terça-feira, 25 de novembro de 2025

Inquisidor e Juiz de si mesmo


Uma das características mais marcantes na personalidade de Antonio era sua busca incessante – quase que uma obsessão – pelo autoconhecimento, a ponto de investigar continuamente aquela forma de pensar e agir que se instalara nele desde a infância, e que o levava a questionar absolutamente tudo à sua volta – do macrocosmos ao universo interno, de Deus ao Diabo – mas a si mesmo antes, e com muito mais intensidade inclusive! 

E a quem lhe perguntasse sobre tais percepções, ele respondia já entender bastante sobre seus problemas e idiossincrasias, embora nem sempre conseguisse lidar com ambos. E foi justamente esse ponto que o instigou a fazer mergulhos cada vez mais profundos em suas singularidades, bem como nas dificuldades que percebia em si mesmo a partir delas: 

“Por que desta rejeição tão forte a coisas que as pessoas à minha volta acham normais”? Por que sinto tanta raiva quando identifico traços de meu pai e de meu irmão em mim mesmo? Por que sinto vontade de encontrar algum canto bem longe deles pra sair de cena, sempre que sinto isso? Por que de minha reação tão incisiva contra tudo o que possa me produzir estados alterados de consciência de fora pra dentro? 


Dentre tantas perguntas feitas rotineiramente, e que o colocavam ao mesmo tempo na posição de “auto inquisidor” e juiz do próprio “pensar libertário”, o peso acabava sempre recaindo sobre uma questão que ele tinha como a maior de todas: 

“Por que vejo o mundo dessa forma? De onde isso veio, por que razão e com que proposito?”

 

Apesar de sua espiritualidade ainda não haver passado pela transformação que ocorreria depois, Antonio não queria atribuir tal fenômeno a nada que escapasse a uma compreensão puramente racional. Sua curiosidade norteada pelo pensamento cientifico o induzia a esgotar todas as possibilidades de uma abordagem lógica antes de enveredar por qualquer outro caminho. E só após constatar todos os seus esforços se mostrando inúteis pelo viés cientifico é que ele admitiria alguma outra possibilidade que talvez escapasse ao entendimento humano.

(in "Wikione - Diário de um Franco-Libertário", da trilogia de "O Paradoxo")

 


sábado, 22 de novembro de 2025

Antonio e Juan - O despertar de um libertário




 
Juan passava em frente à capela quando casualmente olhou para dentro e viu Antonio sentado sozinho num dos bancos mais próximos ao átrio central, algo que até ali só o vira fazer em grupo, geralmente em alguma atividade religiosa que integrava o cotidiano do seminário e quase sempre com a presença de um dos padres professores ou do prior do colégio.  Ver Antonio a sós na capela aguçou-lhe a curiosidade frente à postura habitual do amigo, e esperou do lado de fora que ele saísse, o que não levou mais que alguns minutos. 

– Olá, Juan, que bom encontrá-lo por aqui! Tava esperando por mim? – perguntou Antonio, ao dar com o amigo encostado à parede do salão.

– Sim! Ia passando quando vi você sentado sozinho na capela, e fiquei curioso! – respondeu Juan.

– Ficou curioso? Agora quem ficou curioso fui eu! Por que um aspirante a padre sentado num banco de igreja deixaria alguém curioso?

– E que conheço seu pensamento desde há muito tempo... E não estranharia algo assim vindo de qualquer de nossos colegas, mas com você... me pareceu um tanto paradoxal!

– Paradoxal! – repetiu Antonio, separando bem as sílabas – Se algo que vê como paradoxal em mim lhe despertou tanta  curiosidade, com certeza merece uma conversa: o que viu de estranho em mim? Entre nós não há nada que a gente tivesse deixado no ar, você sabe. Então vamos lá:  faça as perguntas que eu respondo o que você quiser, rsrs! – desafiou Antonio, com o bom humor clássico que lhe era peculiar.

– Pra ser bem direto, tem a ver com aqueles nossos papos sobre os “ismos”, que você sempre deixa claro não ver com nenhuma simpatia. No entanto você  está num seminário católico estudando para ser padre! E sim, até aí dá pra entender algumas de suas razões... A novidade foi vê-lo rezando sozinho na Capela, sem que estivesse integrando nenhuma atividade obrigatória do colégio...

