domingo, 15 de março de 2026

Agnosticismo: Opção para crenças que já não convencem?

 

 


Antes de entrar no mérito, cabe uma explicação sobre o titulo: diferentemente do entendimento de que declarar-se ateu seja optar pela “não crença”, a rigor o ateísmo é um crença como qualquer outra, com a diferença de que, ao invés de aceitar um deus, ele o rejeita. 

Dificil de entender? Vamos vejamos o que se define por crença: Uma crença é a forma como interpretamos a realidade, qualquer ideia ou convicção que um indivíduo aceita como verdade absoluta baseada em experiências, educação ou repetição. Elas funcionam como “lentes mentais” que moldam nossos comportamentos, emoções e percepção do mundo, servindo tanto para fortalece-los quanto para limita-los.   

Sendo assim, quando o ateu afirma não existir uma divindade, ele apenas expressa sua percepção pessoal do universo nos mesmos moldes de quem defende a existência. Nenhum dos dois possui elementos factíveis para comprovar o que sustenta,  algo que, por si só, já configura uma crença. 

Dito isto, há que se distinguir ainda crença pessoal de crença institucionalizada. A primeira pode se apresentar como assunto de foro intimo, e a segunda é quando se busca por uma estrutura que a reforce, e é aqui que as religiões entram em cena. 

Em suma: uma pessoa pode manter sua crença no divino sem nunca integrar uma igreja ou grupo que acredita nas mesmas coisas que ela. Seria aquele tipo de crente que, em linguagem comum, “dispensa intermediários” entre ele e seu deus, e para vive-la não precisa de um livro sagrado, de regras (que mudam de uma denominação para outra), de rituais ou até de símbolos que a representem. 

Isso, por si só, já garante uma independência bastante significativa a partir de que esse crente não estará submetido a pressões do grupo  com relação a preceitos, dogmas e princípios doutrinários. No entanto, ele não estará livre das pressões que ele próprio se impõe como decorrência de sua formação e crenças que lhe foram infundidas desde o nascimento que podem, inclusive, se mostrar muito mais limitantes do que as do grupo religioso, que trabalha basicamente sobre o binômio medo/esperança. 

Assim, a independência a que nos referimos poderia ser encaixada numa escala de graduação que vai desde a submissão absoluta a um tipo de crença até um nível de consciência que submeta o agente apenas ao próprio entendimento em relação ao divino, e é ai que entra o próximo conceito de que trataremos aqui, conhecido por Agnosticismo. 

Tal linha filosófica reputa como inacessível ou incognoscível ao entendimento humano a compreensão dos problemas propostos pela metafísica ou religião: a existência de um deus, o sentido da vida, do universo, etc., na medida em que ultrapassem o método empírico de comprovação científica. Enquanto o ateu se apoia nas mesmas premissas para negar o que não pode comprovar, o agnóstico o aceita como uma possibilidade, o que muitos consideram tratar-se de um posicionamento dito “em cima do muro”. 

O foco do agnóstico, no entanto, não recai sobre concordar ou discordar, nem preocupar-se com quem detêm a verdade nessa discussão, mas simplesmente em aceitá-la, independente de qual seja ela. Consciente de que nenhuma das teses dogmáticas poderá ser provada, ele admite a dúvida como o caminho mais honesto, em lugar de um caminho errado para efeito de autoconfirmaçao. Mas essa dúvida tem um diferencial relevante: é daquele tipo não pede resposta, mas apenas se coloca aberta para qualquer evidência comprovável que lhe surja em algum momento futuro. 

Desde que a primeira centelha de consciência se acendeu na mente do homem primitivo, ele sentiu necessidade de nomear o inominável. dar um rosto ao que não tem forma, e reduzir a vastidão do universo a um conjunto de rituais acompanhados de regras e proibições. Como decorrência, seu entendimento do divino acabou adaptado a um formato de juiz, uma espécie de “capataz celestial” que só poderia ser acessado com ajuda de intermediários. 

