Uma das características mais marcantes na personalidade de Antonio era
sua busca incessante – quase que uma obsessão – pelo autoconhecimento, a ponto
de investigar continuamente aquela forma de pensar e agir que se instalara nele
desde a infância, e que o levava a questionar absolutamente tudo à sua volta –
do macrocosmos ao universo interno, de Deus ao Diabo – mas a si mesmo antes, e
com muito mais intensidade inclusive!
E a quem lhe perguntasse sobre tais percepções, ele respondia já
entender bastante sobre seus problemas e idiossincrasias, embora nem sempre
conseguisse lidar com ambos. E foi justamente esse ponto que o instigou a fazer
mergulhos cada vez mais profundos em suas singularidades, bem como nas
dificuldades que percebia em si mesmo a partir delas:
“Por que desta rejeição tão forte a coisas que as pessoas à minha volta
acham normais”? Por que sinto tanta raiva quando identifico traços de meu pai e
de meu irmão em mim mesmo? Por que sinto vontade de encontrar algum canto bem
longe deles pra sair de cena, sempre que sinto isso? Por que de minha reação
tão incisiva contra tudo o que possa me produzir estados alterados de
consciência de fora pra dentro?
Dentre tantas perguntas feitas rotineiramente, e que o colocavam ao
mesmo tempo na posição de “auto inquisidor” e juiz do próprio “pensar
libertário”, o peso acabava sempre recaindo sobre uma questão que ele tinha
como a maior de todas:
“Por que vejo o mundo dessa forma? De onde isso veio, por que razão e
com que proposito?”
Apesar de sua espiritualidade ainda não haver passado pela transformação
que ocorreria depois, Antonio não queria atribuir tal fenômeno a nada que
escapasse a uma compreensão puramente racional. Sua curiosidade norteada pelo
pensamento cientifico o induzia a esgotar todas as possibilidades de uma
abordagem lógica antes de enveredar por qualquer outro caminho. E só após
constatar todos os seus esforços se mostrando inúteis pelo viés cientifico é
que ele admitiria alguma outra possibilidade que talvez escapasse ao
entendimento humano.
(in "Wikione - Diário de um Franco-Libertário", da trilogia de "O
Paradoxo")

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