– Entendi!... – diz Antonio, mas é interrompido por Juan que estendeu ainda mais sua questão:

– Não lhe parece incoerente que se declare contrário aos “ismos”, e faça parte daquele que sempre foi um dos maiores, e um dos mais antigos da história humana? Pela lógica, o catolicismo deveria encabeçar a sua lista de “ismos” contra os quais se posiciona! Eis o paradoxo que me intrigou ao vê-lo aqui agora!

 

          Antonio sorriu, olhando o amigo diretamente nos olhos com aquele olhar de quem admirava sua aguçada percepção e, como ele, não gostava de deixar que coisas nebulosas se mantivessem num ambiente afetivo e, mais do que isso, de confiança recíproca:

 

– Bastante procedente sua percepção, Juan. Vamos lá então: no que toca aos “ismos”, ninguém mais do que você sabe de minha aversão a eles, e também as minhas razões...

– Você rejeita qualquer tipo de interferência provocada pelo “efeito manada” sobre sua forma de pensar, o que agride um principio basilar de sua liberdade intelectual, que sempre me ficou claro!

– Entendo você, e também a razão de não ter entendido algo que lhe pareceu uma dicotomia entre discurso e ação. E como nunca tinha visto isso acontecer, achou estranho. Eu também acharia, daí que concordo em 100% com você. Mas vamos aprofundar um pouco essa questão da minha rejeição ao dito “acolhimento” decorrente de ideias ou ideais compartilhados nos grupos humanos, e meu entendimento em relação a isso é bastante simples: não há nada de errado em se fazer parte de um grupo. O problema e quando ele faz parte de você!

– Caramba, parceiro! Outra demonstração de sua habilidade para me explicar coisas complexas de forma simples e contundente. Não precisa mais de nenhum acréscimo! Estar no grupo não é o problema, mas não conseguir separa-lo do que você é... É ai que entra o problema, pelo que entendi.

– Exatamente, meu amigo! Mas como você falou antes, quando disse que estou me preparando para ser padre, pra mim a diferença está apenas no verbo: estou sendo preparado para estar padre, o que muda a forma sobre como encaro isso, pois posso deixar de ser padre em algum momento, mas continuarei sendo o libertário que sempre fui. Você conhece bem a história: pouco antes de minha decisão de entrar para o seminário eu havia rompido com minhas raízes católicas herdadas de família... 

– Sim. Recordo bem de como seu pai o chantageava com a religião:  se não estivesse na missa do domingo, tinha a mesada cortada e acabavam-se os bailinhos dos fins-de-semana, o cinema com seus amigos, e tudo o mais. – lembrou Juan.

– Pois é, a raiz dos meus conflitos com meu pai:  “Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço!” Eu me sentia subestimado em minha inteligência: ele não acreditava em nada – como minha mãe sempre repetiu – mas queria impor crenças de família que nunca professou. E daí os conflitos eternos com o “anjo rebelde”, como me tratava! Ele não aceitava que eu questionasse tal incoerência como se fosse apenas um detalhe, mas era algo bem mais profundo que eu percebi mesmo na minha infantilidade de garoto. Meu pai nunca iria aceitar que eu desafiasse a autoridade dele, daí porque eu sempre era o escolhido para ele descarregar sua raiva.

– E faz sentido, já que os outros não o obrigavam a se olhar no espelho, como você fazia!

– Sim! Exceto pela Luz, que também se rebelava por conta de seu machismo. Só que ela, por ser a mais nova e, além de tudo, a única menina, não tinha voz o bastante para abalá-lo, e então sobrava pra mim a raiva que sentia ao ser contrariado pelos dois!

– Todas as vezes que conversamos sobre dúvidas que trago em relação a você, sempre acabo como agora: envergonhado por tê-las tido, uma vez que não era mais para eu ter dúvidas sobre nada do que me chegue por você! – confessou Juan.

– Pois eu, ao contrário, me sinto reconfortado quando você me questiona. Sinal de que não permitiu que nossa amizade interferisse na sua análise sobre meus méritos e deméritos, e isso, pra mim, é um sinal claro de que é tão independente e lúcido como me esforço pra ser. Em outras palavras, parceiro, você é outro “wikione” que saltou há tempos de dentro de você, só que ainda não tinha se dado conta disso!   

sábado, 15 de novembro de 2025

Lidando com os próprios medos

 


Ouça o Podcast clicando AQUI, Para ver o vídeo em Flipchart, é AQUI.