Esse entendimento perdurou por milênios até nossos dias, forjou todos os escritos sagrados que chegaram até nos, além das leis a que deram origem. Mas só bem recentemente a própria ciência – em sintonia com o agnosticismo extemporâneo – trouxe evidências de uma realidade que, mesmo permanecendo oculta, deixa antever elementos ainda além de sua compreensão, mas possíveis. Estamos falando da física quântica, que os antigos chegaram a tratar como crença, mas que o conhecimento alcançado pelo homem classificou, de forma indubitável, como ciência.   

E neste momento da discussão, em que a defesa de tese é substituída por constatação, permito-me sair da terceira pessoa para a primeira, de modo a explicar minha própria experiência com tais fenômenos, que acabaram resultando no meu agnosticismo. Diferentemente da crença, passa-me a consciência de que não se tratou de opção – algo que decorre de escolha deliberada por um caminho – mas de uma conclusão baseada numa longa trajetória entre erros e acertos, entre incontáveis tropeços e retomadas de rumo, que a principio pareciam pura perda de tempo, mas que acabaram consolidando o que antes era apenas uma suspeita: o que se acredita não muda a realidade dos fatos, e o bom-senso pede para não se investir numa busca inútil, mas apenas aceitar a verdade que prescinde de reconhecimento, como também de nossa validação. Pelo menos no meu caso, chegar ao agnosticismo não foi uma escolha, mas uma descoberta,  a conclusão honesta e inteligente pela improdutividade dos outros dois caminhos. 

Nenhuma conclusão surge do nada, ela apenas brota a partir de uma hipótese, etapa fundamental do método científico que consiste na validação ou refutação de uma suposição provisória baseada em evidências coletadas, experimentação e análise de dados. Não se trata de provar que a ideia inicial estava certa ou errada, mas de verificar sua veracidade com base em estudos e comparações entre elementos possíveis ou mesmo improváveis, até se chegar à conclusão quase que, digamos, por acidente. Vejo isso como única forma de se chegar ao agnosticismo autêntico já que, se surgido de escolha, apresentar-se-ia tão dogmático quanto qualquer crença.  Gosto de pensar, portanto, que não fui eu que encontrei o agnosticismo, mas foi ele que me encontrou. 

O processo foi bastante longo, recheado de pesquisas entre incontáveis denominações, quando ainda não me estava clara a diferença entre religiosidade e religião. E foi quando, ao me distanciar da que me foi transmitida no nascimento, saí em busca de uma substituta, seguindo a conhecida máxima de que existiria uma que seria “a verdadeira”. 

O termino desse primeiro estagio veio com a ajuda de Teillard de Chardin, demonstrando que minha “igreja interna” não dependia das que eu frequentara ao longo daquela extensa trajetória. Mas viriam muitos outros que não necessariamente olharam o processo pela mesma ótica, como foi o caso de Nikola Tesla, que me apresentou a possibilidade de um deus não como entidade, mas como frequência. 

Isso nos reporta a teoria da "Energia Vril" do século XIX, publicada em 1871 pelo escritor inglês Edward Bulwer-Lytton. Segundo ele, essa energia seria capaz de curar, destruir, iluminar e movimentar tanto o micro quanto o macrocosmos, sendo considerada uma força vital atuando em forma de uma rede energética única, reunindo todos os elementos animados e inanimados do universo. 

Depuradas todas as teorias conspiratórias que se criou em torno do conceito, o componente mais importante dessa pesquisa foi o entendimento de uma energia imanente que perpassa tudo o que se conhece, vibrando numa frequência que funciona exatamente como as ondas de rádio:  a sintonia com ela resulta em integração e harmonia entre todas as forças atuantes, e a não sintonia  ocorre quando o receptor (no caso, o homem) não está ajustado na mesma frequência de ressonância da onda eletromagnética que percorre a rede transmissora.  

Dessa forma, em  lugar de absorver apenas a energia da fonte, o receptor falha em separar o sinal correto dos milhares de outros sinais que chegam à “antena” (o ser humano). O resultado dessa falta de sintonia produziria uma serie  de  efeitos em cadeia, traduzida pelos infinitos males que podem nos atingir e que, se os quisermos comparar com os do rádio, teríamos:

Estática – Uma vez que o receptor não foca em um sinal específico, ele amplifica ruídos eletromagnéticos aleatórios presentes no ambiente, resultando em ruidos difusos e incompreensíveis

Sinal Fraco – O receptor pode não emitir sinal, ou apenas sinais muito fracos por incapacidade de decodificar as informações recebidas da fonte.

