” que pudesse desvirtuar o resultado.   

Na prática, a opção pelo Agnosticismo ao final de minha busca foi de encontro a uma lógica insofismável: nunca se poderá tomar como verdade qualquer coisa que diga respeito a espiritualidade pela simples constatação de que nenhum de seus elementos são comprováveis. Eles apenas refletem a visão do observador, tendo como premissa sua experiência pessoal, mas não necessariamente a narrativa com que o teriam convencido.  

Não podendo, portanto, referendar minhas próprias percepções, concluí que admitir a dúvida era o que se mostrava mais coerente e honesto, notadamente quando não se pode provar ou negar a postulação tomada como objeto de estudo. E a explicação se revela ainda mais simples, no tocante ao estudo das crenças humanas: Tanto o crente quanto o cético não se mostram diferentes na forma, mas apenas na direção escolhida. O crente acredita na existência de Deus, já o cético acredita na inexistência dele. Ou seja: cada um deles é tão crente quanto o outro, mudando apenas o corpo de prova.

E foi assim que minha lógica me levou diretamente para o Agnosticismo, ao me aproximar do entendimento de Spinoza em relação a um deus diferente do bíblico, que exibe posturas não apenas iguais às nossas idiossincrasias humanas, mas tão contraditórias e censuráveis quanto às observadas nas sociedades mais primitivas deste planeta repleto de incoerências.  

O que a igreja é para você?

  (Pergunta de Hélder Oliveira / Portugal): Importante a ênfase que estarei dando ao " para você " do final de sua pergunta, e a r...