Apesar de Você

O maior temor da minha vida eu descobri muito precocemente, quando ainda era um pré-adolescente, por volta dos 12 anos de idade. Nessa fase eu nem questionava a maior parte do que descobria com as experiências de minha curta existência, mas um episódio corriqueiro acabou dando forma à primeira base filosófica de minha vida, que foi se consolidando ao longo de minha trajetória e permaneceu inalterável até hoje. Vou narrar o fato que lhe deu causa, para me fazer entender de uma forma bem simples: 

Por alguma razão que não sei quando começou, um colega de escola - de seus 16 anos e bem maior do que eu - me fez uma ameaça de que me espancaria no primeiro momento em que cruzasse comigo na rua, já que no ambiente escolar seria punido por isso. Só que esse rapaz morava na minha rua e bem no caminho que eu precisava fazer para chegar ao colégio, a uma distância de duas quadras da minha casa. Assim, todos os dias em que saía para a escola eu passava na frente da casa dele. 

Nossa rua corria paralela à avenida principal do bairro, numa quadra abaixo desta. No dia seguinte à ameaça do valentão eu seguia pelo caminho de sempre para alcançar o colégio quando, ao chegar na esquina da rua que separava meu quarteirão do dele, me lembrei de sua promessa de me surrar. Para escapar eu só teria a opção de subir a rua em direção à avenida principal para contornar o quarteirão da casa dele, pois que para baixo dava num rio e não havia passagem para a mesma direção. 

Eu cheguei a dar dois ou três passos para alcançar a avenida quando parei ao ser assaltado por um pensamento. Estávamos ainda no começo do ano letivo, e já fora provocado várias vezes pelo valentão que adorava ameaçar os colegas menores. Se eu quisesse fugir do confronto a solução seria contornar o quarteirão da casa dele o resto do ano, pegando uma subida forte até a avenida e descendo pela outra quadra. Estaria mesmo disposto a fazer isso todos os dias, a partir de então, para escapar da surra? 

A decisão veio em seguida: se ele quisesse me bater mesmo eu teria que enfrentar meus temores e resolver aquela questão de uma vez por todas, ou me entregar ao medo de apanhar que me acompanharia pelo resto do ano, e talvez nos próximos, se ambos permanecêssemos colegas de escola. Então segui firme em frente, e não apenas isso, mas também mudando de calçada para passar bem em frente à casa dele, pois que ficava à minha esquerda, enquanto minha casa era do lado direito. 

Pouco antes de atingir a calçada do fanfarrão eu o vi também saindo para ir ao colégio, pois que estudávamos no mesmo horário, e ao me ver à distância dirigiu-se direto para mim para cumprir a ameaça. Eu deixei os livros cairem na calçada e preparei os punhos para me defender como podia, já que me preparara para aquilo. E parti para cima do brutamontes com socos e pontapés de toda forma que eu podia, apesar de sabê-lo maior e mais forte do que eu. Rolamos no chão até que um adulto se aproximou, pegando-nos pelo braço. Passou-nos "um sabão" e mandou que cada qual tomasse seu rumo. 

A essa altura eu já estava todo sujo e rasgado. Meu nariz sangrava e manchou de sangue toda a camisa branca do uniforme. Eu sentia a minha boca inchada por um soco que ele me acertou, e meu casaco (estava bem frio no dia) fôra transformado em trapos pelos puxões. Então tive que retornar para casa, sem condições de ir à escola daquele jeito. No caminho de volta a primeira percepção sobre tudo o que ocorrera: eu não sentia as dores dos socos nem das escoriações conseguidas por termos rolado na calçada. O que  sentia era uma sensação de orgulho tão grande de minha coragem que me lembro dos machucados e de minha roupa rasgada como uma espécie de troféu que eu levava para minha casa. 