Mistura de Estações – Sobreposição de duas ou mais estações, com o som de uma interferindo na outra, dando causa a uma recepção confusa e disfuncional.

Interferência de sinal – O receptor captura sinais indesejados advindos de outras fontes, resultando em ruídos, zumbidos ou falhas na transmissão.

Perda de Informação – A ausência da sintonia correta impede a demodulação correta do sinal, fazendo que a mensagem não seja reproduzida, ou se mostre totalmente distorcida. 

 

Substituindo-se a nomenclatura técnica aplicada a um emissor e receptor de rádio pela energia universal de que falamos e seu receptor humano, fica fácil entender como o modelo se encaixa nos elementos disseminados pelas religiões para captura, controle e conservação de seus seguidores: 

·       Desarmonizaçao espiritual pelos males do cotidiano,  conflitos  nos relacionamentos, desregramento fisico que dá causa a doenças (‘estatica’)

·       Incapacidade de autogerenciamento e vulnerabilidade de caráter  pela insuficiência de energia vital (‘sinal fraco’).

·       Desequilibrio mental e perda de discernimento (‘mistura de estações’);

·       Desvios de conduta por influencia alheia, possessões demoníacas, relações degradantes, etc. (‘Interferência de sinal’);

·       Impossibilidade de recuperação pela desconexão com a fonte alimentadora e rompimento do canal com o divino (Perda de informaçao). 

O paralelo serve para mostrar que a lógica póstuma de funcionamento é a mesma, mas com a grande diferença de que, no caso da religião, as regras são impostas de fora pra dentro, e no processo individual as ações obedecem unicamente ao comando da consciência, em estreita sintonia com a fonte. O raciocínio é bastante simples: a falta de sintonia produz interrupção na ressonância necessária, gerando ruído e impedindo a captação do sinal proveniente da fonte transmissora.  

O que isso significa? Que não há culpados externos pelos nossos males, que não navegamos entre prêmios e castigos, que o controle de nossos medos é inteiramente nosso, que nossos atos não ficam atrelados a um céu dos bons ou um inferno dos maus, mas unicamente à consciência que os torna desnecessários por conta do que chamamos de autodeterminação. 

Inicialmente parece difícil entender como isso é libertador, a ponto de superarmos o medo de nos libertarmos de um deus criado pelo homem à sua imagem e semelhança. Igualmente se diz daquele temor de nos sentirmos “ao desemparo” pela falta de algo maior para nos cuidar e proteger, ainda que mergulhados em dependência psicológica e emocional de dimensões doentias. Poucos refletem sobre como essa suposta divindade protetora também pode ser repressora e tirânica a ponto de sermos privados das mais ínfimas (e íntimas) imperfeiçoes, como o do simples pensar. 

E assim como obtemos benefícios quando em sintonia com a energia primordial, também sofremos prejuízos quando a dissonância acontece, seja por ato nosso ou simplesmente por negligência com suas regras naturais de funcionamento. 

Mas o momento mais importante de tudo isso é quando passamos a pensar em coisas como essas não apenas como filosofia, mas como descoberta, obrigando-nos a questionar cada crença que nos infundiram. 

Tanto no existencialismo de Sartre quanto no libertarianismo de Nietzsche, a liberdade individual é imprescindível à condição o humana, tendo a responsabilidade por escolhas e ações como ponto central para a autenticidade. Ambos focam na liberdade de agir de acordo com as próprias convicções, em oposição as expectativas sociais baseadas em dogmas e doutrinas, o que os coloca em rota de colisão com as religiões. 

Daí se entender a forte tendência para o ateísmo entre a maior parte de libertários. Mas alguns – como Murray Rothbard – apesar da visão critica em relação à religião organizada, também focavam na espiritualidade como decorrência de uma consciência moral, o que os aproxima do agnosticismo. Em capítulos vindouros teremos oportunidade de entrar em abordagens um pouco mais profundas sobre esses libertários e suas visões de mundo.

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