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Apesar de Você
O maior temor da
minha vida eu descobri muito precocemente, quando ainda era um pré-adolescente,
por volta dos 12 anos de idade. Nessa fase eu nem questionava a maior parte do
que descobria com as experiências de minha curta existência, mas um episódio
corriqueiro acabou dando forma à primeira base filosófica de minha vida, que
foi se consolidando ao longo de minha trajetória e permaneceu inalterável até
hoje. Vou narrar o fato que lhe deu causa, para me fazer entender de uma forma
bem simples:
Por alguma razão que
não sei quando começou, um colega de escola - de seus 16 anos e bem maior do
que eu - me fez uma ameaça de que me espancaria no primeiro momento em que
cruzasse comigo na rua, já que no ambiente escolar seria punido por isso. Só
que esse rapaz morava na minha rua e bem no caminho que eu precisava fazer para
chegar ao colégio, a uma distância de duas quadras da minha casa. Assim, todos
os dias em que saía para a escola eu passava na frente da casa dele.
Nossa rua corria
paralela à avenida principal do bairro, numa quadra abaixo desta. No dia
seguinte à ameaça do valentão eu seguia pelo caminho de sempre para alcançar o
colégio quando, ao chegar na esquina da rua que separava meu quarteirão do
dele, me lembrei de sua promessa de me surrar. Para escapar eu só teria a opção
de subir a rua em direção à avenida principal para contornar o quarteirão da
casa dele, pois que para baixo dava num rio e não havia passagem para a mesma
direção.
Eu cheguei a dar
dois ou três passos para alcançar a avenida quando parei ao ser assaltado por
um pensamento. Estávamos ainda no começo do ano letivo, e já fora provocado
várias vezes pelo valentão que adorava ameaçar os colegas menores. Se eu
quisesse fugir do confronto a solução seria contornar o quarteirão da casa dele
o resto do ano, pegando uma subida forte até a avenida e descendo pela outra
quadra. Estaria mesmo disposto a fazer isso todos os dias, a partir de então,
para escapar da surra?
A decisão veio em
seguida: se ele quisesse me bater mesmo eu teria que enfrentar meus
temores e resolver aquela questão de uma vez por todas, ou me entregar ao medo
de apanhar que me acompanharia pelo resto do ano, e talvez nos próximos, se
ambos permanecêssemos colegas de escola. Então segui firme em frente, e não
apenas isso, mas também mudando de calçada para passar bem em frente à casa
dele, pois que ficava à minha esquerda, enquanto minha casa era do lado
direito.
Pouco antes de
atingir a calçada do fanfarrão eu o vi também saindo para ir ao colégio, pois
que estudávamos no mesmo horário, e ao me ver à distância dirigiu-se direto
para mim para cumprir a ameaça. Eu deixei os livros cairem na calçada e
preparei os punhos para me defender como podia, já que me preparara para
aquilo. E parti para cima do brutamontes com socos e pontapés de toda forma que
eu podia, apesar de sabê-lo maior e mais forte do que eu. Rolamos no chão até
que um adulto se aproximou, pegando-nos pelo braço. Passou-nos "um
sabão" e mandou que cada qual tomasse seu rumo.
A essa altura eu já
estava todo sujo e rasgado. Meu nariz sangrava e manchou de sangue toda a
camisa branca do uniforme. Eu sentia a minha boca inchada por um soco que ele
me acertou, e meu casaco (estava bem frio no dia) fôra transformado em trapos
pelos puxões. Então tive que retornar para casa, sem condições de ir à escola
daquele jeito. No caminho de volta a primeira percepção sobre tudo o que
ocorrera: eu não sentia as dores dos socos nem das escoriações
conseguidas por termos rolado na calçada. O que
sentia era uma sensação de orgulho tão grande de minha coragem que me
lembro dos machucados e de minha roupa rasgada como uma espécie de troféu que
eu levava para minha casa.