Um colega meu que morava ao lado, ao me ver entrar naquele estado exclamou: "Caramba! A briga foi feia mesmo!". Até hoje lembro da satisfação imensa que suas palavras me provocaram, e eu sorria quando entrei em casa, como se tivesse sido premiado com um presente maior que meu peso, e potente o bastante para anestesiar qualquer dor. Eu só percebi a dimensão da coisa quando me olhei no espelho, com minha mãe me lavando e bastante assustada, e vi o lábio inchado, um olho roxo e o sangue jorrando do nariz. Eu senti orgulho deles – essa foi a sensação que até hoje trago viva na lembrança – como se fossem medalhas de bravura, ampliados ainda por saber que até o momento em que nos separaram eu lutara com todas as forças que conseguira e deixei o fanfarrão tão machucado e rasgado quanto eu, para também não poder seguir para a escola. 

Para fim da estória, durante o resto do ano eu e esse garoto nos encontramos diariamente em sala de aula, no horário do recreio, na chegada ou na saída das aulas, mas nunca mais ele sequer chegou perto de mim, nem mesmo para soltar suas gracinhas, como fazia até o dia da briga. 

De minha parte aquele dia me trouxe a grande lição que nunca iria esquecer, que é a de enfrentar os meus medos, não importa o tamanho que ele tenha. Sempre fiz isso desde então, e não entro "na pilha" dos que ficam em pânico à minha volta, por mais grave que se mostre a ameaça, lidando com a situação de forma firme e controlada. 

Já enfrentei dois assaltos e uma tentativa de um terceiro sem me alterar, como até um risco de tiroteio dentro do ônibus em que viajava em dias de carnaval, e enquanto todos gritavam, se abaixavam ou saltavam pela porta que se abriu, se atropelando uns aos outros, eu permanecia no meu estado normal, apenas observando, como se aquilo estivesse acontecendo numa tela de cinema, e não à minha volta. 

Você pode me perguntar se nunca sinto medo, não é? Isso não é verdadeiro! Depois que a coisa passa sinto os joelhos tremerem, e o coração pula no peito parecendo chegar "em reprise", como por efeito retardado. Mas aí não existe mais ameaça, eu fiz exatamente o que deveria ter feito no momento do fato, e no controle total de minhas emoções, e agora estava em condições até de pensar no risco que correra, mas já consciente de que o perigo já fora superado. 

Brinco sempre que minha adrenalina é dotada de uma espécie de “efeito retardado”, e acho isso muito positivo, pois na hora sei exatamente o que devo e o que não devo fazer, e isso me coloca no controle de minhas emoções e capaz de raciocinar com a mesma lógica e frieza com que o descrevo agora neste texto. 

Minha convicção de hoje, que teve seu primeiro lampejo naquela briga aos 12 anos de idade, é de que não podemos evitar nossos medos, mas é perfeitamente possível não nos deixarmos dominar por eles. Sempre deu certo comigo, sem um único episódio em que tivesse falhado, não importando a gravidade do risco. Encarei situações graves de perigo iminente de vida inclusive, e sempre lidei com a situação com a mesma serenidade e confiança de que logo tudo estaria superado, e minha vida retomaria seu ritmo, só sendo alterada se eu o permitisse, não importando a circunstância. 

As pessoas mais próximas de mim que sabem dessa minha particularidade costumam brincar me chamando de "kamikase" ou de "robô", e outras coisas do gênero. Mas sei que nunca perdi minha capacidade de me emocionar, nem de me mostrar insensível à fraqueza humana. Apenas descobri prematuramente uma forma eficiente de lidar com ela, e sou muito grato ao universo por isso. 

Também não me deixei dominar pela arrogância de me achar "poderoso" ou "indestrutível", mas apenas seguro que aprendi, por alguma razão que desconheço, a lidar com meus medos. E isso me deixa bem confiante para afirmar que o meu maior medo, sem sombra de dúvida, é dos meus próprios medos. 

sábado, 1 de novembro de 2025

Introdução - O Pensamento Franco-Libertário

 


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O libertário é, antes de tudo, um ferrenho defensor da liberdade intelectual para se manter distante de vieses políticos ou econômicos, mas não só: ele acredita que o sentido da vida está em guiar-se pela consciência intrinsecamente liberta de tutela externa. A autonomia, portanto, se traduz como essência de sua identidade para posicioná-lo como autor e protagonista de seus atos e valores. 

