Por que a algumas pessoas que até gostaríamos de ter mais próximas, nós mesmos colocamos obstáculos à aproximação delas, e outras que conhecemos bem menos nos atraem tanto, ainda que saibamos quase nada delas?
Resp. – Tenho pra mim que seja porque não atingiram o momento delas como “destinatárias” das mensagens que fazemos chegar aos outros, e que talvez teríamos a atribuição de enviar. Apenas as que já atingiram esse patamar de entendimento é que se aproximarão, assim como nós delas.
E como é que você, como mensageiro do processo, chega a uma resposta como essa que ofereceu para a questão anterior?
Resp. – Não sei. Simplesmente começo a escrever e elas vão aparecendo na tela sem que eu pare pra pensar no que vou teclar. É mais automático do que racional.
Vê isso como uma
espécie de “psicografia” que lhe chega de um plano espiritual?
Resp. – O que sei é que não o sinto com esse formato que se costuma dar ao processo, e até me vem um sentimento de reagir de forma contrária a essa idéia, como se fosse uma espécie de “não”. Sei apenas descrever o que percebo, sem preocupação alguma com a origem nem com o destino, através de uma idéia ou pensamento instantâneo seguido de uma vontade que me força a interromper o que esteja fazendo para registrar o que sinto naquele mesmo instante, e divulgá-lo por um instrumento qualquer. Pode ser um meio eletrônico, onde sinto ser necessário selecionar pessoas em especial ou não, dependendo do conteúdo e por um critério que não escolho de forma lógica. Pode ser por um livro que precise iniciar, por um texto que dependa de uma pesquisa minha, por uma frase em forma de pensamento, ou até por uma simples imagem que passe algum tipo de entendimento. Nunca sei o que vai sair como resultado. Apenas a idéia surge clara na mente requerendo ser repassada a alguém que irá recebê-la, mas não sei quem, onde se encontra, nem quantos serão os receptores. Então simplesmente faço aquilo, sem buscar explicar porque tudo acontece. Aliás, odeio a idéia de me ver como “profeta”, mensageiro do além ou responsável por uma “missão”. Esse pensamento entra em conflito com sentimentos fortes e com outras convicções que trago dentro de mim acerca de minha própria realidade e a daquela que me cerca.
Mas como explica
então o que é levado à prática?
Resp. – Não sei dizer. Apenas que não procuro explicá-lo, e
nem se isso é ou não um papel delegado por uma “força” qualquer externa ao que
possa entender. Racionalmente nunca desenho a figura dessa tal força em minha
cabeça, pois que me enxergo repetindo a mesma história que as pessoas vêm
protagonizando há milênios para se sentirem especiais e “escolhidas”. Mas uma coisa é o que sinto através do meu
racional, e outra é o que sei que preciso fazer porque o sinto presente demais
em meu emocional para ignorá-lo. A questão é que não procuro encaixar isso em
nenhum modelo, ou dar a ele uma explicação à luz da minha lógica. Apenas sigo
meu instinto em vez de dar um nome a qualquer elemento do contexto todo. Penso
que se isso é algum tipo de “papel delegado” por uma força desconhecida
qualquer, seja que nome lhe dêem, ou se é algo criado dentro de minha própria
mente, para mim é o que menos importa. O que importa é o que eu sinto, preciso,
e externo. O resto não passa da necessidade humana de dar explicação pra tudo,
coisa com que eu não me preocupo, e procuro ficar atento para não entrar nesse
tipo de coisa! Se existe mesmo a tal força, não cabe a mim afirmá-la ou negá-la
para que continue existindo, pois que sua natureza seguirá a mesma,
independente de mim. Meu papel é estar aberto ao sim e ao não. Optar pelo sim
ou pelo não é demais pretensioso para meu entendimento. Qualquer dos lados
posiciona seu defensor como “dono da verdade”, daí que vejo “o caminho do meio”
como a forma mais honesta dentre todas, e a mais despretensiosa. Aceite-se
apenas buscador e espere. Se a verdade for possuidora de escolhas, ela
escolherá chegar a você ou não. O resto todo não vai além da vaidade de dominar
o conhecimento.
E o que tem de errado
em encaixar o que descobrimos em um modelo conhecido?
