–
Olá, Juan, que bom encontrá-lo por aqui! Tava esperando por mim? – perguntou
Antonio, ao dar com o amigo encostado à parede do salão.
–
Sim! Ia passando quando vi você sentado sozinho na capela, e fiquei curioso! –
respondeu Juan.
– Ficou
curioso? Agora quem ficou curioso fui eu! Por que um aspirante a padre sentado
num banco de igreja deixaria alguém curioso?
–
E que conheço seu pensamento desde há muito tempo... E não estranharia algo
assim vindo de qualquer de nossos colegas, mas com você... me pareceu um tanto
paradoxal!
–
Paradoxal! – repetiu Antonio, separando bem as sílabas – Se algo que vê como
paradoxal em mim lhe despertou tanta
curiosidade, com certeza merece uma conversa: o que viu de estranho em
mim? Entre nós não há nada que a gente tivesse deixado no ar, você sabe. Então
vamos lá: faça as perguntas que eu
respondo o que você quiser, rsrs! – desafiou Antonio, com o bom humor clássico
que lhe era peculiar.
–
Pra ser bem direto, tem a ver com aqueles nossos papos sobre os “ismos”, que você
sempre deixa claro não ver com nenhuma simpatia. No entanto você está num
seminário católico estudando para ser padre! E sim, até aí dá pra entender
algumas de suas razões... A novidade foi vê-lo rezando sozinho na Capela, sem
que estivesse integrando nenhuma atividade obrigatória do colégio...
–
Entendi!... – diz Antonio, mas é interrompido por Juan que estendeu ainda mais
sua questão:
–
Não lhe parece incoerente que se declare contrário aos “ismos”, e faça parte
daquele que sempre foi um dos maiores, e um dos mais antigos da história
humana? Pela lógica, o catolicismo deveria encabeçar a sua lista de “ismos”
contra os quais se posiciona! Eis o paradoxo que me intrigou ao vê-lo aqui
agora!
Antonio sorriu, olhando o amigo
diretamente nos olhos com aquele olhar de quem admirava sua aguçada percepção
e, como ele, não gostava de deixar que coisas nebulosas se mantivessem num
ambiente afetivo e, mais do que isso, de confiança recíproca:
–
Bastante procedente sua percepção, Juan. Vamos lá então: no que toca aos
“ismos”, ninguém mais do que você sabe de minha aversão a eles, e também as minhas razões...
–
Você rejeita qualquer tipo de interferência provocada pelo “efeito manada”
sobre sua forma de pensar, o que agride um principio basilar de sua liberdade
intelectual, que sempre me ficou claro!
– Entendo você, e também a razão de não ter entendido algo que lhe pareceu uma dicotomia entre discurso e ação. E como nunca tinha visto isso acontecer, achou estranho. Eu também acharia, daí que concordo em 100% com você. Mas vamos aprofundar um pouco essa questão da minha rejeição ao dito “acolhimento” decorrente de ideias ou ideais compartilhados nos grupos humanos, e meu entendimento em relação a isso é bastante simples: não há nada de errado em se fazer parte de um grupo. O problema e quando ele faz parte de você!
–
Caramba, parceiro! Outra demonstração de sua habilidade para me explicar coisas
complexas de forma simples e contundente. Não precisa mais de nenhum acréscimo!
Estar no grupo não é o problema, mas não conseguir separa-lo do que você é... É ai que entra o problema, pelo que entendi.
– Exatamente, meu amigo! Mas como você falou antes, quando disse que estou me preparando para ser padre, pra mim a diferença está apenas no verbo: estou sendo preparado para estar padre, o que muda a forma sobre como encaro isso, pois posso deixar de ser padre em algum momento, mas continuarei sendo o libertário que sempre fui. Você conhece bem a história: pouco antes de minha decisão de entrar para o seminário eu havia rompido com minhas raízes católicas herdadas de família...
– Sim. Recordo bem de como seu pai o chantageava com a religião: se não estivesse na missa do domingo, tinha a mesada cortada e acabavam-se os bailinhos dos fins-de-semana, o cinema com seus amigos, e tudo o mais. – lembrou Juan.
–
Pois é, a raiz dos meus conflitos com meu pai:
“Faça o que eu digo, mas não faça
o que eu faço!” Eu me sentia subestimado em minha inteligência: ele não
acreditava em nada – como minha mãe sempre repetiu – mas queria impor crenças
de família que nunca professou. E daí os conflitos eternos com o “anjo rebelde”, como me tratava! Ele não aceitava que eu questionasse tal incoerência como se
fosse apenas um detalhe, mas era algo bem mais profundo que eu percebi mesmo na
minha infantilidade de garoto. Meu pai nunca iria aceitar que eu desafiasse a
autoridade dele, daí porque eu sempre era o escolhido para ele descarregar sua
raiva.
–
E faz sentido, já que os outros não o obrigavam a se olhar no espelho, como
você fazia!
–
Sim! Exceto pela Luz, que também se rebelava por conta de seu machismo. Só que
ela, por ser a mais nova e, além de tudo, a única menina, não tinha voz o
bastante para abalá-lo, e então sobrava pra mim a raiva que sentia ao ser
contrariado pelos dois!
–
Todas as vezes que conversamos sobre dúvidas que trago em relação a você,
sempre acabo como agora: envergonhado por tê-las tido, uma vez que não era mais
para eu ter dúvidas sobre nada do que me chegue por você! – confessou Juan.
–
Pois eu, ao contrário, me sinto reconfortado quando você me questiona. Sinal de
que não permitiu que nossa amizade interferisse na sua análise sobre meus
méritos e deméritos, e isso, pra mim, é um sinal claro de que é tão
independente e lúcido como me esforço pra ser. Em outras palavras, parceiro,
você é outro “wikione” que saltou há tempos de dentro de você, só que ainda não
tinha se dado conta disso!


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