Seu senso de liberdade rejeita toda sorte de autoridade imposta, venha ela de governos, dogmas, movimentações plurais ou de outros modelos de pensamento que limitem a autodeterminação. Nesse contexto, expressões como “padrão”, "modelo", ou qualquer outra que se fundamente em cânones comportamentais - notadamente os coletivos - não irão integrar seu contexto de vida. Em essência, a visão de um libertário é a de que liberdade é um estado natural da existência humana, daí não aceitá-la como uma concessão dos que detêm o poder. Em resumo, o libertário é um existencialista prático que vê a vida como um sistema inegociável de escolhas, e onde cada decisão define quem ele é. 

Um libertário tenderá para uma visão individualista, mas que não se confunde com a “egoísta” pela ótica do senso comum. Ele valoriza profundamente o respeito mútuo nas interações sociais, desde que cada qual não se distancie daquilo que é quando longe de um grupo. E justamente por se ver como parte desse todo sistêmico, defende que cada indivíduo deva arcar com as consequências das próprias ações, sem esperar tutela ou condescendência por parte do Estado ou da coletividade, tidas por ele como política paternalista que privilegia uns em detrimento de outros.

Um libertário não apenas se mostrará “tolerante” para com as diferenças, mas como um seu permanente defensor. “Tolerar”, para ele, é uma forma disfarçada de intolerância socialmente aceita. “Eu aceito que você seja tão diferente quanto queira, desde que eu não precise compartilhar o mesmo espaço com você”. Essa percepção do outro tão somente reforça - em sua concepção - uma sociedade dividida em castas, constituída por indivíduos de primeira e de segunda classe. Mas a igualdade que ele apóia também não é a dos que, em nome dela, se acreditam no direito de interferir na liberdade alheia. 

Costuma se mostrar bastante cético diante de ideologias coletivistas ou projetos de “engenharia social”, pois vê neles um risco de padronização do pensamento e da conduta humana.  Libertários também são imbuídos de um forte senso ético,  independentemente de um regramento legal que disponha sobre costumes socialmente aceitos, e simplesmente porque acreditam que a ética é a base natural da convivência entre seres livres.

Até aqui estivemos falando do libertário preconizado por filósofos modernos e estudiosos do comportamento a partir dos anos 1960, ou desde que se começou a estudar o tema como corrente de pensamento em meados do século XIX, onde ele teve suas raízes. Mas onde fica a diferença entre esse libertário mais comum e o “franco-libertário” que dá título a este nosso compêndio? 

Basicamente a diferença se concentra no campo das interações humanas. Pode-se dizer que o libertário tradicional vê com muita simpatia a adesão de pessoas à sua forma de pensar, o que o predispõe a integrar comunidades de pensadores com quem desenvolva afinidades, ou se tornar uma voz destacada entre eles para reforçar suas convicções libertárias. 

O “franco-libertário”, por sua vez, não tem pretensões de integrar comunidades ou, mais especificamente, unir sua voz a de outros que sigam a mesma corrente de pensamento. Metaforicamente poderíamos usar a expressão “trabalho de formiguinha” para ilustrar o comportamento típico de um libertário tradicional, enquanto que ao franco-libertário caberia bem a alegoria da cigarra para descrevê-lo:  ele vê sua atuação como um ato isolado e totalmente alheio à necessidade de integrar grupos de qualquer natureza, descobrindo, inclusive, fontes de prazer (muito intensos até) que não dependam de ninguém mais a não ser dele próprio. Pensadores modernos estão considerando tal postura como uma nova forma de hedonismo que, por essa concepção mais recente, caracteriza a busca por prazer nas pequenas coisas do cotidiano e de uma forma altamente positiva, já que baseada em sustentabilidade consciente e autônoma, ou seja:  ela não depende de validação externa para atingir a plenitude em nível de auto-realização. 

Em resumo, assim como esse “hedonismo positivo” envolve o franco-libertário numa escala crescente de prazer – alimentada por forte senso de satisfação interna e de auto-descoberta – ele transforma sua filosofia libertária em verdadeiro propósito existencial: seu trabalho incansável pela liberdade, tanto própria quanto a de todos, pode sequer ser percebido pelas pessoas à sua volta, pois ele o desempenha como um “canto de cigarra” que encontra prazer no próprio ato de cantar, sem precisar de platéia para se mostrar potente como é.  Como o canto da cigarra seu desempenho é solitário. mas potente quando ouvida pelos que lhe prestam atenção, e apenas pelos que prestam atenção, e é esse exatamente o seu foco: ele se distingue não pelo alcance, mas pela força da mensagem, que se propõe a se manter qualitativa e atemporal. 

