Diário de um franco-libertário
Luiz Roberto Bodstein
Há pensamentos em forma de muralhas — e há os que apenas fluem como as correntes de um rio que não vê as pedras de seu leito como obstáculos a serem removidos: apenas as contorna e, tão suavemente quanto possa, deixa que ajustem seus formatos em seu próprio tempo. A liberdade autêntica apenas flui, seus anseios se resumem a trocar arestas por sinuosidades, e ‘adeptos’ por entes auto-ajustáveis desprovidos de “fôrmas” e formas.
O caminhar se traduz por silêncio entre ideias que se movem, deixando que cada uma encontre seu lugar natural — sem ingerência, sem pressa. Liberdade não definida e apenas percebida naquele instante em que o pensamento passa de comando a um suave respirar. E é quando o sentir desse ente pensante percorre o “dégradé” que parte da couraça para nuances etéricas de contenção impossível.
O pensamento coerente só deve fidelidade à sensatez de sua fonte e, ainda assim, por breves momentos até que nova luminescência o alcance, tendo a inércia como maior inimiga e a inquietude como o aliado mais confiável.
O pensamento franco-libertário não se vê modelo, professor ou juiz senão de si mesmo. Tudo o que quer é seguir ao léu em ondas que atraiam outras, talvez cansadas, em busca de uma praia a que possam dar mansamente, sem se chocar contra impávidos rochedos despidos de ternura. O identificar entre almas se faz por si mesmo, espontâneo e a seu tempo. Não há porque se ansiar que chegue.
Não traz como resposta a repulsa. Tampouco o ataque, mas lucidez. Mesmo não tendo na submissão uma possibilidade, sua luta contra a dominação é silente, quase imperceptível, mas avassaladora. Na despercebida resistência das ondas contra o rochedo sua força não se fará notável no momento do impacto, mas o tempo a tornará implacável. Ao rochedo só restará constatar que, no confronto entre a rigidez da pedra e a leveza da água, a certeza desta definiu o resultado ao não se desviar da própria essência. As ondas escolhem o silêncio ativo, a fidelidade íntima ao princípio maior de não trair o que se é. O resto é movimento, que a ele se faz sagrado. O existir se converte em espaço de ressonância, não de controle, onde todas as peças se ajustam em respeito mútuo às arestas: o erro, convertido em descoberta, é benfazeja; a dúvida, transmutada em luz, é bem-vinda; e o instante, quando significativo, transforma-se em marca indelével.
O franco-libertário entende o pensamento como algo tão livre e vital quanto o ar. Como tal, não o aprisiona em moldes — deixa-o solto como quando se respira a brisa que nos chega. Em lugar de certezas, escolhe presença, cônscio de que liberdade não é oposição nem isolamento, mas comunhão lúcida com o que se é. Sua mensagem, portanto, não é posta na ponta de um mastro, mas levada pelo vento como sementes lançadas da janela de um trem: muitas caem sobre rochas impenetráveis, e fenecem; algumas caídas sobre terras rasas não conseguem aprofundar suas raíses, e logo secam; outras, porém, encontrando terras férteis e profundas, se transformam pouco depois em árvores frondosas!

