quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Quando a Justiça se sobrepõe às falsas certezas





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Cálice 

O texto apresenta um manifesto pessoal de Luiz Roberto Bodstein, um consultor organizacional e escritor, que faz um profundo exame de consciência sobre suas posições políticas passadas. O autor revela ter combatido veementemente o ex-presidente Lula, baseando suas escolhas em valores, mas reconhecendo agora ter uma dívida moral com ele. Essa percepção mudou drasticamente ao testemunhar a postura digna e a obediência irrestrita de Lula à lei, mesmo quando submetido a iniquidades que o autor reconhece como sendo fruto de conspirações forjadas. Bodstein admite publicamente seu erro, pois percebeu que havia se tornado um instrumento de manipulação por mentes espúrias, o que contraria seu próprio sistema de honradez. Assim, o manifesto serve como um ato de penitência pessoal, transformando a vergonha interna em honra pela assunção pública do erro, além de ser uma homenagem à obstinação do líder em manter-se fiel aos seus ideais

 

Nunca usei meu voto para favorecer um candidato, mas sim os meus valores em prol de uma causa em que o visse como barreira para o pior não vencer! E tal postura foi o que sempre norteou minhas escolhas.

No entanto, mantenho uma dívida moral com esse símbolo de legalismo e hombridade em que Lula se transformou, uma figura a quem dei combate de forma contundente ao longo de seus dois primeiros mandatos apenas por nunca haver me debruçado sobre seu histórico de defensor incansável do próprio sistema de crenças e valores, mesmo tendo o país inteiro contra ele em acusações que, mais tarde, se revelariam como fruto de um plano muito bem urdido e execrável.

Mas apesar das incontáveis derrotas que lhe impuseram – que não foram poucas nem pequenas – recebeu-as com a cabeça erguida dos que acreditam nos valores que defendem e, mais do que isso, sem abrir mão de sua dignidade, autorrespeito e irrestrita obediência à Carta Magna, o que me impôs profundas reflexões sobre a forma como olhara para aquele homem até então. Quantos outros, diante das iniquidades a que o submeteram, teriam a mesma atitude honrada e de desafio diante delas, em lugar da vitimização e do revanchismo que se esperaria como resposta mais imediata?

Diante disso não me restava senão constatar o óbvio: que estivera sim totalmente errado, o que não surgiu da simples constatação de um erro frente à postura íntegra de um líder, mas por tomar consciência de minha provável atitude se fosse eu a passar por vicissitudes e injustiças de tal porte.

Constatado o erro de forma cabal e inequívoca, restava-me agora me mostrar igualmente fiel ao meu próprio sistema de valores para, de peito aberto, me penitenciar perante mim mesmo, trocando o sentimento interno de vergonha pela honradez de assumi-lo publicamente, objetivo maior deste manifesto de repúdio ao adversário forjado artificialmente pela manipulação alheia. E não apenas pelo combate injusto que impus ao homem íntegro, mas principalmente por ter deixado que minha busca irrenunciável pela verdade fosse convertida em instrumento útil de exploração pelas mentes espúrias dos conspiradores de plantão, os mesmos que colocam seus interesses fisiológicos a frente das grandes causas nacionais.

Assumí-lo, portanto, não vai além de um ponto de honra para me redimir, antes de tudo, perante mim mesmo, como qualquer pessoa de caráter o faria ou, pelo menos, sentisse vergonha da própria covardia por não tomá-lo como dever moral.

Este manifesto, no entanto, não se limita ao reconhecimento de uma culpa, estendendo-se também a uma homenagem há muito devida a um colecionador de vitórias improváveis que resultaram de sua obstinação e fidelidade tenaz aos próprios ideais.

Luiz Roberto Bodstein

Consultor Organizacional e Escritor 

4 comentários:

  1. Respostas
    1. TRANSCRIÇÃO DE COMENTÁRIOS AO TEXTO:

      "Atitude de coragem e honradez de sua parte" - Rogério Maia

      "Respeito opiniões divergentes, mas discordo da tese" - Airton Barros

      "Uma observação pública e corajosa descrevendo a dor da dissonância cognitiva no campo político". - Beth Ganimi

      “Gostei do seu texto, e por vários motivos: você revelou caráter e humildade, como também se mostrou justo e preciso. E ainda que eu discordasse, democracia é isso: ter na diversidade o seu pilar mais forte.” - Jose Luiz de Moraes.

      “Conteúdo sensacional. Me identifiquei muito, e é exatamente como penso. Parabéns pelo posicionamento.” – Marcelo Menezes

      “Respeito o direito de cada um em suas escolhas políticas e a determinação com que as defendem, porém não tenho e nunca tive essa mesma visão. Parabéns pela sua escrita sempre impecável, porém discordo também da tese apresentada”. – Liliane de Barros Cardoso

      “Cara, seu depoimento foi emocionante e lúcido nestes tempos em que se espalha combustível pra todos os lados. Mas eu noto que o pessoal da direita radical tem um comportamento muito agressivo pra substituir a falta de argumentos sólidos. Então se troca argumentos por agressividade, como vemos no perfil do Trump, do Milei, de Bolsonaro. Perfis totalmente agressivos, machistas e desconexos sem um projeto claro de ação. Sua guinada é de aplaudir, pois que você estava num mar pantanoso, por assim dizer. Parabéns!” – Alexandre Braga

      “Sí, recuerdo cuánto luchaste contra Lula. Pero para quienes profundizan más de lo que muestran las apariencias, llega el día del despertar. Lo difícil no es comprender la lucha contra Lula, sino el alcance de la ceguera de quienes aún siguen a Bolsonaro, a pesar de toda la realidad que ha salido a la luz. Y por eso en Brasil los llaman "ganado". El ganado no quiere ver nada. Solo obedece.” - Jaime Molina Aguilar

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  2. LILIANE DE BARROS CARDOSO6 de dezembro de 2025 às 10:55

    Respeito o direito de cada um em suas escolhas políticas e a determinação com que as defendem, porém não tenho e nunca tive essa mesma visão. Parabéns pela sua escrita sempre impecável, porém discordo também da tese apresentada

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  3. Obrigado a todos que se pronunciaram com relação ao meu texto, independente de concordar ou não com ele, pois que não buscou seguir por nenhum viés de confirmação. Aproveito também para completá-lo, esclarecendo que não se tratou de uma definição politica por um dos lados mas, como democrata que sou, sempre irei defender o lado que falar mais alto aos meus valores: o da legalidade, antes de tudo, e o da justiça vista sob tais parâmetros. Assim, o lado escolhido - em um dado momento histórico - será o do que se alinhar com essa minha visão de mundo, e me manter fiel a ela para mudar de opinião todas as vezes que a verdade trocar de lado, em estrita obediência às minhas convicções. O manifesto retrata um momento politico recente em que a consciência reclamou primazia sobre o silêncio. Grande abraço a todos!

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