Mais uma vez, o que o distingue do libertário tradicional é que, diferentemente deste, sua atuação é passiva, silenciosa, mas persistente e de longo prazo. A frase que resume esse tipo de postura adotada pelo franco-libertário é esta aqui, já mostrada inclusive na apresentação deste blog: 

Sua mensagem não é posta na ponta de um mastro, mas levada pelo vento como sementes lançadas da janela de um trem: muitas caem sobre rochas impenetráveis, e fenecem; algumas caídas sobre terras rasas não conseguem aprofundar suas raízes, e logo secam; outras, porém, encontrando terras férteis e profundas, se transformam pouco depois em árvores frondosas!”

Se lhe perguntassem sobre os resultados que espera do seu trabalho, ele fatalmente diria que não tem pretensão alguma de obter “sucesso”  pela ótica desta nossa era digital, em que o “parecer” (ou “aparecer”) é mais valorizada do que o “ser”, realmente. Seu conceito de sucesso é de foro absolutamente íntimo, onde cada retorno esporádico e anônimo lhe mostra que seu público-alvo – constituído por futuras mentes libertárias – está brotando aqui e ali, confirmando que a semente caíra sobre terras férteis e dessa árvore virão mais e mais sementes... E isso é o que ele traduz por realização. 

O adjetivo “franco” que antecede este tipo de libertário pode ser facilmente entendido quando o comparamos ao do franco-atirador, que não mira num alvo específico, mas cujo impacto de sua intervenção pode atingir proporções muito além do que o conseguiria se direcionado a um alvo específico.

O franco-libertário, enquanto ente social, costuma trazer um espírito inquieto, racional e contestador, questionando normas, hierarquias e “verdades” aceitas sem reflexão. Prefere construir suas próprias conclusões, ainda que isso o torne minoritário ou incompreendido. Por conta disso vai se sentir desconfortável em ambientes onde predomina a obediência cega e a cultura de rebanho. 

Então aceita pagar o preço de ser livre — inclusive o do isolamento e dos becos sem saída — por considerar que a servidão voluntária é pior que o fracasso autêntico. Sua vida interior costuma ser intensa, movida por um senso de coerência entre pensar e agir. Sob o prisma dos objetivos existenciais um franco-libertário nuca sairá em busca do poder: sua perspectiva é por autenticidade e soberania pessoal. O objetivo último é viver em harmonia com sua própria natureza e princípios em um mundo onde cada indivíduo possa fazer o mesmo. 

Isso, em termos práticos, se traduz por coisas como criar, produzir e amar por escolha, em vez de por dever ou coerção; ser dono de seu tempo, de sua consciência e de seu destino; viver com integridade, mesmo que em desacordo com a maioria. Coisas que, em lugar de abatê-lo, o deixa orgulhoso pela resiliência que lhe pula do peito. No fundo, o libertário aspira a uma forma de paz ativa — aquela que surge quando o indivíduo vive sem máscaras, coerente consigo mesmo e livre de amarras externas mas, principalmente, das internas que as pessoas criam para aprisionar a si mesmas. 

Como tudo, no entanto, seu senso libertário carrega tensões e desafios, como o de conciliar liberdade absoluta com o convívio social. A solidão poderia ser um grande problema, não fosse a sua habilidade para auto-realização, momento em que a substitui pela postura de quem se basta a si mesmo, popularizada como “solitude”. 

Mas como todos que seguem o caminho inverso ao da corrente, não há como não viver a solidão de quem se nega a integrar os sistemas de obediência coletiva, que leva muitos ao risco de mergulhar no niilismo ou na indiferença social, quando a busca pela liberdade se afasta do eixo ético. Apesar de tantos desafios, para o franco-libertário esses riscos são apenas uma parte pequena do preço que paga por sua lucidez, pois que sua natureza irá sempre preferir o peso da liberdade à leveza da servidão.




 


O que a igreja é para você?

  (Pergunta de Hélder Oliveira / Portugal): Importante a ênfase que estarei dando ao " para você " do final de sua pergunta, e a r...