Um colega meu que
morava ao lado, ao me ver entrar naquele estado exclamou: "Caramba! A
briga foi feia mesmo!". Até hoje lembro da satisfação imensa que suas
palavras me provocaram, e eu sorria quando entrei em casa, como se tivesse sido
premiado com um presente maior que meu peso, e potente o bastante para
anestesiar qualquer dor. Eu só percebi a dimensão da coisa quando me olhei no
espelho, com minha mãe me lavando e bastante assustada, e vi o lábio inchado,
um olho roxo e o sangue jorrando do nariz. Eu senti orgulho deles – essa foi a
sensação que até hoje trago viva na lembrança – como se fossem medalhas de
bravura, ampliados ainda por saber que até o momento em que nos separaram eu
lutara com todas as forças que conseguira e deixei o fanfarrão tão machucado e
rasgado quanto eu, para também não poder seguir para a escola.
Para fim da estória,
durante o resto do ano eu e esse garoto nos encontramos diariamente em sala de
aula, no horário do recreio, na chegada ou na saída das aulas, mas nunca mais
ele sequer chegou perto de mim, nem mesmo para soltar suas gracinhas, como
fazia até o dia da briga.
De minha parte
aquele dia me trouxe a grande lição que nunca iria esquecer, que é a de
enfrentar os meus medos, não importa o tamanho que ele tenha. Sempre fiz isso
desde então, e não entro "na pilha" dos que ficam em pânico à minha
volta, por mais grave que se mostre a ameaça, lidando com a situação de forma
firme e controlada.
Já enfrentei dois
assaltos e uma tentativa de um terceiro sem me alterar, como até um risco de
tiroteio dentro do ônibus em que viajava em dias de carnaval, e enquanto todos
gritavam, se abaixavam ou saltavam pela porta que se abriu, se atropelando uns
aos outros, eu permanecia no meu estado normal, apenas observando, como se
aquilo estivesse acontecendo numa tela de cinema, e não à minha volta.
Você pode me
perguntar se nunca sinto medo, não é? Isso não é verdadeiro! Depois
que a coisa passa sinto os joelhos tremerem, e o coração pula no peito
parecendo chegar "em reprise", como por efeito retardado. Mas aí não
existe mais ameaça, eu fiz exatamente o que deveria ter feito no momento do
fato, e no controle total de minhas emoções, e agora estava em condições até de
pensar no risco que correra, mas já consciente de que o perigo já fora
superado.
Brinco sempre que
minha adrenalina é dotada de uma espécie de “efeito retardado”, e acho isso
muito positivo, pois na hora sei exatamente o que devo e o que não devo fazer,
e isso me coloca no controle de minhas emoções e capaz de raciocinar com a
mesma lógica e frieza com que o descrevo agora neste texto.
Minha convicção de
hoje, que teve seu primeiro lampejo naquela briga aos 12 anos de idade, é de
que não podemos evitar nossos medos, mas é perfeitamente possível não nos
deixarmos dominar por eles. Sempre deu certo comigo, sem um único episódio em
que tivesse falhado, não importando a gravidade do risco. Encarei situações
graves de perigo iminente de vida inclusive, e sempre lidei com a situação com
a mesma serenidade e confiança de que logo tudo estaria superado, e minha vida
retomaria seu ritmo, só sendo alterada se eu o permitisse, não importando a
circunstância.
As pessoas mais
próximas de mim que sabem dessa minha particularidade costumam brincar me
chamando de "kamikase" ou de "robô", e outras coisas
do gênero. Mas sei que nunca perdi minha capacidade de me emocionar, nem de me
mostrar insensível à fraqueza humana. Apenas descobri prematuramente uma forma
eficiente de lidar com ela, e sou muito grato ao universo por isso.
Também não me deixei
dominar pela arrogância de me achar "poderoso" ou
"indestrutível", mas apenas seguro que aprendi, por alguma razão que
desconheço, a lidar com meus medos. E isso me deixa bem confiante para afirmar que o meu maior medo, sem sombra de dúvida, é dos meus próprios medos.