Resp. – Nada específico no que toca ao “errado”. Apenas eu
rejeito a ideia de uma forma natural e espontânea e procuro minha própria zona
de conforto, que é a de não enveredar por esse caminho comum das crenças e
interpretações tradicionais. Vejo um universo pleno demais de enigmas para que
humanos de um planetóide qualquer como o nosso se arrogue a sabedoria de querer
explicá-lo ou encaixá-lo em sua "caixinha de miudezas", reservando
uma gavetinha para cada uma delas. Será mesmo que precisamos entender tudo o
que ele nos apresenta? Vejo a busca uma necessidade absurdamente necessária, a
ponto de não passar um dia sequer sem sair em busca de alguma resposta, mas
contrariamente a isso a inteligência me lembra que nunca conseguiremos dominar
o conhecimento dessa imensidão toda, e então me recolho a minha insignificância
de alcançar um degrauzinho de cada vez, sem me preocupar em dar um salto maior
do que minha perna alcança, e muito menos pensar que cheguei à resposta final.
Nisso que você me perguntou, por exemplo, sobre o porquê do que faço a partir
dos pensamentos – e sentimentos – que me brotam na mente, eu reconheço haver
muita coisa acima do que conseguiria explicar à luz da minha própria lógica e
de tudo o que absorvi de conhecimento até aqui. Ficaria louco se tentasse
explicá-los por tais parâmetros. Sei que muitos também sentem o mesmo. Apenas
ao chegar nesse ponto uma enorme parcela dessas pessoas insiste em encaixá-las
em alguma “caixinha”, ou se arvoram ao patamar de se sentirem “mensageiros de
Deus” ou de alguma força que se sobrepõe a tudo o que conhecem. Ao contrário
disso, eu sinto que, atingido esse ponto, é hora de parar onde estou e não
ficar tentando pular de degrau. Se a resposta existir, em algum momento ela
chegará até mim. Se ainda não existir – e pouco importa qual seja sua origem –
fica claro que só me resta esperar ou esquecer, em vez de me colocar naquele
patamar de “anunciar a Nova ao mundo”. Meu papel é falar apenas do que entendo,
ou provocar as pessoas para que elas passem pelo mesmo processo de
questionamento por que passei. Mas encontrar ou não a resposta é papel de cada
um, e fazer o mesmo caminho mais ainda. Apesar de haver atuado como professor
minha vida inteira e parecer incoerente o que vou dizer, não acredito que
ninguém ensina nada para pessoa alguma. Apenas oferecemos algumas chaves – que
é o papel de quem se propõe a lidar com o conhecimento – mas quem abre ou não a
porta do depósito para guardar o que lhe parece importante é quem o recebe.
Essa forma tão
especial de pensar o que o cerca não induz as pessoas a pensar que toda a
vaidade que vê nesses “donos da verdade” também não se faz presente em você, e na
realidade o que deseja é se mostrar diferente, ou até superior à maioria das
pessoas?
Resp. – Já li em algum lugar que uma coisa é como nos vêem,
e outra é como realmente somos. Não sou responsável pela forma como me possam
enxergar ou pelo que as pessoas pensam a meu respeito. Só entendo daquilo que
trago em mim mesmo, e nem sempre de uma boa parte destas últimas. Mas minha
verdade não precisa ser reconhecida – e já falamos disso – para que seja
autêntica. Só eu preciso saber que é. E mesmo quando esse lado “especial” de
mim, que você mencionou, pareça arrogante aos outros, em mim bate apenas como
uma forte vontade interna de ser eu mesmo, ainda que o resto do mundo esteja
caminhando em sentido contrário. Arrogância é uma questão que depende da
relação entre quem exibe e quem observa. Essa vontade de que falo está em mim,
e não depende de quem quer que seja para se fazer presente. Então não a exibo,
no sentido da palavra, apenas a expresso como parte do que sou. Essa é a
diferença. Mas sim: não importando o que
sejamos ou o que mostremos, entre os que nos observam seremos sempre julgados
pelos parâmetros que trazem, e não pelo que somos realmente. Isso é inevitável,
e é um erro fingimos ser o que não somos na tentativa de ampliar o número dos
que gostam daquilo que é mostrado.

Eu havia terminado um treinamento no interior de Pernambuco, quando fui convidado por uma rádio local para explicar a metodologia da Análise Transacional, de Berne, dando causa à entrevista solicitada por João Alencar em seguida. O jornalista entretanto conduziu a conversa para um foco pessoal, em vez de se restringir à metodologia em si. Este é apenas um trecho dela.
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